sexta-feira, março 23, 2007

Dia-a-dia

Juliana Padilha
Na frente da Tv viu o Jornal Nacional, a novela das oito e dormiu no sofá com o pescoço caído para trás. Na noite seguinte outro ciclo televisivo: jornal Nacional, novela das oito e A Diarista. Dormiu em cima da cadela, que ficou encolhida debaixo de seus pés. XXXXXXXXXXXXXX A televisão o despertou na madrugada, fora do ar com os fortes raios da tempestade. A casa alagou, foi dormir com a água beirando a cama. Outro dia, outra noite, plim-plim, a seguir mais um episódio da minisérie. “Boa noite” e viu quando a mulher desapareceu no corredor. Minisérie, comerciais, minisérie, comerciais, minisé… na praia, defronte para o mar, bebendo um cerveja, “estou na paraíso”, caiu do sofá com os vizinhos, “abaixa”, pa, pa, pa-pa-pa-pa-pa. Outra vez teve que ir para o quarto agachado, com a cadela a seguir-lhe o traseiro. Outro dia, o sol, o mesmo desce e sobe morro. Janta, Jornal Nacional, “Pai”………….., “pai”,…………….. “Que é?”………… “Nada, esquece”. Novela, calor, janelas abertas, só a TV fala. Não percam hoje, A Grande Família! Novela, comerciais, novela, comerciais. A discussão começou na casa ao lado, mulher e marido se acusam, os filhos choram. Um tiro e a tv tem seu volume baixado. Vão dormir com a sirene da policia chegando e a luz dos carros fazendo círculos no teto. “Bem-feito, assim não bate mais nela” e sua mulher apaga. Ele fica ainda com os olhos abertos, presos nas formas femininas do seu lado. A cutuca, de novo, mas só escuta sua respiração agitada pelo cigarro. Outro dia, chuva que cai, desce morro com a lama a chegar primeiro lá em baixo. Trabalha, come, trabalha. Com o pôr-do sol esquálido brinda a companhia de uma cerveja, no bar aqueles de sempre. Noite cai, se desequilibra, o amigo ajuda, sobem o morro trazendo a lama. A mulher abre a porta com o bebê no colo, vira a cara para o álcool, não para o beijo. Se tranca no quarto, o choro é silenciado pela TV. Jornal Nacional, casal perfeito, Willam Bonner e Fátima Bernardes, falam para Joãos que não escutam, no conforto de seus sofás, fecham os olhos para si mesmos. Novela, comerciais, nove…. ZAP! A tela escureceu, ele ficou atirado ali mesmo, ela deitou com os filhos. Outro dia, sábado de aleluia, crianças na praça, o sol iluminando os barracos de madeira, mal pintados, rebocados. Anas e Marias trabalham, lavam roupas, costuram, limpam agora, quem sabe, suas casas. Ela já vai longe, com os filhos agarrados na barra de sua saia. Na casa apenas a TV, majestosa.

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Em que pé estamos

Estamos com os dois pés enterrados num campo semeado de palavras. Teve gente que tirou seus pés para descansar, outros para desbravar novos campos... mas ainda estamos juntos, descobrindo nas palavras outros universos. Decidimos ficar mais próximos dos textos e menos da teoria, eles dão mais ânimo de escrita. Quando passar a nuvem preta que se instalou sobre minha cabeça, prometo que volto a falar de Gérard Genette e outros. Estamos todos os sábados no mesmo galpão, que aliás será em breve inaugurado como espaço cultural. Saudações meu querido amigo Andrey! Ali fazemos divertidas experiências de escrita, algumas surrealistas, outras inovadoras e repentinas, outras lúdicas e infantis, algumas criadas outras herdadas. Enfim, a paixão pela Literatura é a grande responsável por essas loucuras. Agora é com você! Escolha um de nossos contos e abra os olhos para a sua IMAGINAÇÃO.