Juliana Padilha
Então vi sua luz e sabia que era ele, como quando era criança e achava que via seu rosto atrás de minhas lágrimas ofuscadas pela luz do criado-mudo. Lembrei-me do seu rosto desenhado num quadro no corredor da escola. Em fila, seguindo os meus colegas em passos lentos, encontrava seus olhos, parecia também me seguir, mais do que eu a ele, que dava meus primeiros passos também até sua casa, aprendia sobre sua vida, a agradecer-lhe o que tinha e não tinha. Meu pai obrigava-nos a fazer-lhe reverência , ele deveria ser tudo. Então, uma vez que estava triste, porque minha mãe havia saído para trabalhar quando todos dormiam, temi pela sua vida. Um choro convulsivo começou a sair de dentro de mim como água represada, quase afogada num sentimento de orfandade, sosseguei quando vi a luz tocar seu rosto, que me observava do alto da parede. Ele estava ali e por um inominável mistério chegava até mim, até a coberta que me tapava no frio de julho, até meu peito branco soluçante, até o coração que batia quente de sangue, até o que estava além dos glóbulos vermelhos e hemácias, que tudo sente e permanece no infinito universo. Juntei minhas mãozinhas e senti sua PAZ. Desde de então, tentei seguir seus passos, às vezes tropeçando, errando o caminho, seguindo a passos lentos.
Dizem que quando chega o momento, toda nossa vida vem à mente para selar o ritual de despedida. Lembro apenas de ter visto meus olhos fecharem-se nos olhos de minha mãe, depois tudo ficou mais branco e leve, a dor não podia vir comigo, ficou sem ser percebida. Fui andando na sua direção, uma suave brisa fazia alvas nuvens de fumaça dançarem, a luz ficava mais forte, tudo no mais completo silêncio, até minha voz interior. Olhei para sua face, sempre distante, a luz é que se fazia mais intensa. Que bom que estou com você. Todos estão com você. Onde? Dentro e fora de você. Pensei em minha mãe, a vi saindo do hospital sozinha, entrar no carro de meu tio e não dizer uma palavra até sua casa. Queria tocar, abraçar, e quando estendi meu braço, estava de novo no caminho da luz, apontando para ele, com redemoinhos de vento sobre minhas pupilas. Não… gritei, então vi seu rosto, que quase tocou o meu e ficou pertinho… desenhado por diferentes tons de luz, maior, flutuante no ar que eu julgava ainda consumir. Por que tudo tem que acabar, é um infinito sofrimento este… Escutei o eco de minha voz três vezes, e foi com sua voz que ele o interrompeu. Somos um só, mesmo com tantas diferenças. O universo está num cadenciado e ininterrupto movimento, somos o Tempo dividido, sonhado, vivido. Desde a Idade da Pedra somos um só corpo e seus infinitos desdobramentos. E Deus? Pensei. Ele é você, eu e os outros… seja bem-vindo ao Mistério da Vida. Tentei falar, mas já não escutava minha voz, agora eu era todo uma nuvem negra de chuva, vento e raios, que passava pelos céus de diferentes tempos. Vi o homem acender sua primeira chama de fogo e levantar seus rostos ao céu, vi os homens levantarem pirâmides e baixarem seus olhos a faraós, vi homens encontrando o céu antes de encontrarem feras maiores que eles, reis matarem crianças em nome um Deus que não estava no céu, um soldado francês dominar vastos territórios e sentir o céu cobrir-lhe de poder e riquezas, vi o olhar doce dos índios para a cruz de ira que descia dos céus, rasgando a carne e fé, vi a correria dos homens e a fumaça das chaminés misturar-se com as nuvens de tempestade, vi o homem ficar cego com tanta tecnologia, não olhar para o verde das árvores e o azul do céu, vi uma explosão provocar um abismo de mortes e encher o ar de partículas, vi o olhar de fome de uma criança deixar mais cinza o céu da grande cidade, vi a mim, recém-nascido e velho, ao semelhante com várias caras e uma igualdade de sentimentos, vi……………….DEUS!
segunda-feira, março 26, 2007
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Em que pé estamos
Estamos com os dois pés enterrados num campo semeado de palavras. Teve gente que tirou seus pés para descansar, outros para desbravar novos campos... mas ainda estamos juntos, descobrindo nas palavras outros universos. Decidimos ficar mais próximos dos textos e menos da teoria, eles dão mais ânimo de escrita. Quando passar a nuvem preta que se instalou sobre minha cabeça, prometo que volto a falar de Gérard Genette e outros.
Estamos todos os sábados no mesmo galpão, que aliás será em breve inaugurado como espaço cultural. Saudações meu querido amigo Andrey! Ali fazemos divertidas experiências de escrita, algumas surrealistas, outras inovadoras e repentinas, outras lúdicas e infantis, algumas criadas outras herdadas. Enfim, a paixão pela Literatura é a grande responsável por essas loucuras. Agora é com você! Escolha um de nossos contos e abra os olhos para a sua IMAGINAÇÃO.
2 comentários:
Puxa JU,
adorei o novo visual do nosso Blog. Ficou mais fácil de ler com essas cores... Gostei demais tb.dos últimos trabalhos que vc tem produzido. A tua fase mística influencia positivamente a todos nós. PARABÉNS !!!
Um beijão. Eli.
Juliana,
Bom dia.
Acreditava que o Usina da Palavras fosse um projeto de Frederico, parente da Tia Amelia. Sabe como fazer para entrar em contato com ele?
Abraços, zeca
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