Elionora Silvério
Com passos lentos ela caminha sem pressa até a varanda de trás da casa.
Seu olhar inquieto se perde no céu de chumbo e no ar, frio para essa época do ano. É setembro. Uma frágil nesga de claridade cor de mel se avista ao longe, bem depois da curva da serra, lá onde deve ser outra cidade. Sente-se tristonha esta manhã, desde que soube do falecimento da madrinha querida. A notícia trouxe-lhe recordações de sua própria mãe: seu rosto bem feito, a voz suave, os braços confortáveis.
Dona Zefa nunca soube o que é preguiça. Contando bem, trabalha desde os sete anos de idade. Não conhecera o pai e a mãe falecera cedo, quando ela estava com doze para treze anos. Era então uma meninota levada da breca e cheia de vida. Vez em quando sua mãe aparece em seus sonhos e lembranças... as duas nunca se falam diretamente, no entanto, de algum modo conseguem se entender.
Menina ainda, desde que se soube gente, perguntava o porquê de tanto trabalho e sofrimento. A mãe explicava que era por elas serem pobres, não terem renda. A mãe nunca dissera (talvez nem ela própria soubesse) que a sua ínfima condição era em grande parte devido à cor. A cor da pele pesa.
Certa vez, na época da II Grande Guerra, ouvindo o radinho de pilha, bem mais valioso da família, souberam pela Rádio Nacional que o fim do conflito estava próximo. Estavam ambas sentadas na pequena mesa da cozinha. A mãe contava passagens de sua própria vida como se fosse sempre a primeira vez. Sua voz melodiosa pintava um mundo de cores vivas na imaginação infantil. Dizia que as filas para adquirir os gêneros de primeira necessidade estavam cada vez maiores e mais tumultuadas. Além de caros eram limitados: o açúcar, o pão e o sabão. Para atualizar o cartão de racionamento era necessário chegar de madrugada e esperar muito. Que uma idosa tinha desmaiado de cansaço de tanto esperar, que outra, uma mulher gorda, tinha armado tremenda confusão ao fingir que segurava um bebê no colo. Como as grávidas e crianças pequenas tinham preferência na fila, esta mulher havia usado um gato como disfarce. O gato porém escapou de sob os panos desmascarando sua dona.
Certo dia a mãe chegou desanimada do trabalho:
“O presidente Getúlio mandou fechar os cassinos. E agora.... a gente vai viver do quê ?”
Sem poder trabalhar em hotelaria, voltara às casas de família. Ontem, como hoje, não havia escolhas na localidade do Espinhaço.
Estava muito difícil à mãe manter a si própria e às duas crianças, sem família que a amparasse. Com muita dor, precisou deixar o menino mais velho, e partiu para a capital levando a menina. Nunca se recuperou de todo daquela separação e finalmente faleceu sem tê-lo reencontrado.
Hoje é um dia muito especial. Há um novo programa de rádio chamado “Encontros do Coração” – que promove o reencontro de amigos e parentes que há muito não se vêem. Dona Zefa mandou uma carta e com o coração morno de esperança, mais uma vez senta-se ao lado do radinho, na expectativa de ouvir o nome de seu irmão. Na noite anterior ela tivera um sonho estranho com sua mãe. Desta vez ela parecia estar mais distante, seu semblante se desvanecendo como se fosse uma sombra pouco nítida, até tornar-se um borrão. Encontrava-se junto à sombra de uma árvore gigantesca e, antes de desaparecer de todo, sorriu e disse:
- Aqui e agora a tua procura chega ao fim.
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