Elionora Silvéria
Amém, amém. Todos os demais alunos pareciam dizer amém a tudo que o professor dizia. Que o vice-diretor mandava. Um bando de idiotas com sangue de barata. Com tais pensamentos ia revoltado, seguindo ladeira abaixo, chutando o que lhe surgia pela frente: uma tampinha de garrafa, um galho, um saco plástico, uma pedra. Ele não agüentava mais aquela escola nojenta. As rodinhas fechadas, os risos disfarçados que, tinha certeza, se referiam a ele. No mínimo as meninas ficavam gozando do seu sotaque, sua fala diferente da do resto das pessoas. Ele não tinha culpa de ser novo, ter vindo de outra cidade.
Realmente estava muito puto. Aquela tinha sido a gota d’água. Ser chamado à Diretoria por causa de bomba. De bombas! Quase todo dia alguém soltava uma bomba no banheiro da escola provocando o maior alarido. Grande confusão. As meninas gritando assustadas no pátio do recreio, tampando os ouvidos na sala de aula. Os moleques rindo superiores.
Mas esta última vez fizeram ‘no capricho’. Tanto, que ela conseguiu até deslocar um dos vasos sanitários no banheiro dos meninos. Foi o maior estrondo, e algum safado tinha dedurado o menino, acusando de tê-lo visto colocar o rojão e depois sair correndo. Por este motivo ele fora chamado às favas.
A sala do diretor: bonita, imponente, com pesadas cortinas azuis, tapete, móveis de cor combinando e um computador de última geração. Havia fotografias da família sobre a mesa e chamou-lhe a atenção o crucifixo enorme, de madeira, pendurado na parede detrás da mesa. O diretor era um homem rigoroso, de pés enormes, amante da disciplina e tinha frios olhos azuis. O homem sentado e a cruz pendurada sobre a sua cabeça formavam um quadro original, parecia uma imagem ondulante, um conjunto que atraía a visão como ímã. “Nunca pensei que ele fosso católico. Achava que era judeu”.
O diretor, seu Álvaro Miranda, não quis conversa. Ele tinha a acusação, ele tinha testemunhas, ele deu o gancho: dois dias.
Saiu dali contrariado e doido para descobrir quem teria sido o ‘vacilão’. Acertariam contas depois.
“E agora?.... não posso chegar em casa em hora tão imprópria sem ter um bom motivo”.
Resolveu ficar zanzando em volta da Escola. Dar um tempo até soar o último sinal. Então voltaria com a cara mais lavada do mundo. Ia almoçar e faria a tarefa do dia como um excelente aluno faria. “Mamãe não pode saber”.
Correu tudo às mil maravilhas no primeiro dia. Mas, e no segundo?
A escola ficava não muito longe de sua casa. Era um prédio relativamente novo e, comparada com as demais escolas públicas, até que não era das piores. Pelo menos as paredes tinham sido pintadas recentemente de tom bege, e os tijolinhos junto ao portão de entrada eram particularmente simpáticos. Olhando de fora, ninguém diria o labirinto de grades, esquinas, cadeados e portões que havia, separando cada ala. Ultimamente, até as salas de aula ficavam trancadas com cadeado nos intervalos, mesmo durante o dia. Era um nojo a escola.
“Tenho que bolar um esquema pra mãe não desconfiar“...
Na manhã seguinte, levantou-se e saiu de casa na mesma hora de sempre. Pegou o ônibus escolar e foi motivo de gozação (lógico) - entre os colegas. Depois que todo mundo entrou na Escola, um peso enorme abateu-se sobre as suas costas. Sentou, levantou, andou em volta do colégio, zanzou por ali. Porém as horas demoravam demais a passar. Imerso em seus pensamentos foi indo e afastando-se do prédio.
Passou o campinho, dobrou duas esquinas, passou na porta de um bar que não conhecia.
Uns homens idosos jogavam conversa fora e sinuca. “Puxa, logo cedo esses caras jogando no bar?” Pensou aborrecido e cheio de calor. Deu a volta pela rua de cima, olhando as vitrines e coisas que nunca antes haviam chamado sua atenção. Parou quando ouviu alguém chamar:
- Óh garoto, vem aqui.
Alguém que não conhecia puxou conversa, e ele lembrou de repente dos conselhos de sua mãe: “...não falar com estranhos na rua”. O homem, pequeno e com uma enorme barriga redonda, usava relógio dourado, um terno claro e um prendedor de gravata combinando com o relógio de pulso. Talvez fosse de ouro.
Essa pessoa tinha uma pele diferente: fina, de cor avermelhada, suava muito e limpava a testa com um lenço branco dobrado ao meio. Parecia estrangeiro, tinha uma fala estranha e parecia estar meio perdido na cidade.
Sua maneira de andar lembrou-lhe o jeito de seu tio Dinho, que ele há muito não via. Depois de indicar ao sujeito o endereço que ele pedia, recebeu de presente um picolé e a promessa de que ganharia uns bombons especiais, se no dia seguinte acompanhasse o tal até sua casa para ver uns Dvds infantis.
Na manhã seguinte, dia de aula normal, o garoto, inventando uma desculpa qualquer, decidiu por sua própria conta tirar mais uma folga.
(Baseado num conto de João do Rio.)
sexta-feira, março 23, 2007
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Em que pé estamos
Estamos com os dois pés enterrados num campo semeado de palavras. Teve gente que tirou seus pés para descansar, outros para desbravar novos campos... mas ainda estamos juntos, descobrindo nas palavras outros universos. Decidimos ficar mais próximos dos textos e menos da teoria, eles dão mais ânimo de escrita. Quando passar a nuvem preta que se instalou sobre minha cabeça, prometo que volto a falar de Gérard Genette e outros.
Estamos todos os sábados no mesmo galpão, que aliás será em breve inaugurado como espaço cultural. Saudações meu querido amigo Andrey! Ali fazemos divertidas experiências de escrita, algumas surrealistas, outras inovadoras e repentinas, outras lúdicas e infantis, algumas criadas outras herdadas. Enfim, a paixão pela Literatura é a grande responsável por essas loucuras. Agora é com você! Escolha um de nossos contos e abra os olhos para a sua IMAGINAÇÃO.
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