sábado, junho 16, 2007

Proibido Fumar

Ju Marry
Acordou, viu só o branco da fumaça. Mal podia distinguir a porta, o corpo nu de Grazielle estampado na noite anterior. Ao fundo escutou a tosse da mãe, que na cozinha preparava seu café. Mesmo pão francês e leite morno há anos, ele sentava e sua mãe servia. Então, como dispunha de tempo, ela lia as ofertas de emprego na quinta ou comentava as notícias de maior repercussão. Desta vez, a cozinha e a mãe eram um só corpo de fumaça servil e desgastado. Perguntou onde era o incêndio, numa voz seca e fraca disse que era a poluição agravada pelas queimadas. Tossiu e sentiu os olhos arderem, saiu sem se despedir, sem pensar o que a mãe faria na ausência do jornal.
Saiu, na rua as pessoas se chocavam, tropeçavam em elevações de calçada, em latas de lixo; os automóveis estavam parados nas ruas e avenidas, abertos e vazios, com seus condutores boquiabertos e vociferantes, tendo que tragar a fumaça e o atraso matutino no trabalho. Mas seria um dia normal? Alguém conseguiria trabalhar?
Encontrou Betina nas escadarias do prédio da faculdade, descia agachada, com as mãos nos degraus, e só a viu, porque foi ela quem desde cima o avistou. As aulas estavam canceladas, era impossível ver rostos dentro das salas, sem falar na palavra escrita. A fumaça era tanto, que grupos de desordeiros faziam magia negra e sexo nos corredores de cima. O único guarda estava de cama, e ninguém queria impor controle: Deus lhes acuda, professores e alunos saiam em debandada para suas casas. Na escadaria, a disputa era grande pelos corrimãos de mármore, na falta de sorte, ficava-se com a segurança dos traseiros. Perambulou pelo corredor central e logo saiu, ali era o lugar que não podia ficar.
Ao ganhar as ruas, tomou uma golfada de ar, mas se arrependeu quando sentiu a fumaça secar sua garganta. E agora? Para onde e como ir? A tosse atingiu com selvageria seus fracos pulmões de fumante, e que ironia pensar agora no seu cigarro. Ficaria em abstinência até que aquela fumaça invasora deixasse São Paulo. Nas calçada, perto do Brás, voltou a chocar-se com uma pessoa, desta vez uma garota. Pediu desculpas, continuou a passos firmes e olhou para trás, ela parecia ser uma garota por quem ele se apaixonara aos doze anos. Tarde demais, ela se desfez como fumaça, e era preciso dar as costas para a fumaça que agora trazia seu pai, acumulando tocos de cigarros na fase terminal.
Atravessou a avenida, tumultuada com o andar e desviar de corpos. Alcançou a calçada e continuou, mais meia hora de fumaça na cara e estaria em casa. Quando chegou, a fumaça se dispersava em seu bairro, varrida pelos novos ventos. Entrou em casa e viu a mãe caída no corredor, o telefone ao seu lado, mudo. Pensou nos seus minutos de agonia, em si…, não estava proibido fumar.

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Em que pé estamos

Estamos com os dois pés enterrados num campo semeado de palavras. Teve gente que tirou seus pés para descansar, outros para desbravar novos campos... mas ainda estamos juntos, descobrindo nas palavras outros universos. Decidimos ficar mais próximos dos textos e menos da teoria, eles dão mais ânimo de escrita. Quando passar a nuvem preta que se instalou sobre minha cabeça, prometo que volto a falar de Gérard Genette e outros. Estamos todos os sábados no mesmo galpão, que aliás será em breve inaugurado como espaço cultural. Saudações meu querido amigo Andrey! Ali fazemos divertidas experiências de escrita, algumas surrealistas, outras inovadoras e repentinas, outras lúdicas e infantis, algumas criadas outras herdadas. Enfim, a paixão pela Literatura é a grande responsável por essas loucuras. Agora é com você! Escolha um de nossos contos e abra os olhos para a sua IMAGINAÇÃO.