Frederico Helou Doca
Ele sempre está preocupado com o relógio: falta uma hora! Ontem, também preocupado com os ponteiros, dizia para si mesmo: por que sou escravo do tempo? Não quero ser assim, não quero ter esse peso dos minutos que já foram e dos que estão por vir nas minhas costas.
Crônico sempre fora uma pessoa ansiosa: na hora de se vestir, deixava um combinado de roupas em cima do criado mudo. Sempre se programou para tudo na vida: de uma simples escovada nos dentes até quantos pães teria que comprar para o café do dia seguinte.
__ Bom dia, seu Raimundo!
__ Bom dia, Crônico.
Nove e cinco.
Ele sai do quinto andar para o trabalho. Gosta do prazer de cronometrar o itinerário.
Nove e quinze.
Bom dia a todos! Oi, Crônico. Bom dia! Tem uma pilha de trabalho na sua mesa. Droga! – pensa alto.
Nove e meia.
Hora de tomar meu cafezinho. Pensa em quantas gotas de adoçante tem de pôr, ao mesmo tempo em que calcula a força necessária para erguer a alça do bule, posicionar o pires sobre a mesa com rodinhas e a quantidade do líquido a ser inserida. Que merda! Caiu café na minha gravata!
Nove e trinta e seis.
Crônico, cadê os relatórios? Ah, tava no banheiro limpando minha gravata, seu Antônio. Não vá atrasar com isso porque tô doente de tanto ficar esperando, viu? Ele fica com aquela expressão de pânico: não sabe se olha para o relógio, para a gravata, para o chefe, para a mesa com as pernas ficando bambas ou para quantos grãos de areia vai gastar até mover o sapato lustroso sobre um chiclete cinzento em que fica reparando.
Nove e quarenta.
Alice, vem me dar uma ajuda com essa papelada? Ah, Crônico, agora não dá. Tô sem tempo!
Dez horas.
Infarto fulminante. Os colegas de Crônico calculam quanto tempo terão para despachar seu cadáver para o rabecão.
sábado, junho 16, 2007
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Em que pé estamos
Estamos com os dois pés enterrados num campo semeado de palavras. Teve gente que tirou seus pés para descansar, outros para desbravar novos campos... mas ainda estamos juntos, descobrindo nas palavras outros universos. Decidimos ficar mais próximos dos textos e menos da teoria, eles dão mais ânimo de escrita. Quando passar a nuvem preta que se instalou sobre minha cabeça, prometo que volto a falar de Gérard Genette e outros.
Estamos todos os sábados no mesmo galpão, que aliás será em breve inaugurado como espaço cultural. Saudações meu querido amigo Andrey! Ali fazemos divertidas experiências de escrita, algumas surrealistas, outras inovadoras e repentinas, outras lúdicas e infantis, algumas criadas outras herdadas. Enfim, a paixão pela Literatura é a grande responsável por essas loucuras. Agora é com você! Escolha um de nossos contos e abra os olhos para a sua IMAGINAÇÃO.
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