sábado, junho 16, 2007

Como posso dançar com esse cabelo ?

Elionora Silvério

A professora de Arte resolveu montar um grupo de dança na escola.
Ela sabia que podia participar, mas encolheu-se no fundo da carteira quando houve a seleção, sem coragem de levantar o braço. Aparecer na frente de todos... só de pensar ficava arrepiada.
Todas as dançarinas tinham vasta cabeleira que podiam jogar no compasso da música.
Cabelo, substância mortinha da silva. Tanto que se pode cortá-lo e não sentir dor..... “Se é coisa morta, por que tem tanto valor? Como posso dançar jazz com esse cabelo?”
Seus cabelos eram cortados rentes pela mãe que não tinha tempo nem jeito para cuidar deles.

Certa vez, na escola, ao atravessar o pátio do recreio distraída, levou uma bolada nas costas.
_ Negrinha ! cara de pavio,
cabelo de bombril ! Sai !!
Os moleques a brindavam ternamente. Chegou em casa murcha. Nem o doce de leite cremoso, nem o biscoito preferido foi capaz de animá-la. Estava com todas as dúvidas de não se saber; ficou assim por vários dias ainda repleta do incompreensível, enquanto o corpo de baile já elegia até um nome: As Andorinhas Voadoras. Naquela tarde bebeu uns dois litros d’água.

Próximo do Dia da Criança pediu um brinquedo à mãe. Queria uma boneca: linda, loura, imensa. Dessas que sabem caminhar e dizem coisas em tom robótico quando apertadas no ventre. Sentia-se ansiosa ou culpada por algo pesado, no ar, que a gente grande não comentava. A boneca iria ajudar afastando aquilo tudo. Mas ela não veio: teve de se contentar com uma cozinha em miniatura, de plástico cor de rosa, bem simples.

Uma nova família mudou-se para a vila onde ela morava.
Sua mãe contou que era um casal com duas meninas, porém, ela ficava encafifada porque passado já algum tempo, só tinha visto a mais velha das irmãs: Laura era seu nome. Fizeram amizade e de vez em quando brincavam juntas. Por ela soube que a irmã caçula tinha paralisia mental e não podia sair de casa.
Um dia, por acaso, conheceu a menina que não podia andar. Ela falava pouco e com muita dificuldade, mas gostava de ouvir histórias e de segurar na mão do outro enquanto prestava atenção deliciada. Seu olhar de entrega e confiança lembrava um cão beagle: aquele cachorrinho alegre, corajoso e muito ativo. Estava sentada à janela; segurava um pequeno galho em cuja ponta estava amarrado um saco plástico. O vento agitava a embalagem enquanto a menina ria feliz gritando: _ ..... DÉEE ....... QUÉEEE.... Era seu brinquedo preferido.

Na próxima data cívica teve festa na escola com apresentação do balé. Aos primeiros acordes conhecidos, a entrada das dançarinas vestidas todas iguais. Na apresentação do segundo número uma epifania reluzente diante de seus olhos: ia doar sua melhor boneca à menina paralisada. Nunca gostara muito dela mesmo; além disso já estava meio velha. Porém a mãe não podia saber..... Nem sempre os acordos infantis são bem vistos pelos mais velhos.
Depois da dança houve outros números musicais e até um pequeno teatro. Mas a cabeça da menina voava para longe de tudo. Na saída ela viu-se refletida na porta de vidro de uma das salas internas: parecia um pouco mais alta e sorria feliz consigo mesma. Pisando devagar entrou em casa completamente esquecida do incidente na escola, dos meninos, da dor. Ainda no corredor chamou a mãe apenas para ouvir-lhe o som da voz macio e conhecido. Embora fizesse muito calor e tivesse caminhado bastante, estranhamente naquela noite a menina não sentiu sede.

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Em que pé estamos

Estamos com os dois pés enterrados num campo semeado de palavras. Teve gente que tirou seus pés para descansar, outros para desbravar novos campos... mas ainda estamos juntos, descobrindo nas palavras outros universos. Decidimos ficar mais próximos dos textos e menos da teoria, eles dão mais ânimo de escrita. Quando passar a nuvem preta que se instalou sobre minha cabeça, prometo que volto a falar de Gérard Genette e outros. Estamos todos os sábados no mesmo galpão, que aliás será em breve inaugurado como espaço cultural. Saudações meu querido amigo Andrey! Ali fazemos divertidas experiências de escrita, algumas surrealistas, outras inovadoras e repentinas, outras lúdicas e infantis, algumas criadas outras herdadas. Enfim, a paixão pela Literatura é a grande responsável por essas loucuras. Agora é com você! Escolha um de nossos contos e abra os olhos para a sua IMAGINAÇÃO.