Elionora
Parada no ponto observando o tamanho da fila, de longe ela percebe que vai ter de esperar o próximo ônibus se quiser viajar sentada. Dispõe-se a enfrentar a longa espera. Seus pés já começam a reclamar _”que péssima idéia vir trabalhar de salto logo hoje”— e, de vez em quando, ela sente umas fisgadas na coluna. É o peso de mais uma semana de trabalho árduo.
Para distrair a atenção observa os ambulantes que sempre têm novidades, especialmente nessa época do ano. “ Natal é tempo de renovação das esperanças e do guarda-roupa também”. Camisetas brancas, de time de futebol, calças jeans, tênis, sapatos, óculos, todo tipo de bugigangas.
Que estarão fazendo os filhos, sozinhos em casa tão tarde? Dentro em breve será noite e ela não vê a hora de chegar em casa e poder abraçar os pirralhos. Dar a janta antes que eles caiam num sono pesado de chumbo para só acordar na manhã seguinte.
O ônibus chega afinal. Contrariando suas previsões, dessa vez ela vai ter que viajar de pé. Paciência. Importante nesse momento é poder chegar um pouco mais cedo em casa. Enquanto caminha lentamente seguindo a primeira fila, ergue os olhos cansados para o céu que a envolve na beleza dourada e esquecida do poente, como se fosse um presente feito só para ela. Manchas indecisas aparecem em tons cinza-azulados, enquanto as primeiras lâmpadas são acesas na cidade. Ela suspira profundamente. Sente-se recompensada por aquele momento de intimidade com o infinito. Enfim a lotação parte, deixando cada vez mais longe o som duma canção antiga. –“California Dreaming – quem será que canta mesmo?” Está tocando numa vitrine enfeitada de Natal e traz lembranças que ela preferia esquecer, recordações dum tempo feliz, porém muito antigo. Quando sonhos, desejos e a esperança corria solta em cada pequenino gesto. Em cada olhar. Os dedos fortes e quentes a aquecer-lhe as mãos no frêmito da despedida. Olhos tão próximos que ainda parecia sentir-lhe o hálito doce.
_ Quando você vem agora?
_ Eu te ligo amanhã de tarde.
O marido é o passado. Faz parte das lembranças entranhadas no recôndito de sua mocidade. Olhar perdido no horizonte, mão que segura firme na barra de ferro, ela faz força para não cair quando o motorista faz uma curva mais fechada. Tinham sido colegas; fora o primeiro namorado; primeiro homem; o grande amor de sua vida. Fora também o pais de seus dois moleques. Um sujeito fraco “que não segurou quando as dificuldades começaram a crescer enquanto a família também crescia”. Desempregado e vivendo de pequenos expedientes, fugiu assim que o menino mais novo nasceu.
Logo depois da farmácia vem a sua parada.
Os pés já não doem tanto, pois dum jeito ou de outro, devem ter descansado um pouco durante aquela última hora de viagem. Quando ela desce da condução, seu coração vem cheio de alegria renovada pelo amor da sua família. Sente-se recompensada quando, ao abrir o portão, ouve o rumor de pezinhos felizes que correm dum lado para o outro e uma voz que grita: _ Oba, a mamãe chegou!
sábado, junho 16, 2007
Lá Tá
Frederico Helou Doca de Andrade
Um dia, ele achou no lixo uma lata de sardinha vazia. No fundo dela, viu seu reflexo todo engordurado: rosto esquálido, maçãs murchas penduradas no nariz afilado e parecido com um brócolis que acabara de ser dispensado por um dona-de-casa gordaça e esbanjadora, lábios tão quebradiços que poderiam beber todo o sumo de uma manga corpulenta e, mesmo assim, permanecerem secos; olhos cor de jabuticaba caída perto das raízes da jabuticabeira. Não podia conter-se com a beleza mórbida da própria face – não sabia o que era espelho.
Quem passava por aquele beco vadio e escuro, em pleno horário de almoço, com a rua ao lado abarrotada da gente mais grã-fina e esnobe (feito esses poodles que empinam o nariz depois que marcam território com sua mijadinha de ouro), desembainhava imediatamente seus óculos escuros dos estojinhos italianos e espiava o mundo pobre com olhar disfarçado por uma máscara preta, ladra da luz solar e da curiosidade dos que têm educação numa conversa face a face.
Mas ele nem ligava para o que se passava na boulevard. Encafifara-se com a bendita lata de sardinha. Não era qualquer lata aquela. Era a lata de sardinha que continha a fome que ele procurara por toda a vida: fome de si mesmo. Muito tentadora aquela lata. “Dá vontade de comer”, pensou. Uma lata assim, ovalada e estrelando um novo garoto-propaganda, substituindo a sardinha com sorriso esfaimado e chapéu de mestre-cuca. Esta, pintada sobre um fundo azul, todo amassado e com fendas feitas por um abridor de latas, conversava com nosso astro: “Sardinhas Godinez – as mais seletas”. É claro que ele não sabia ler, mas percebia que tinha sido selecionado por ela.
___ Há! há! há! há! há! há! há! há! há! Esse mendigo pensa que é gente – comentou um empresário rosado e roliço.
___ Não perde tempo com essa coisa não, docinho – respondeu sua mulher, que tinha o corpo curvado como o de um pingüim e seios que pagavam duas entradas no cinema.
Esses comentários maldosos não quebraram a concentração do nosso admirador de latas de sardinha. Muito pelo contrário: ele passou de um estágio “homem espectador de lata” para o de “homem-lata”. Enlatou-se, simplesmente. Lá dentro, ele via-se comendo cada um dos finíssimos pratos dos restaurantes da boulevard – comia os de louça chinesa, os de porcelana inglesa e depois passava à prataria, que o cegava, de tão faiscante que era o sabor – não sabia o que era comer com talheres.
Pagou a conta dessa fome toda de ser – sua primeira e última epifania –, com seu corpo sendo esmagado pelo caminhão das Sardinhas Godinez. Não tinha importância. Soube o que era saciar uma das fomes que não precisavam de bolsos gordos: sonhar.
Um dia, ele achou no lixo uma lata de sardinha vazia. No fundo dela, viu seu reflexo todo engordurado: rosto esquálido, maçãs murchas penduradas no nariz afilado e parecido com um brócolis que acabara de ser dispensado por um dona-de-casa gordaça e esbanjadora, lábios tão quebradiços que poderiam beber todo o sumo de uma manga corpulenta e, mesmo assim, permanecerem secos; olhos cor de jabuticaba caída perto das raízes da jabuticabeira. Não podia conter-se com a beleza mórbida da própria face – não sabia o que era espelho.
Quem passava por aquele beco vadio e escuro, em pleno horário de almoço, com a rua ao lado abarrotada da gente mais grã-fina e esnobe (feito esses poodles que empinam o nariz depois que marcam território com sua mijadinha de ouro), desembainhava imediatamente seus óculos escuros dos estojinhos italianos e espiava o mundo pobre com olhar disfarçado por uma máscara preta, ladra da luz solar e da curiosidade dos que têm educação numa conversa face a face.
Mas ele nem ligava para o que se passava na boulevard. Encafifara-se com a bendita lata de sardinha. Não era qualquer lata aquela. Era a lata de sardinha que continha a fome que ele procurara por toda a vida: fome de si mesmo. Muito tentadora aquela lata. “Dá vontade de comer”, pensou. Uma lata assim, ovalada e estrelando um novo garoto-propaganda, substituindo a sardinha com sorriso esfaimado e chapéu de mestre-cuca. Esta, pintada sobre um fundo azul, todo amassado e com fendas feitas por um abridor de latas, conversava com nosso astro: “Sardinhas Godinez – as mais seletas”. É claro que ele não sabia ler, mas percebia que tinha sido selecionado por ela.
___ Há! há! há! há! há! há! há! há! há! Esse mendigo pensa que é gente – comentou um empresário rosado e roliço.
___ Não perde tempo com essa coisa não, docinho – respondeu sua mulher, que tinha o corpo curvado como o de um pingüim e seios que pagavam duas entradas no cinema.
Esses comentários maldosos não quebraram a concentração do nosso admirador de latas de sardinha. Muito pelo contrário: ele passou de um estágio “homem espectador de lata” para o de “homem-lata”. Enlatou-se, simplesmente. Lá dentro, ele via-se comendo cada um dos finíssimos pratos dos restaurantes da boulevard – comia os de louça chinesa, os de porcelana inglesa e depois passava à prataria, que o cegava, de tão faiscante que era o sabor – não sabia o que era comer com talheres.
Pagou a conta dessa fome toda de ser – sua primeira e última epifania –, com seu corpo sendo esmagado pelo caminhão das Sardinhas Godinez. Não tinha importância. Soube o que era saciar uma das fomes que não precisavam de bolsos gordos: sonhar.
Proibido Fumar
Ju Marry
Acordou, viu só o branco da fumaça. Mal podia distinguir a porta, o corpo nu de Grazielle estampado na noite anterior. Ao fundo escutou a tosse da mãe, que na cozinha preparava seu café. Mesmo pão francês e leite morno há anos, ele sentava e sua mãe servia. Então, como dispunha de tempo, ela lia as ofertas de emprego na quinta ou comentava as notícias de maior repercussão. Desta vez, a cozinha e a mãe eram um só corpo de fumaça servil e desgastado. Perguntou onde era o incêndio, numa voz seca e fraca disse que era a poluição agravada pelas queimadas. Tossiu e sentiu os olhos arderem, saiu sem se despedir, sem pensar o que a mãe faria na ausência do jornal.
Saiu, na rua as pessoas se chocavam, tropeçavam em elevações de calçada, em latas de lixo; os automóveis estavam parados nas ruas e avenidas, abertos e vazios, com seus condutores boquiabertos e vociferantes, tendo que tragar a fumaça e o atraso matutino no trabalho. Mas seria um dia normal? Alguém conseguiria trabalhar?
Encontrou Betina nas escadarias do prédio da faculdade, descia agachada, com as mãos nos degraus, e só a viu, porque foi ela quem desde cima o avistou. As aulas estavam canceladas, era impossível ver rostos dentro das salas, sem falar na palavra escrita. A fumaça era tanto, que grupos de desordeiros faziam magia negra e sexo nos corredores de cima. O único guarda estava de cama, e ninguém queria impor controle: Deus lhes acuda, professores e alunos saiam em debandada para suas casas. Na escadaria, a disputa era grande pelos corrimãos de mármore, na falta de sorte, ficava-se com a segurança dos traseiros. Perambulou pelo corredor central e logo saiu, ali era o lugar que não podia ficar.
Ao ganhar as ruas, tomou uma golfada de ar, mas se arrependeu quando sentiu a fumaça secar sua garganta. E agora? Para onde e como ir? A tosse atingiu com selvageria seus fracos pulmões de fumante, e que ironia pensar agora no seu cigarro. Ficaria em abstinência até que aquela fumaça invasora deixasse São Paulo. Nas calçada, perto do Brás, voltou a chocar-se com uma pessoa, desta vez uma garota. Pediu desculpas, continuou a passos firmes e olhou para trás, ela parecia ser uma garota por quem ele se apaixonara aos doze anos. Tarde demais, ela se desfez como fumaça, e era preciso dar as costas para a fumaça que agora trazia seu pai, acumulando tocos de cigarros na fase terminal.
Atravessou a avenida, tumultuada com o andar e desviar de corpos. Alcançou a calçada e continuou, mais meia hora de fumaça na cara e estaria em casa. Quando chegou, a fumaça se dispersava em seu bairro, varrida pelos novos ventos. Entrou em casa e viu a mãe caída no corredor, o telefone ao seu lado, mudo. Pensou nos seus minutos de agonia, em si…, não estava proibido fumar.
Acordou, viu só o branco da fumaça. Mal podia distinguir a porta, o corpo nu de Grazielle estampado na noite anterior. Ao fundo escutou a tosse da mãe, que na cozinha preparava seu café. Mesmo pão francês e leite morno há anos, ele sentava e sua mãe servia. Então, como dispunha de tempo, ela lia as ofertas de emprego na quinta ou comentava as notícias de maior repercussão. Desta vez, a cozinha e a mãe eram um só corpo de fumaça servil e desgastado. Perguntou onde era o incêndio, numa voz seca e fraca disse que era a poluição agravada pelas queimadas. Tossiu e sentiu os olhos arderem, saiu sem se despedir, sem pensar o que a mãe faria na ausência do jornal.
Saiu, na rua as pessoas se chocavam, tropeçavam em elevações de calçada, em latas de lixo; os automóveis estavam parados nas ruas e avenidas, abertos e vazios, com seus condutores boquiabertos e vociferantes, tendo que tragar a fumaça e o atraso matutino no trabalho. Mas seria um dia normal? Alguém conseguiria trabalhar?
Encontrou Betina nas escadarias do prédio da faculdade, descia agachada, com as mãos nos degraus, e só a viu, porque foi ela quem desde cima o avistou. As aulas estavam canceladas, era impossível ver rostos dentro das salas, sem falar na palavra escrita. A fumaça era tanto, que grupos de desordeiros faziam magia negra e sexo nos corredores de cima. O único guarda estava de cama, e ninguém queria impor controle: Deus lhes acuda, professores e alunos saiam em debandada para suas casas. Na escadaria, a disputa era grande pelos corrimãos de mármore, na falta de sorte, ficava-se com a segurança dos traseiros. Perambulou pelo corredor central e logo saiu, ali era o lugar que não podia ficar.
Ao ganhar as ruas, tomou uma golfada de ar, mas se arrependeu quando sentiu a fumaça secar sua garganta. E agora? Para onde e como ir? A tosse atingiu com selvageria seus fracos pulmões de fumante, e que ironia pensar agora no seu cigarro. Ficaria em abstinência até que aquela fumaça invasora deixasse São Paulo. Nas calçada, perto do Brás, voltou a chocar-se com uma pessoa, desta vez uma garota. Pediu desculpas, continuou a passos firmes e olhou para trás, ela parecia ser uma garota por quem ele se apaixonara aos doze anos. Tarde demais, ela se desfez como fumaça, e era preciso dar as costas para a fumaça que agora trazia seu pai, acumulando tocos de cigarros na fase terminal.
Atravessou a avenida, tumultuada com o andar e desviar de corpos. Alcançou a calçada e continuou, mais meia hora de fumaça na cara e estaria em casa. Quando chegou, a fumaça se dispersava em seu bairro, varrida pelos novos ventos. Entrou em casa e viu a mãe caída no corredor, o telefone ao seu lado, mudo. Pensou nos seus minutos de agonia, em si…, não estava proibido fumar.
AS VELAS, O BRILHO E O TRABALHO
Elionora Costa
Ele esteve sombrio e inquieto durante toda a manhã. Era dia de Finados e com o céu meio turvo e ameaçando garoa, dirigiu-se com a mulher ao pequeno cemitério local. Caminharam sem pressa pelas alas iniciais. Depois de cumprimentar alguns vivos -mais ou menos íntimos -, inventou uma desculpa esfarrapada sobre o guarda-chuva, e conseguiu desvencilhar-se da mulher que o tempo inteiro ficara a seu lado. Ela sumira por entre uma ala de arbustos meio desfolhados, ele desapareceu no caminho oposto. Andando com determinação, ia cumprir o dever anual que se auto-impusera: visitar o número L-374.
Ninguém sabia que aquela era uma data única para ele. O lugar, normalmente ermo e carregado de um silêncio de pedra, regurgitava; ficava entupido de gente. Eram conversas de negócios, viagens, sobre artistas. Era meu marido isso; meu filho aquilo; cê soube menina? De vez em quando não conseguia evitar um constrangimento..... Uma revolta íntima. Dia dos mortos afinal!
No campo sagrado não havia mausoléus, capelas ou jazigos de família excessivamente adornados com símbolos que classificam as pessoas segundo o que elas possuem. Mesmo depois de mortas. As edificações individuais ficavam no chão e o campo, a perder de vista, assemelhava um imenso e bem cuidado jardim. Um pequeno riacho corria ali perto, guardando as raízes das árvores e a beleza de um único jacarandá solitário, imenso, de tronco enrugado pelos anos. Cujos braços gigantescos pareciam acolher a terra e desafiar os céus. Ao redor tudo era luz e paz e ele se sentia quase feliz, imerso no infinito e liberado pelos seus fantasmas. Quem o visse de pé, solene, chapéu na mão, pensaria que rezava. Mas ele estava era lembrando o passado e contando os seus mortos. Com maiores cuidados tirou do bolso do paletó a vela que trazia escondida, discreta. Acendeu e meio que rezou uma prece: ele que não freqüentava igreja nem templos.
Nos últimos tempos dera para ter maus sonhos. Eram pesadelos onde naufragava em águas vermelhas de líquido pastoso, ou via-se curvado para o centro da terra. Dobrado em dois, sendo tragado pela terra. Via nervos, músculos, bílis e ossos triturados em sangue e fezes. Uma fileira incontável de velas-luzes bruxuleantes dançavam ao seu redor e mesmo sem contar, ele sabia que eram quatrocentas. Ou mais. Sentia muito frio e um peso infinito sobre os membros o impedia de libertar-se e fugir...
A esposa o cutucava forte: _ Acorda, João!!... Outro pesadelo?
Ao ouvi-la saiu de seu devaneio, divisando o vulto de passos lentos por entre a aléia esquerda. Recompôs-se rapidamente buscando um assunto coloquial. Ela jamais poderia imaginar quem fora o velhinho baixo, de calvície avançada, que usava chapéu de feltro tipo cury e tinha fama de avesso a arengueiros. Já no fim da vida, só os mais íntimos de casa sabiam que ele à noite usava a comadre.
Quem visse o fervor com que cumpria a obrigação no Finados, o interesse piedoso com que assuntava o campo santo, não poderia imaginar o assassino frio e cruel que matava por conveniência, dinheiro ou prazer. Acerto de contas alheias. Apenas trabalho. / //
Ele esteve sombrio e inquieto durante toda a manhã. Era dia de Finados e com o céu meio turvo e ameaçando garoa, dirigiu-se com a mulher ao pequeno cemitério local. Caminharam sem pressa pelas alas iniciais. Depois de cumprimentar alguns vivos -mais ou menos íntimos -, inventou uma desculpa esfarrapada sobre o guarda-chuva, e conseguiu desvencilhar-se da mulher que o tempo inteiro ficara a seu lado. Ela sumira por entre uma ala de arbustos meio desfolhados, ele desapareceu no caminho oposto. Andando com determinação, ia cumprir o dever anual que se auto-impusera: visitar o número L-374.
Ninguém sabia que aquela era uma data única para ele. O lugar, normalmente ermo e carregado de um silêncio de pedra, regurgitava; ficava entupido de gente. Eram conversas de negócios, viagens, sobre artistas. Era meu marido isso; meu filho aquilo; cê soube menina? De vez em quando não conseguia evitar um constrangimento..... Uma revolta íntima. Dia dos mortos afinal!
No campo sagrado não havia mausoléus, capelas ou jazigos de família excessivamente adornados com símbolos que classificam as pessoas segundo o que elas possuem. Mesmo depois de mortas. As edificações individuais ficavam no chão e o campo, a perder de vista, assemelhava um imenso e bem cuidado jardim. Um pequeno riacho corria ali perto, guardando as raízes das árvores e a beleza de um único jacarandá solitário, imenso, de tronco enrugado pelos anos. Cujos braços gigantescos pareciam acolher a terra e desafiar os céus. Ao redor tudo era luz e paz e ele se sentia quase feliz, imerso no infinito e liberado pelos seus fantasmas. Quem o visse de pé, solene, chapéu na mão, pensaria que rezava. Mas ele estava era lembrando o passado e contando os seus mortos. Com maiores cuidados tirou do bolso do paletó a vela que trazia escondida, discreta. Acendeu e meio que rezou uma prece: ele que não freqüentava igreja nem templos.
Nos últimos tempos dera para ter maus sonhos. Eram pesadelos onde naufragava em águas vermelhas de líquido pastoso, ou via-se curvado para o centro da terra. Dobrado em dois, sendo tragado pela terra. Via nervos, músculos, bílis e ossos triturados em sangue e fezes. Uma fileira incontável de velas-luzes bruxuleantes dançavam ao seu redor e mesmo sem contar, ele sabia que eram quatrocentas. Ou mais. Sentia muito frio e um peso infinito sobre os membros o impedia de libertar-se e fugir...
A esposa o cutucava forte: _ Acorda, João!!... Outro pesadelo?
Ao ouvi-la saiu de seu devaneio, divisando o vulto de passos lentos por entre a aléia esquerda. Recompôs-se rapidamente buscando um assunto coloquial. Ela jamais poderia imaginar quem fora o velhinho baixo, de calvície avançada, que usava chapéu de feltro tipo cury e tinha fama de avesso a arengueiros. Já no fim da vida, só os mais íntimos de casa sabiam que ele à noite usava a comadre.
Quem visse o fervor com que cumpria a obrigação no Finados, o interesse piedoso com que assuntava o campo santo, não poderia imaginar o assassino frio e cruel que matava por conveniência, dinheiro ou prazer. Acerto de contas alheias. Apenas trabalho. / //
Conto da hora
Frederico Helou Doca
Ele sempre está preocupado com o relógio: falta uma hora! Ontem, também preocupado com os ponteiros, dizia para si mesmo: por que sou escravo do tempo? Não quero ser assim, não quero ter esse peso dos minutos que já foram e dos que estão por vir nas minhas costas.
Crônico sempre fora uma pessoa ansiosa: na hora de se vestir, deixava um combinado de roupas em cima do criado mudo. Sempre se programou para tudo na vida: de uma simples escovada nos dentes até quantos pães teria que comprar para o café do dia seguinte.
__ Bom dia, seu Raimundo!
__ Bom dia, Crônico.
Nove e cinco.
Ele sai do quinto andar para o trabalho. Gosta do prazer de cronometrar o itinerário.
Nove e quinze.
Bom dia a todos! Oi, Crônico. Bom dia! Tem uma pilha de trabalho na sua mesa. Droga! – pensa alto.
Nove e meia.
Hora de tomar meu cafezinho. Pensa em quantas gotas de adoçante tem de pôr, ao mesmo tempo em que calcula a força necessária para erguer a alça do bule, posicionar o pires sobre a mesa com rodinhas e a quantidade do líquido a ser inserida. Que merda! Caiu café na minha gravata!
Nove e trinta e seis.
Crônico, cadê os relatórios? Ah, tava no banheiro limpando minha gravata, seu Antônio. Não vá atrasar com isso porque tô doente de tanto ficar esperando, viu? Ele fica com aquela expressão de pânico: não sabe se olha para o relógio, para a gravata, para o chefe, para a mesa com as pernas ficando bambas ou para quantos grãos de areia vai gastar até mover o sapato lustroso sobre um chiclete cinzento em que fica reparando.
Nove e quarenta.
Alice, vem me dar uma ajuda com essa papelada? Ah, Crônico, agora não dá. Tô sem tempo!
Dez horas.
Infarto fulminante. Os colegas de Crônico calculam quanto tempo terão para despachar seu cadáver para o rabecão.
Ele sempre está preocupado com o relógio: falta uma hora! Ontem, também preocupado com os ponteiros, dizia para si mesmo: por que sou escravo do tempo? Não quero ser assim, não quero ter esse peso dos minutos que já foram e dos que estão por vir nas minhas costas.
Crônico sempre fora uma pessoa ansiosa: na hora de se vestir, deixava um combinado de roupas em cima do criado mudo. Sempre se programou para tudo na vida: de uma simples escovada nos dentes até quantos pães teria que comprar para o café do dia seguinte.
__ Bom dia, seu Raimundo!
__ Bom dia, Crônico.
Nove e cinco.
Ele sai do quinto andar para o trabalho. Gosta do prazer de cronometrar o itinerário.
Nove e quinze.
Bom dia a todos! Oi, Crônico. Bom dia! Tem uma pilha de trabalho na sua mesa. Droga! – pensa alto.
Nove e meia.
Hora de tomar meu cafezinho. Pensa em quantas gotas de adoçante tem de pôr, ao mesmo tempo em que calcula a força necessária para erguer a alça do bule, posicionar o pires sobre a mesa com rodinhas e a quantidade do líquido a ser inserida. Que merda! Caiu café na minha gravata!
Nove e trinta e seis.
Crônico, cadê os relatórios? Ah, tava no banheiro limpando minha gravata, seu Antônio. Não vá atrasar com isso porque tô doente de tanto ficar esperando, viu? Ele fica com aquela expressão de pânico: não sabe se olha para o relógio, para a gravata, para o chefe, para a mesa com as pernas ficando bambas ou para quantos grãos de areia vai gastar até mover o sapato lustroso sobre um chiclete cinzento em que fica reparando.
Nove e quarenta.
Alice, vem me dar uma ajuda com essa papelada? Ah, Crônico, agora não dá. Tô sem tempo!
Dez horas.
Infarto fulminante. Os colegas de Crônico calculam quanto tempo terão para despachar seu cadáver para o rabecão.
Como posso dançar com esse cabelo ?
Elionora Silvério
A professora de Arte resolveu montar um grupo de dança na escola.
Ela sabia que podia participar, mas encolheu-se no fundo da carteira quando houve a seleção, sem coragem de levantar o braço. Aparecer na frente de todos... só de pensar ficava arrepiada.
Todas as dançarinas tinham vasta cabeleira que podiam jogar no compasso da música.
Cabelo, substância mortinha da silva. Tanto que se pode cortá-lo e não sentir dor..... “Se é coisa morta, por que tem tanto valor? Como posso dançar jazz com esse cabelo?”
Seus cabelos eram cortados rentes pela mãe que não tinha tempo nem jeito para cuidar deles.
Certa vez, na escola, ao atravessar o pátio do recreio distraída, levou uma bolada nas costas.
_ Negrinha ! cara de pavio,
cabelo de bombril ! Sai !!
Os moleques a brindavam ternamente. Chegou em casa murcha. Nem o doce de leite cremoso, nem o biscoito preferido foi capaz de animá-la. Estava com todas as dúvidas de não se saber; ficou assim por vários dias ainda repleta do incompreensível, enquanto o corpo de baile já elegia até um nome: As Andorinhas Voadoras. Naquela tarde bebeu uns dois litros d’água.
Próximo do Dia da Criança pediu um brinquedo à mãe. Queria uma boneca: linda, loura, imensa. Dessas que sabem caminhar e dizem coisas em tom robótico quando apertadas no ventre. Sentia-se ansiosa ou culpada por algo pesado, no ar, que a gente grande não comentava. A boneca iria ajudar afastando aquilo tudo. Mas ela não veio: teve de se contentar com uma cozinha em miniatura, de plástico cor de rosa, bem simples.
Uma nova família mudou-se para a vila onde ela morava.
Sua mãe contou que era um casal com duas meninas, porém, ela ficava encafifada porque passado já algum tempo, só tinha visto a mais velha das irmãs: Laura era seu nome. Fizeram amizade e de vez em quando brincavam juntas. Por ela soube que a irmã caçula tinha paralisia mental e não podia sair de casa.
Um dia, por acaso, conheceu a menina que não podia andar. Ela falava pouco e com muita dificuldade, mas gostava de ouvir histórias e de segurar na mão do outro enquanto prestava atenção deliciada. Seu olhar de entrega e confiança lembrava um cão beagle: aquele cachorrinho alegre, corajoso e muito ativo. Estava sentada à janela; segurava um pequeno galho em cuja ponta estava amarrado um saco plástico. O vento agitava a embalagem enquanto a menina ria feliz gritando: _ ..... DÉEE ....... QUÉEEE.... Era seu brinquedo preferido.
Na próxima data cívica teve festa na escola com apresentação do balé. Aos primeiros acordes conhecidos, a entrada das dançarinas vestidas todas iguais. Na apresentação do segundo número uma epifania reluzente diante de seus olhos: ia doar sua melhor boneca à menina paralisada. Nunca gostara muito dela mesmo; além disso já estava meio velha. Porém a mãe não podia saber..... Nem sempre os acordos infantis são bem vistos pelos mais velhos.
Depois da dança houve outros números musicais e até um pequeno teatro. Mas a cabeça da menina voava para longe de tudo. Na saída ela viu-se refletida na porta de vidro de uma das salas internas: parecia um pouco mais alta e sorria feliz consigo mesma. Pisando devagar entrou em casa completamente esquecida do incidente na escola, dos meninos, da dor. Ainda no corredor chamou a mãe apenas para ouvir-lhe o som da voz macio e conhecido. Embora fizesse muito calor e tivesse caminhado bastante, estranhamente naquela noite a menina não sentiu sede.
A professora de Arte resolveu montar um grupo de dança na escola.
Ela sabia que podia participar, mas encolheu-se no fundo da carteira quando houve a seleção, sem coragem de levantar o braço. Aparecer na frente de todos... só de pensar ficava arrepiada.
Todas as dançarinas tinham vasta cabeleira que podiam jogar no compasso da música.
Cabelo, substância mortinha da silva. Tanto que se pode cortá-lo e não sentir dor..... “Se é coisa morta, por que tem tanto valor? Como posso dançar jazz com esse cabelo?”
Seus cabelos eram cortados rentes pela mãe que não tinha tempo nem jeito para cuidar deles.
Certa vez, na escola, ao atravessar o pátio do recreio distraída, levou uma bolada nas costas.
_ Negrinha ! cara de pavio,
cabelo de bombril ! Sai !!
Os moleques a brindavam ternamente. Chegou em casa murcha. Nem o doce de leite cremoso, nem o biscoito preferido foi capaz de animá-la. Estava com todas as dúvidas de não se saber; ficou assim por vários dias ainda repleta do incompreensível, enquanto o corpo de baile já elegia até um nome: As Andorinhas Voadoras. Naquela tarde bebeu uns dois litros d’água.
Próximo do Dia da Criança pediu um brinquedo à mãe. Queria uma boneca: linda, loura, imensa. Dessas que sabem caminhar e dizem coisas em tom robótico quando apertadas no ventre. Sentia-se ansiosa ou culpada por algo pesado, no ar, que a gente grande não comentava. A boneca iria ajudar afastando aquilo tudo. Mas ela não veio: teve de se contentar com uma cozinha em miniatura, de plástico cor de rosa, bem simples.
Uma nova família mudou-se para a vila onde ela morava.
Sua mãe contou que era um casal com duas meninas, porém, ela ficava encafifada porque passado já algum tempo, só tinha visto a mais velha das irmãs: Laura era seu nome. Fizeram amizade e de vez em quando brincavam juntas. Por ela soube que a irmã caçula tinha paralisia mental e não podia sair de casa.
Um dia, por acaso, conheceu a menina que não podia andar. Ela falava pouco e com muita dificuldade, mas gostava de ouvir histórias e de segurar na mão do outro enquanto prestava atenção deliciada. Seu olhar de entrega e confiança lembrava um cão beagle: aquele cachorrinho alegre, corajoso e muito ativo. Estava sentada à janela; segurava um pequeno galho em cuja ponta estava amarrado um saco plástico. O vento agitava a embalagem enquanto a menina ria feliz gritando: _ ..... DÉEE ....... QUÉEEE.... Era seu brinquedo preferido.
Na próxima data cívica teve festa na escola com apresentação do balé. Aos primeiros acordes conhecidos, a entrada das dançarinas vestidas todas iguais. Na apresentação do segundo número uma epifania reluzente diante de seus olhos: ia doar sua melhor boneca à menina paralisada. Nunca gostara muito dela mesmo; além disso já estava meio velha. Porém a mãe não podia saber..... Nem sempre os acordos infantis são bem vistos pelos mais velhos.
Depois da dança houve outros números musicais e até um pequeno teatro. Mas a cabeça da menina voava para longe de tudo. Na saída ela viu-se refletida na porta de vidro de uma das salas internas: parecia um pouco mais alta e sorria feliz consigo mesma. Pisando devagar entrou em casa completamente esquecida do incidente na escola, dos meninos, da dor. Ainda no corredor chamou a mãe apenas para ouvir-lhe o som da voz macio e conhecido. Embora fizesse muito calor e tivesse caminhado bastante, estranhamente naquela noite a menina não sentiu sede.
Uma presença íntima
Elionora Silvério
Com passos lentos ela caminha sem pressa até a varanda de trás da casa.
Seu olhar inquieto se perde no céu de chumbo e no ar, frio para essa época do ano. É setembro. Uma frágil nesga de claridade cor de mel se avista ao longe, bem depois da curva da serra, lá onde deve ser outra cidade. Sente-se tristonha esta manhã, desde que soube do falecimento da madrinha querida. A notícia trouxe-lhe recordações de sua própria mãe: seu rosto bem feito, a voz suave, os braços confortáveis.
Dona Zefa nunca soube o que é preguiça. Contando bem, trabalha desde os sete anos de idade. Não conhecera o pai e a mãe falecera cedo, quando ela estava com doze para treze anos. Era então uma meninota levada da breca e cheia de vida. Vez em quando sua mãe aparece em seus sonhos e lembranças... as duas nunca se falam diretamente, no entanto, de algum modo conseguem se entender.
Menina ainda, desde que se soube gente, perguntava o porquê de tanto trabalho e sofrimento. A mãe explicava que era por elas serem pobres, não terem renda. A mãe nunca dissera (talvez nem ela própria soubesse) que a sua ínfima condição era em grande parte devido à cor. A cor da pele pesa.
Certa vez, na época da II Grande Guerra, ouvindo o radinho de pilha, bem mais valioso da família, souberam pela Rádio Nacional que o fim do conflito estava próximo. Estavam ambas sentadas na pequena mesa da cozinha. A mãe contava passagens de sua própria vida como se fosse sempre a primeira vez. Sua voz melodiosa pintava um mundo de cores vivas na imaginação infantil. Dizia que as filas para adquirir os gêneros de primeira necessidade estavam cada vez maiores e mais tumultuadas. Além de caros eram limitados: o açúcar, o pão e o sabão. Para atualizar o cartão de racionamento era necessário chegar de madrugada e esperar muito. Que uma idosa tinha desmaiado de cansaço de tanto esperar, que outra, uma mulher gorda, tinha armado tremenda confusão ao fingir que segurava um bebê no colo. Como as grávidas e crianças pequenas tinham preferência na fila, esta mulher havia usado um gato como disfarce. O gato porém escapou de sob os panos desmascarando sua dona.
Certo dia a mãe chegou desanimada do trabalho:
“O presidente Getúlio mandou fechar os cassinos. E agora.... a gente vai viver do quê ?”
Sem poder trabalhar em hotelaria, voltara às casas de família. Ontem, como hoje, não havia escolhas na localidade do Espinhaço.
Estava muito difícil à mãe manter a si própria e às duas crianças, sem família que a amparasse. Com muita dor, precisou deixar o menino mais velho, e partiu para a capital levando a menina. Nunca se recuperou de todo daquela separação e finalmente faleceu sem tê-lo reencontrado.
Hoje é um dia muito especial. Há um novo programa de rádio chamado “Encontros do Coração” – que promove o reencontro de amigos e parentes que há muito não se vêem. Dona Zefa mandou uma carta e com o coração morno de esperança, mais uma vez senta-se ao lado do radinho, na expectativa de ouvir o nome de seu irmão. Na noite anterior ela tivera um sonho estranho com sua mãe. Desta vez ela parecia estar mais distante, seu semblante se desvanecendo como se fosse uma sombra pouco nítida, até tornar-se um borrão. Encontrava-se junto à sombra de uma árvore gigantesca e, antes de desaparecer de todo, sorriu e disse:
- Aqui e agora a tua procura chega ao fim.
Gravidade
Fredrico Helou Doca de Andrade
A barriga pesava – era uma forma tão saliente, que inclinava-se aos passantes da rua Filho, encarando-os com sua feição gorda e de lábios sempre fechados, assoviando a quem quer que fosse: “o que é que tá pegando, hein, minha filha? faz nove meses que eu tô tentando emagrecer”. A população ficava escandalizada com o jeito infantil daquela gravidade toda – suspensa por milagre. Nem Newton poderia acreditar que uma coisa tão rotunda daquelas pudesse fazer com que sua maçã caísse por terra.
“Isto” tinha nome. Isto não no sentido demonstrativo, mas no sentido indicativo de algo medonhamente criado: Dona Peso. Morava no apartamento 6 na mesma rua em que todos os dias era afrontada. Nenhum filho para consolá-la, já que os dois que parira haviam seguido o rumo contrário do caminho das cegonhas: foram ganhar os céus como comissários de bordo; gêmeos idênticos, profissões idênticas, mas um desprezo idêntico pela mãe, que julgavam, por ter uma aparência tão asquerosa, tão grávida de preconceitos alheios.
Sua única amiga era Docinho, uma moça de 23 anos, esguia, mãe solteira e com 10 brigadeiros de vantagem em relação às outras moças do bairro que organizavam festas infantis. Tinha uma mão cheia e ligeira para enrolar fregueses e cajuzinhos ao mesmo tempo. Eram inseparáveis. D. Peso vivia tricotando, na varanda geminada à da companheira, zombarias em resposta aos olhos impregnados de um sorrisinho de escárnio e ironia. Quem visse as duas daquele jeito, com certeza falaria que era uma versão feminina de O Gordo e o Magro.
Era dia de festa nos arredores da rua Filho. A filha da lavadeira encomendara uma festa farta a Docinho. Esta, à amiga, D. Peso, pedira que se vestisse de palhaça, pois levara um bolo do animador de festinhas infantis, que ligara avisando ter tido uma disenteria em decorrência de um glacê estragado.
___ Ah, Barriguinha. Minha barriguinha saradinha. Vamos! Não custa nada, vai. É só você colocar os suspensórios, o narizinho de morango e animar a molecada. Já pensou depois no cachê da lavadeira, hein? Vai dar pra você comprar um monte de sonhos na padaria.
Depois da insistência que tivera que empurrar goela abaixo na amiga (pois era mais estudada e tinha um poder persuasivo), a festa se iniciou com os tradicionais comes e bebes, que eram de dar água nos olhos, de tão lindos e multicoloridos que eram.
Lá pelas tantas, com todos já fartos de guloseimas e as manguinhas das camisas de tecidos xadrez manchadas de jogo da velha de bolinhas de chocolate e xis de creme, veio o número de D. Peso. Ficou de frente para a platéia, toda maquiada: era uma pintura triste e enfadonha, cujas tintas escorriam e pingavam no chão decorado de papel crepom. Calara-se diante de todos para depois anunciar o que acabara de saber: “os gêmeos, minha gente! os gêmeos! acabou o sonho!”.
A barriga pesava – era uma forma tão saliente, que inclinava-se aos passantes da rua Filho, encarando-os com sua feição gorda e de lábios sempre fechados, assoviando a quem quer que fosse: “o que é que tá pegando, hein, minha filha? faz nove meses que eu tô tentando emagrecer”. A população ficava escandalizada com o jeito infantil daquela gravidade toda – suspensa por milagre. Nem Newton poderia acreditar que uma coisa tão rotunda daquelas pudesse fazer com que sua maçã caísse por terra.
“Isto” tinha nome. Isto não no sentido demonstrativo, mas no sentido indicativo de algo medonhamente criado: Dona Peso. Morava no apartamento 6 na mesma rua em que todos os dias era afrontada. Nenhum filho para consolá-la, já que os dois que parira haviam seguido o rumo contrário do caminho das cegonhas: foram ganhar os céus como comissários de bordo; gêmeos idênticos, profissões idênticas, mas um desprezo idêntico pela mãe, que julgavam, por ter uma aparência tão asquerosa, tão grávida de preconceitos alheios.
Sua única amiga era Docinho, uma moça de 23 anos, esguia, mãe solteira e com 10 brigadeiros de vantagem em relação às outras moças do bairro que organizavam festas infantis. Tinha uma mão cheia e ligeira para enrolar fregueses e cajuzinhos ao mesmo tempo. Eram inseparáveis. D. Peso vivia tricotando, na varanda geminada à da companheira, zombarias em resposta aos olhos impregnados de um sorrisinho de escárnio e ironia. Quem visse as duas daquele jeito, com certeza falaria que era uma versão feminina de O Gordo e o Magro.
Era dia de festa nos arredores da rua Filho. A filha da lavadeira encomendara uma festa farta a Docinho. Esta, à amiga, D. Peso, pedira que se vestisse de palhaça, pois levara um bolo do animador de festinhas infantis, que ligara avisando ter tido uma disenteria em decorrência de um glacê estragado.
___ Ah, Barriguinha. Minha barriguinha saradinha. Vamos! Não custa nada, vai. É só você colocar os suspensórios, o narizinho de morango e animar a molecada. Já pensou depois no cachê da lavadeira, hein? Vai dar pra você comprar um monte de sonhos na padaria.
Depois da insistência que tivera que empurrar goela abaixo na amiga (pois era mais estudada e tinha um poder persuasivo), a festa se iniciou com os tradicionais comes e bebes, que eram de dar água nos olhos, de tão lindos e multicoloridos que eram.
Lá pelas tantas, com todos já fartos de guloseimas e as manguinhas das camisas de tecidos xadrez manchadas de jogo da velha de bolinhas de chocolate e xis de creme, veio o número de D. Peso. Ficou de frente para a platéia, toda maquiada: era uma pintura triste e enfadonha, cujas tintas escorriam e pingavam no chão decorado de papel crepom. Calara-se diante de todos para depois anunciar o que acabara de saber: “os gêmeos, minha gente! os gêmeos! acabou o sonho!”.
segunda-feira, março 26, 2007
Vi
Juliana Padilha
Então vi sua luz e sabia que era ele, como quando era criança e achava que via seu rosto atrás de minhas lágrimas ofuscadas pela luz do criado-mudo. Lembrei-me do seu rosto desenhado num quadro no corredor da escola. Em fila, seguindo os meus colegas em passos lentos, encontrava seus olhos, parecia também me seguir, mais do que eu a ele, que dava meus primeiros passos também até sua casa, aprendia sobre sua vida, a agradecer-lhe o que tinha e não tinha. Meu pai obrigava-nos a fazer-lhe reverência , ele deveria ser tudo. Então, uma vez que estava triste, porque minha mãe havia saído para trabalhar quando todos dormiam, temi pela sua vida. Um choro convulsivo começou a sair de dentro de mim como água represada, quase afogada num sentimento de orfandade, sosseguei quando vi a luz tocar seu rosto, que me observava do alto da parede. Ele estava ali e por um inominável mistério chegava até mim, até a coberta que me tapava no frio de julho, até meu peito branco soluçante, até o coração que batia quente de sangue, até o que estava além dos glóbulos vermelhos e hemácias, que tudo sente e permanece no infinito universo. Juntei minhas mãozinhas e senti sua PAZ. Desde de então, tentei seguir seus passos, às vezes tropeçando, errando o caminho, seguindo a passos lentos.
Dizem que quando chega o momento, toda nossa vida vem à mente para selar o ritual de despedida. Lembro apenas de ter visto meus olhos fecharem-se nos olhos de minha mãe, depois tudo ficou mais branco e leve, a dor não podia vir comigo, ficou sem ser percebida. Fui andando na sua direção, uma suave brisa fazia alvas nuvens de fumaça dançarem, a luz ficava mais forte, tudo no mais completo silêncio, até minha voz interior. Olhei para sua face, sempre distante, a luz é que se fazia mais intensa. Que bom que estou com você. Todos estão com você. Onde? Dentro e fora de você. Pensei em minha mãe, a vi saindo do hospital sozinha, entrar no carro de meu tio e não dizer uma palavra até sua casa. Queria tocar, abraçar, e quando estendi meu braço, estava de novo no caminho da luz, apontando para ele, com redemoinhos de vento sobre minhas pupilas. Não… gritei, então vi seu rosto, que quase tocou o meu e ficou pertinho… desenhado por diferentes tons de luz, maior, flutuante no ar que eu julgava ainda consumir. Por que tudo tem que acabar, é um infinito sofrimento este… Escutei o eco de minha voz três vezes, e foi com sua voz que ele o interrompeu. Somos um só, mesmo com tantas diferenças. O universo está num cadenciado e ininterrupto movimento, somos o Tempo dividido, sonhado, vivido. Desde a Idade da Pedra somos um só corpo e seus infinitos desdobramentos. E Deus? Pensei. Ele é você, eu e os outros… seja bem-vindo ao Mistério da Vida. Tentei falar, mas já não escutava minha voz, agora eu era todo uma nuvem negra de chuva, vento e raios, que passava pelos céus de diferentes tempos. Vi o homem acender sua primeira chama de fogo e levantar seus rostos ao céu, vi os homens levantarem pirâmides e baixarem seus olhos a faraós, vi homens encontrando o céu antes de encontrarem feras maiores que eles, reis matarem crianças em nome um Deus que não estava no céu, um soldado francês dominar vastos territórios e sentir o céu cobrir-lhe de poder e riquezas, vi o olhar doce dos índios para a cruz de ira que descia dos céus, rasgando a carne e fé, vi a correria dos homens e a fumaça das chaminés misturar-se com as nuvens de tempestade, vi o homem ficar cego com tanta tecnologia, não olhar para o verde das árvores e o azul do céu, vi uma explosão provocar um abismo de mortes e encher o ar de partículas, vi o olhar de fome de uma criança deixar mais cinza o céu da grande cidade, vi a mim, recém-nascido e velho, ao semelhante com várias caras e uma igualdade de sentimentos, vi……………….DEUS!
Então vi sua luz e sabia que era ele, como quando era criança e achava que via seu rosto atrás de minhas lágrimas ofuscadas pela luz do criado-mudo. Lembrei-me do seu rosto desenhado num quadro no corredor da escola. Em fila, seguindo os meus colegas em passos lentos, encontrava seus olhos, parecia também me seguir, mais do que eu a ele, que dava meus primeiros passos também até sua casa, aprendia sobre sua vida, a agradecer-lhe o que tinha e não tinha. Meu pai obrigava-nos a fazer-lhe reverência , ele deveria ser tudo. Então, uma vez que estava triste, porque minha mãe havia saído para trabalhar quando todos dormiam, temi pela sua vida. Um choro convulsivo começou a sair de dentro de mim como água represada, quase afogada num sentimento de orfandade, sosseguei quando vi a luz tocar seu rosto, que me observava do alto da parede. Ele estava ali e por um inominável mistério chegava até mim, até a coberta que me tapava no frio de julho, até meu peito branco soluçante, até o coração que batia quente de sangue, até o que estava além dos glóbulos vermelhos e hemácias, que tudo sente e permanece no infinito universo. Juntei minhas mãozinhas e senti sua PAZ. Desde de então, tentei seguir seus passos, às vezes tropeçando, errando o caminho, seguindo a passos lentos.
Dizem que quando chega o momento, toda nossa vida vem à mente para selar o ritual de despedida. Lembro apenas de ter visto meus olhos fecharem-se nos olhos de minha mãe, depois tudo ficou mais branco e leve, a dor não podia vir comigo, ficou sem ser percebida. Fui andando na sua direção, uma suave brisa fazia alvas nuvens de fumaça dançarem, a luz ficava mais forte, tudo no mais completo silêncio, até minha voz interior. Olhei para sua face, sempre distante, a luz é que se fazia mais intensa. Que bom que estou com você. Todos estão com você. Onde? Dentro e fora de você. Pensei em minha mãe, a vi saindo do hospital sozinha, entrar no carro de meu tio e não dizer uma palavra até sua casa. Queria tocar, abraçar, e quando estendi meu braço, estava de novo no caminho da luz, apontando para ele, com redemoinhos de vento sobre minhas pupilas. Não… gritei, então vi seu rosto, que quase tocou o meu e ficou pertinho… desenhado por diferentes tons de luz, maior, flutuante no ar que eu julgava ainda consumir. Por que tudo tem que acabar, é um infinito sofrimento este… Escutei o eco de minha voz três vezes, e foi com sua voz que ele o interrompeu. Somos um só, mesmo com tantas diferenças. O universo está num cadenciado e ininterrupto movimento, somos o Tempo dividido, sonhado, vivido. Desde a Idade da Pedra somos um só corpo e seus infinitos desdobramentos. E Deus? Pensei. Ele é você, eu e os outros… seja bem-vindo ao Mistério da Vida. Tentei falar, mas já não escutava minha voz, agora eu era todo uma nuvem negra de chuva, vento e raios, que passava pelos céus de diferentes tempos. Vi o homem acender sua primeira chama de fogo e levantar seus rostos ao céu, vi os homens levantarem pirâmides e baixarem seus olhos a faraós, vi homens encontrando o céu antes de encontrarem feras maiores que eles, reis matarem crianças em nome um Deus que não estava no céu, um soldado francês dominar vastos territórios e sentir o céu cobrir-lhe de poder e riquezas, vi o olhar doce dos índios para a cruz de ira que descia dos céus, rasgando a carne e fé, vi a correria dos homens e a fumaça das chaminés misturar-se com as nuvens de tempestade, vi o homem ficar cego com tanta tecnologia, não olhar para o verde das árvores e o azul do céu, vi uma explosão provocar um abismo de mortes e encher o ar de partículas, vi o olhar de fome de uma criança deixar mais cinza o céu da grande cidade, vi a mim, recém-nascido e velho, ao semelhante com várias caras e uma igualdade de sentimentos, vi……………….DEUS!
sexta-feira, março 23, 2007
APENAS UM MENINO
Elionora Silvéria
Amém, amém. Todos os demais alunos pareciam dizer amém a tudo que o professor dizia. Que o vice-diretor mandava. Um bando de idiotas com sangue de barata. Com tais pensamentos ia revoltado, seguindo ladeira abaixo, chutando o que lhe surgia pela frente: uma tampinha de garrafa, um galho, um saco plástico, uma pedra. Ele não agüentava mais aquela escola nojenta. As rodinhas fechadas, os risos disfarçados que, tinha certeza, se referiam a ele. No mínimo as meninas ficavam gozando do seu sotaque, sua fala diferente da do resto das pessoas. Ele não tinha culpa de ser novo, ter vindo de outra cidade.
Realmente estava muito puto. Aquela tinha sido a gota d’água. Ser chamado à Diretoria por causa de bomba. De bombas! Quase todo dia alguém soltava uma bomba no banheiro da escola provocando o maior alarido. Grande confusão. As meninas gritando assustadas no pátio do recreio, tampando os ouvidos na sala de aula. Os moleques rindo superiores.
Mas esta última vez fizeram ‘no capricho’. Tanto, que ela conseguiu até deslocar um dos vasos sanitários no banheiro dos meninos. Foi o maior estrondo, e algum safado tinha dedurado o menino, acusando de tê-lo visto colocar o rojão e depois sair correndo. Por este motivo ele fora chamado às favas.
A sala do diretor: bonita, imponente, com pesadas cortinas azuis, tapete, móveis de cor combinando e um computador de última geração. Havia fotografias da família sobre a mesa e chamou-lhe a atenção o crucifixo enorme, de madeira, pendurado na parede detrás da mesa. O diretor era um homem rigoroso, de pés enormes, amante da disciplina e tinha frios olhos azuis. O homem sentado e a cruz pendurada sobre a sua cabeça formavam um quadro original, parecia uma imagem ondulante, um conjunto que atraía a visão como ímã. “Nunca pensei que ele fosso católico. Achava que era judeu”.
O diretor, seu Álvaro Miranda, não quis conversa. Ele tinha a acusação, ele tinha testemunhas, ele deu o gancho: dois dias.
Saiu dali contrariado e doido para descobrir quem teria sido o ‘vacilão’. Acertariam contas depois.
“E agora?.... não posso chegar em casa em hora tão imprópria sem ter um bom motivo”.
Resolveu ficar zanzando em volta da Escola. Dar um tempo até soar o último sinal. Então voltaria com a cara mais lavada do mundo. Ia almoçar e faria a tarefa do dia como um excelente aluno faria. “Mamãe não pode saber”.
Correu tudo às mil maravilhas no primeiro dia. Mas, e no segundo?
A escola ficava não muito longe de sua casa. Era um prédio relativamente novo e, comparada com as demais escolas públicas, até que não era das piores. Pelo menos as paredes tinham sido pintadas recentemente de tom bege, e os tijolinhos junto ao portão de entrada eram particularmente simpáticos. Olhando de fora, ninguém diria o labirinto de grades, esquinas, cadeados e portões que havia, separando cada ala. Ultimamente, até as salas de aula ficavam trancadas com cadeado nos intervalos, mesmo durante o dia. Era um nojo a escola.
“Tenho que bolar um esquema pra mãe não desconfiar“...
Na manhã seguinte, levantou-se e saiu de casa na mesma hora de sempre. Pegou o ônibus escolar e foi motivo de gozação (lógico) - entre os colegas. Depois que todo mundo entrou na Escola, um peso enorme abateu-se sobre as suas costas. Sentou, levantou, andou em volta do colégio, zanzou por ali. Porém as horas demoravam demais a passar. Imerso em seus pensamentos foi indo e afastando-se do prédio.
Passou o campinho, dobrou duas esquinas, passou na porta de um bar que não conhecia.
Uns homens idosos jogavam conversa fora e sinuca. “Puxa, logo cedo esses caras jogando no bar?” Pensou aborrecido e cheio de calor. Deu a volta pela rua de cima, olhando as vitrines e coisas que nunca antes haviam chamado sua atenção. Parou quando ouviu alguém chamar:
- Óh garoto, vem aqui.
Alguém que não conhecia puxou conversa, e ele lembrou de repente dos conselhos de sua mãe: “...não falar com estranhos na rua”. O homem, pequeno e com uma enorme barriga redonda, usava relógio dourado, um terno claro e um prendedor de gravata combinando com o relógio de pulso. Talvez fosse de ouro.
Essa pessoa tinha uma pele diferente: fina, de cor avermelhada, suava muito e limpava a testa com um lenço branco dobrado ao meio. Parecia estrangeiro, tinha uma fala estranha e parecia estar meio perdido na cidade.
Sua maneira de andar lembrou-lhe o jeito de seu tio Dinho, que ele há muito não via. Depois de indicar ao sujeito o endereço que ele pedia, recebeu de presente um picolé e a promessa de que ganharia uns bombons especiais, se no dia seguinte acompanhasse o tal até sua casa para ver uns Dvds infantis.
Na manhã seguinte, dia de aula normal, o garoto, inventando uma desculpa qualquer, decidiu por sua própria conta tirar mais uma folga.
(Baseado num conto de João do Rio.)
Amém, amém. Todos os demais alunos pareciam dizer amém a tudo que o professor dizia. Que o vice-diretor mandava. Um bando de idiotas com sangue de barata. Com tais pensamentos ia revoltado, seguindo ladeira abaixo, chutando o que lhe surgia pela frente: uma tampinha de garrafa, um galho, um saco plástico, uma pedra. Ele não agüentava mais aquela escola nojenta. As rodinhas fechadas, os risos disfarçados que, tinha certeza, se referiam a ele. No mínimo as meninas ficavam gozando do seu sotaque, sua fala diferente da do resto das pessoas. Ele não tinha culpa de ser novo, ter vindo de outra cidade.
Realmente estava muito puto. Aquela tinha sido a gota d’água. Ser chamado à Diretoria por causa de bomba. De bombas! Quase todo dia alguém soltava uma bomba no banheiro da escola provocando o maior alarido. Grande confusão. As meninas gritando assustadas no pátio do recreio, tampando os ouvidos na sala de aula. Os moleques rindo superiores.
Mas esta última vez fizeram ‘no capricho’. Tanto, que ela conseguiu até deslocar um dos vasos sanitários no banheiro dos meninos. Foi o maior estrondo, e algum safado tinha dedurado o menino, acusando de tê-lo visto colocar o rojão e depois sair correndo. Por este motivo ele fora chamado às favas.
A sala do diretor: bonita, imponente, com pesadas cortinas azuis, tapete, móveis de cor combinando e um computador de última geração. Havia fotografias da família sobre a mesa e chamou-lhe a atenção o crucifixo enorme, de madeira, pendurado na parede detrás da mesa. O diretor era um homem rigoroso, de pés enormes, amante da disciplina e tinha frios olhos azuis. O homem sentado e a cruz pendurada sobre a sua cabeça formavam um quadro original, parecia uma imagem ondulante, um conjunto que atraía a visão como ímã. “Nunca pensei que ele fosso católico. Achava que era judeu”.
O diretor, seu Álvaro Miranda, não quis conversa. Ele tinha a acusação, ele tinha testemunhas, ele deu o gancho: dois dias.
Saiu dali contrariado e doido para descobrir quem teria sido o ‘vacilão’. Acertariam contas depois.
“E agora?.... não posso chegar em casa em hora tão imprópria sem ter um bom motivo”.
Resolveu ficar zanzando em volta da Escola. Dar um tempo até soar o último sinal. Então voltaria com a cara mais lavada do mundo. Ia almoçar e faria a tarefa do dia como um excelente aluno faria. “Mamãe não pode saber”.
Correu tudo às mil maravilhas no primeiro dia. Mas, e no segundo?
A escola ficava não muito longe de sua casa. Era um prédio relativamente novo e, comparada com as demais escolas públicas, até que não era das piores. Pelo menos as paredes tinham sido pintadas recentemente de tom bege, e os tijolinhos junto ao portão de entrada eram particularmente simpáticos. Olhando de fora, ninguém diria o labirinto de grades, esquinas, cadeados e portões que havia, separando cada ala. Ultimamente, até as salas de aula ficavam trancadas com cadeado nos intervalos, mesmo durante o dia. Era um nojo a escola.
“Tenho que bolar um esquema pra mãe não desconfiar“...
Na manhã seguinte, levantou-se e saiu de casa na mesma hora de sempre. Pegou o ônibus escolar e foi motivo de gozação (lógico) - entre os colegas. Depois que todo mundo entrou na Escola, um peso enorme abateu-se sobre as suas costas. Sentou, levantou, andou em volta do colégio, zanzou por ali. Porém as horas demoravam demais a passar. Imerso em seus pensamentos foi indo e afastando-se do prédio.
Passou o campinho, dobrou duas esquinas, passou na porta de um bar que não conhecia.
Uns homens idosos jogavam conversa fora e sinuca. “Puxa, logo cedo esses caras jogando no bar?” Pensou aborrecido e cheio de calor. Deu a volta pela rua de cima, olhando as vitrines e coisas que nunca antes haviam chamado sua atenção. Parou quando ouviu alguém chamar:
- Óh garoto, vem aqui.
Alguém que não conhecia puxou conversa, e ele lembrou de repente dos conselhos de sua mãe: “...não falar com estranhos na rua”. O homem, pequeno e com uma enorme barriga redonda, usava relógio dourado, um terno claro e um prendedor de gravata combinando com o relógio de pulso. Talvez fosse de ouro.
Essa pessoa tinha uma pele diferente: fina, de cor avermelhada, suava muito e limpava a testa com um lenço branco dobrado ao meio. Parecia estrangeiro, tinha uma fala estranha e parecia estar meio perdido na cidade.
Sua maneira de andar lembrou-lhe o jeito de seu tio Dinho, que ele há muito não via. Depois de indicar ao sujeito o endereço que ele pedia, recebeu de presente um picolé e a promessa de que ganharia uns bombons especiais, se no dia seguinte acompanhasse o tal até sua casa para ver uns Dvds infantis.
Na manhã seguinte, dia de aula normal, o garoto, inventando uma desculpa qualquer, decidiu por sua própria conta tirar mais uma folga.
(Baseado num conto de João do Rio.)
Suspiro de Morte
Tharcisio Leone
O caminhar é lento, os becos escuros são o caminho, na noite silenciosa e vazia a lua é a única companhia, companheira e testemunha ela observa aquela linda mulher, de olhos claros, cabelos loiros e sorriso doce. Em sua identidade lê-se Izabel Mendes, mas o mundo a batizou de Anita, mesmo mundo cruel que lhe arrancou dos laços familiares e jogou-a nas ruas, sem casa, sem dinheiro e sem esperança.
Os primeiros raios do sol encontram-na em sua rua, abrindo a porta barulhenta e enferrujada de sua casa, lá dentro três míseros cubículos formam seu lar, na sala uma estante velha e torta serve de suporte às suas recordações, uma máscara de carnaval, duas garrafas de aguardente e três preservativos masculinos; no quarto a cama é desarrumada e fétida, o cheiro nauseante expelido pelo abrir da janela invade a rua.
O lar não lhe traz sossego, e a cama não lhe traz sono, a consciência pesa sobre sua mente, os pensamentos se confundem ao cansaço, e o corpo finalmente se entrega ao descanso. De repente uma grande escuridão se abre sobre ela.
- Onde estou? Por que não vejo nada à minha frente? – Socorro! – Ah, para que me desesperar, o que temo? O medo é cúmplice dos desejos, se não desejo nada por que temer?
Anita caminha despreocupadamente pela escuridão, nos olhos os sinais da fascinação; - Sim, existe beleza no vazio, a ausência muitas vezes é mais salutar que os desejos. De repente, ela percebe que é observada de longe, o brilho de dois olhos vermelhos demonstram que não está sozinha; ela caminha em direção à luz e vê um ser alto de capa preta, rosto de morte e olhar de desilusão.
- Por que me olhas com tanto receio? – pergunta o homem.
- Quem é você? Fala comigo como se me conhecesse.
- Sim, eu conheço, somos íntimos, por muito tempo clamaste pela minha presença. Lembras das noites em tua casa, das quedas nas sarjetas entregue à dor e à humilhação onde chamavas por mim? Sou a Morte.
- Que bom, há tempo te esperava, nos últimos meses passei a clamar-te, não agüentava mais minha sina, os dias eram cada vez mais compridos, a angustia me acompanhava, fiz dos meus sonhos o refugio do pesadelo da minha vida.
- Garota arrogante! Por que ages desta forma? Tu deverias ter medo de mim, teu corpo deveria estar trêmulo, teu rosto pálido como uma vela de sete dias; ao invés disso me tratas com intimidade, não tens medo de perder tua vida?
- Não posso perder algo que nunca tive, eu nunca vivi, apenas sobrevivi nesse mundo sórdido e miserável, eu sempre . ..
(ainda ouvindo o lamurio de Anita, a Morte afasta-se e sai caminhando vagarosamente para frente).
- Onde vai? – grita Anita. Não vai levar-me com você?
- Não, nenhum sofrimento pode ser maior para ti do que continuares com vida.
Neste instante Anita desperta abruptamente e levanta-se da cama, no espelho observa seus olhos fundos de morte e o rosto pálido como uma vela de sete dias.
O caminhar é lento, os becos escuros são o caminho, na noite silenciosa e vazia a lua é a única companhia, companheira e testemunha ela observa aquela linda mulher, de olhos claros, cabelos loiros e sorriso doce. Em sua identidade lê-se Izabel Mendes, mas o mundo a batizou de Anita, mesmo mundo cruel que lhe arrancou dos laços familiares e jogou-a nas ruas, sem casa, sem dinheiro e sem esperança.
Os primeiros raios do sol encontram-na em sua rua, abrindo a porta barulhenta e enferrujada de sua casa, lá dentro três míseros cubículos formam seu lar, na sala uma estante velha e torta serve de suporte às suas recordações, uma máscara de carnaval, duas garrafas de aguardente e três preservativos masculinos; no quarto a cama é desarrumada e fétida, o cheiro nauseante expelido pelo abrir da janela invade a rua.
O lar não lhe traz sossego, e a cama não lhe traz sono, a consciência pesa sobre sua mente, os pensamentos se confundem ao cansaço, e o corpo finalmente se entrega ao descanso. De repente uma grande escuridão se abre sobre ela.
- Onde estou? Por que não vejo nada à minha frente? – Socorro! – Ah, para que me desesperar, o que temo? O medo é cúmplice dos desejos, se não desejo nada por que temer?
Anita caminha despreocupadamente pela escuridão, nos olhos os sinais da fascinação; - Sim, existe beleza no vazio, a ausência muitas vezes é mais salutar que os desejos. De repente, ela percebe que é observada de longe, o brilho de dois olhos vermelhos demonstram que não está sozinha; ela caminha em direção à luz e vê um ser alto de capa preta, rosto de morte e olhar de desilusão.
- Por que me olhas com tanto receio? – pergunta o homem.
- Quem é você? Fala comigo como se me conhecesse.
- Sim, eu conheço, somos íntimos, por muito tempo clamaste pela minha presença. Lembras das noites em tua casa, das quedas nas sarjetas entregue à dor e à humilhação onde chamavas por mim? Sou a Morte.
- Que bom, há tempo te esperava, nos últimos meses passei a clamar-te, não agüentava mais minha sina, os dias eram cada vez mais compridos, a angustia me acompanhava, fiz dos meus sonhos o refugio do pesadelo da minha vida.
- Garota arrogante! Por que ages desta forma? Tu deverias ter medo de mim, teu corpo deveria estar trêmulo, teu rosto pálido como uma vela de sete dias; ao invés disso me tratas com intimidade, não tens medo de perder tua vida?
- Não posso perder algo que nunca tive, eu nunca vivi, apenas sobrevivi nesse mundo sórdido e miserável, eu sempre . ..
(ainda ouvindo o lamurio de Anita, a Morte afasta-se e sai caminhando vagarosamente para frente).
- Onde vai? – grita Anita. Não vai levar-me com você?
- Não, nenhum sofrimento pode ser maior para ti do que continuares com vida.
Neste instante Anita desperta abruptamente e levanta-se da cama, no espelho observa seus olhos fundos de morte e o rosto pálido como uma vela de sete dias.
Dia-a-dia
Juliana Padilha
Na frente da Tv viu o Jornal Nacional, a novela das oito e dormiu no sofá com o pescoço caído para trás. Na noite seguinte outro ciclo televisivo: jornal Nacional, novela das oito e A Diarista. Dormiu em cima da cadela, que ficou encolhida debaixo de seus pés. XXXXXXXXXXXXXX A televisão o despertou na madrugada, fora do ar com os fortes raios da tempestade. A casa alagou, foi dormir com a água beirando a cama. Outro dia, outra noite, plim-plim, a seguir mais um episódio da minisérie. “Boa noite” e viu quando a mulher desapareceu no corredor. Minisérie, comerciais, minisérie, comerciais, minisé… na praia, defronte para o mar, bebendo um cerveja, “estou na paraíso”, caiu do sofá com os vizinhos, “abaixa”, pa, pa, pa-pa-pa-pa-pa. Outra vez teve que ir para o quarto agachado, com a cadela a seguir-lhe o traseiro. Outro dia, o sol, o mesmo desce e sobe morro. Janta, Jornal Nacional, “Pai”………….., “pai”,…………….. “Que é?”………… “Nada, esquece”. Novela, calor, janelas abertas, só a TV fala. Não percam hoje, A Grande Família! Novela, comerciais, novela, comerciais. A discussão começou na casa ao lado, mulher e marido se acusam, os filhos choram. Um tiro e a tv tem seu volume baixado. Vão dormir com a sirene da policia chegando e a luz dos carros fazendo círculos no teto. “Bem-feito, assim não bate mais nela” e sua mulher apaga. Ele fica ainda com os olhos abertos, presos nas formas femininas do seu lado. A cutuca, de novo, mas só escuta sua respiração agitada pelo cigarro. Outro dia, chuva que cai, desce morro com a lama a chegar primeiro lá em baixo. Trabalha, come, trabalha. Com o pôr-do sol esquálido brinda a companhia de uma cerveja, no bar aqueles de sempre. Noite cai, se desequilibra, o amigo ajuda, sobem o morro trazendo a lama. A mulher abre a porta com o bebê no colo, vira a cara para o álcool, não para o beijo. Se tranca no quarto, o choro é silenciado pela TV. Jornal Nacional, casal perfeito, Willam Bonner e Fátima Bernardes, falam para Joãos que não escutam, no conforto de seus sofás, fecham os olhos para si mesmos. Novela, comerciais, nove…. ZAP! A tela escureceu, ele ficou atirado ali mesmo, ela deitou com os filhos. Outro dia, sábado de aleluia, crianças na praça, o sol iluminando os barracos de madeira, mal pintados, rebocados. Anas e Marias trabalham, lavam roupas, costuram, limpam agora, quem sabe, suas casas. Ela já vai longe, com os filhos agarrados na barra de sua saia. Na casa apenas a TV, majestosa.
Na frente da Tv viu o Jornal Nacional, a novela das oito e dormiu no sofá com o pescoço caído para trás. Na noite seguinte outro ciclo televisivo: jornal Nacional, novela das oito e A Diarista. Dormiu em cima da cadela, que ficou encolhida debaixo de seus pés. XXXXXXXXXXXXXX A televisão o despertou na madrugada, fora do ar com os fortes raios da tempestade. A casa alagou, foi dormir com a água beirando a cama. Outro dia, outra noite, plim-plim, a seguir mais um episódio da minisérie. “Boa noite” e viu quando a mulher desapareceu no corredor. Minisérie, comerciais, minisérie, comerciais, minisé… na praia, defronte para o mar, bebendo um cerveja, “estou na paraíso”, caiu do sofá com os vizinhos, “abaixa”, pa, pa, pa-pa-pa-pa-pa. Outra vez teve que ir para o quarto agachado, com a cadela a seguir-lhe o traseiro. Outro dia, o sol, o mesmo desce e sobe morro. Janta, Jornal Nacional, “Pai”………….., “pai”,…………….. “Que é?”………… “Nada, esquece”. Novela, calor, janelas abertas, só a TV fala. Não percam hoje, A Grande Família! Novela, comerciais, novela, comerciais. A discussão começou na casa ao lado, mulher e marido se acusam, os filhos choram. Um tiro e a tv tem seu volume baixado. Vão dormir com a sirene da policia chegando e a luz dos carros fazendo círculos no teto. “Bem-feito, assim não bate mais nela” e sua mulher apaga. Ele fica ainda com os olhos abertos, presos nas formas femininas do seu lado. A cutuca, de novo, mas só escuta sua respiração agitada pelo cigarro. Outro dia, chuva que cai, desce morro com a lama a chegar primeiro lá em baixo. Trabalha, come, trabalha. Com o pôr-do sol esquálido brinda a companhia de uma cerveja, no bar aqueles de sempre. Noite cai, se desequilibra, o amigo ajuda, sobem o morro trazendo a lama. A mulher abre a porta com o bebê no colo, vira a cara para o álcool, não para o beijo. Se tranca no quarto, o choro é silenciado pela TV. Jornal Nacional, casal perfeito, Willam Bonner e Fátima Bernardes, falam para Joãos que não escutam, no conforto de seus sofás, fecham os olhos para si mesmos. Novela, comerciais, nove…. ZAP! A tela escureceu, ele ficou atirado ali mesmo, ela deitou com os filhos. Outro dia, sábado de aleluia, crianças na praça, o sol iluminando os barracos de madeira, mal pintados, rebocados. Anas e Marias trabalham, lavam roupas, costuram, limpam agora, quem sabe, suas casas. Ela já vai longe, com os filhos agarrados na barra de sua saia. Na casa apenas a TV, majestosa.
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Em que pé estamos
Estamos com os dois pés enterrados num campo semeado de palavras. Teve gente que tirou seus pés para descansar, outros para desbravar novos campos... mas ainda estamos juntos, descobrindo nas palavras outros universos. Decidimos ficar mais próximos dos textos e menos da teoria, eles dão mais ânimo de escrita. Quando passar a nuvem preta que se instalou sobre minha cabeça, prometo que volto a falar de Gérard Genette e outros.
Estamos todos os sábados no mesmo galpão, que aliás será em breve inaugurado como espaço cultural. Saudações meu querido amigo Andrey! Ali fazemos divertidas experiências de escrita, algumas surrealistas, outras inovadoras e repentinas, outras lúdicas e infantis, algumas criadas outras herdadas. Enfim, a paixão pela Literatura é a grande responsável por essas loucuras. Agora é com você! Escolha um de nossos contos e abra os olhos para a sua IMAGINAÇÃO.