sábado, junho 16, 2007

Lá Tá

Frederico Helou Doca de Andrade

Um dia, ele achou no lixo uma lata de sardinha vazia. No fundo dela, viu seu reflexo todo engordurado: rosto esquálido, maçãs murchas penduradas no nariz afilado e parecido com um brócolis que acabara de ser dispensado por um dona-de-casa gordaça e esbanjadora, lábios tão quebradiços que poderiam beber todo o sumo de uma manga corpulenta e, mesmo assim, permanecerem secos; olhos cor de jabuticaba caída perto das raízes da jabuticabeira. Não podia conter-se com a beleza mórbida da própria face – não sabia o que era espelho.
Quem passava por aquele beco vadio e escuro, em pleno horário de almoço, com a rua ao lado abarrotada da gente mais grã-fina e esnobe (feito esses poodles que empinam o nariz depois que marcam território com sua mijadinha de ouro), desembainhava imediatamente seus óculos escuros dos estojinhos italianos e espiava o mundo pobre com olhar disfarçado por uma máscara preta, ladra da luz solar e da curiosidade dos que têm educação numa conversa face a face.
Mas ele nem ligava para o que se passava na boulevard. Encafifara-se com a bendita lata de sardinha. Não era qualquer lata aquela. Era a lata de sardinha que continha a fome que ele procurara por toda a vida: fome de si mesmo. Muito tentadora aquela lata. “Dá vontade de comer”, pensou. Uma lata assim, ovalada e estrelando um novo garoto-propaganda, substituindo a sardinha com sorriso esfaimado e chapéu de mestre-cuca. Esta, pintada sobre um fundo azul, todo amassado e com fendas feitas por um abridor de latas, conversava com nosso astro: “Sardinhas Godinez – as mais seletas”. É claro que ele não sabia ler, mas percebia que tinha sido selecionado por ela.
___ Há! há! há! há! há! há! há! há! há! Esse mendigo pensa que é gente – comentou um empresário rosado e roliço.
___ Não perde tempo com essa coisa não, docinho – respondeu sua mulher, que tinha o corpo curvado como o de um pingüim e seios que pagavam duas entradas no cinema.
Esses comentários maldosos não quebraram a concentração do nosso admirador de latas de sardinha. Muito pelo contrário: ele passou de um estágio “homem espectador de lata” para o de “homem-lata”. Enlatou-se, simplesmente. Lá dentro, ele via-se comendo cada um dos finíssimos pratos dos restaurantes da boulevard – comia os de louça chinesa, os de porcelana inglesa e depois passava à prataria, que o cegava, de tão faiscante que era o sabor – não sabia o que era comer com talheres.
Pagou a conta dessa fome toda de ser – sua primeira e última epifania –, com seu corpo sendo esmagado pelo caminhão das Sardinhas Godinez. Não tinha importância. Soube o que era saciar uma das fomes que não precisavam de bolsos gordos: sonhar.

Nenhum comentário:

Em que pé estamos

Estamos com os dois pés enterrados num campo semeado de palavras. Teve gente que tirou seus pés para descansar, outros para desbravar novos campos... mas ainda estamos juntos, descobrindo nas palavras outros universos. Decidimos ficar mais próximos dos textos e menos da teoria, eles dão mais ânimo de escrita. Quando passar a nuvem preta que se instalou sobre minha cabeça, prometo que volto a falar de Gérard Genette e outros. Estamos todos os sábados no mesmo galpão, que aliás será em breve inaugurado como espaço cultural. Saudações meu querido amigo Andrey! Ali fazemos divertidas experiências de escrita, algumas surrealistas, outras inovadoras e repentinas, outras lúdicas e infantis, algumas criadas outras herdadas. Enfim, a paixão pela Literatura é a grande responsável por essas loucuras. Agora é com você! Escolha um de nossos contos e abra os olhos para a sua IMAGINAÇÃO.