Elionora Costa
Ele esteve sombrio e inquieto durante toda a manhã. Era dia de Finados e com o céu meio turvo e ameaçando garoa, dirigiu-se com a mulher ao pequeno cemitério local. Caminharam sem pressa pelas alas iniciais. Depois de cumprimentar alguns vivos -mais ou menos íntimos -, inventou uma desculpa esfarrapada sobre o guarda-chuva, e conseguiu desvencilhar-se da mulher que o tempo inteiro ficara a seu lado. Ela sumira por entre uma ala de arbustos meio desfolhados, ele desapareceu no caminho oposto. Andando com determinação, ia cumprir o dever anual que se auto-impusera: visitar o número L-374.
Ninguém sabia que aquela era uma data única para ele. O lugar, normalmente ermo e carregado de um silêncio de pedra, regurgitava; ficava entupido de gente. Eram conversas de negócios, viagens, sobre artistas. Era meu marido isso; meu filho aquilo; cê soube menina? De vez em quando não conseguia evitar um constrangimento..... Uma revolta íntima. Dia dos mortos afinal!
No campo sagrado não havia mausoléus, capelas ou jazigos de família excessivamente adornados com símbolos que classificam as pessoas segundo o que elas possuem. Mesmo depois de mortas. As edificações individuais ficavam no chão e o campo, a perder de vista, assemelhava um imenso e bem cuidado jardim. Um pequeno riacho corria ali perto, guardando as raízes das árvores e a beleza de um único jacarandá solitário, imenso, de tronco enrugado pelos anos. Cujos braços gigantescos pareciam acolher a terra e desafiar os céus. Ao redor tudo era luz e paz e ele se sentia quase feliz, imerso no infinito e liberado pelos seus fantasmas. Quem o visse de pé, solene, chapéu na mão, pensaria que rezava. Mas ele estava era lembrando o passado e contando os seus mortos. Com maiores cuidados tirou do bolso do paletó a vela que trazia escondida, discreta. Acendeu e meio que rezou uma prece: ele que não freqüentava igreja nem templos.
Nos últimos tempos dera para ter maus sonhos. Eram pesadelos onde naufragava em águas vermelhas de líquido pastoso, ou via-se curvado para o centro da terra. Dobrado em dois, sendo tragado pela terra. Via nervos, músculos, bílis e ossos triturados em sangue e fezes. Uma fileira incontável de velas-luzes bruxuleantes dançavam ao seu redor e mesmo sem contar, ele sabia que eram quatrocentas. Ou mais. Sentia muito frio e um peso infinito sobre os membros o impedia de libertar-se e fugir...
A esposa o cutucava forte: _ Acorda, João!!... Outro pesadelo?
Ao ouvi-la saiu de seu devaneio, divisando o vulto de passos lentos por entre a aléia esquerda. Recompôs-se rapidamente buscando um assunto coloquial. Ela jamais poderia imaginar quem fora o velhinho baixo, de calvície avançada, que usava chapéu de feltro tipo cury e tinha fama de avesso a arengueiros. Já no fim da vida, só os mais íntimos de casa sabiam que ele à noite usava a comadre.
Quem visse o fervor com que cumpria a obrigação no Finados, o interesse piedoso com que assuntava o campo santo, não poderia imaginar o assassino frio e cruel que matava por conveniência, dinheiro ou prazer. Acerto de contas alheias. Apenas trabalho. / //
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Em que pé estamos
Estamos com os dois pés enterrados num campo semeado de palavras. Teve gente que tirou seus pés para descansar, outros para desbravar novos campos... mas ainda estamos juntos, descobrindo nas palavras outros universos. Decidimos ficar mais próximos dos textos e menos da teoria, eles dão mais ânimo de escrita. Quando passar a nuvem preta que se instalou sobre minha cabeça, prometo que volto a falar de Gérard Genette e outros.
Estamos todos os sábados no mesmo galpão, que aliás será em breve inaugurado como espaço cultural. Saudações meu querido amigo Andrey! Ali fazemos divertidas experiências de escrita, algumas surrealistas, outras inovadoras e repentinas, outras lúdicas e infantis, algumas criadas outras herdadas. Enfim, a paixão pela Literatura é a grande responsável por essas loucuras. Agora é com você! Escolha um de nossos contos e abra os olhos para a sua IMAGINAÇÃO.
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