Tharcisio Leone
O caminhar é lento, os becos escuros são o caminho, na noite silenciosa e vazia a lua é a única companhia, companheira e testemunha ela observa aquela linda mulher, de olhos claros, cabelos loiros e sorriso doce. Em sua identidade lê-se Izabel Mendes, mas o mundo a batizou de Anita, mesmo mundo cruel que lhe arrancou dos laços familiares e jogou-a nas ruas, sem casa, sem dinheiro e sem esperança.
Os primeiros raios do sol encontram-na em sua rua, abrindo a porta barulhenta e enferrujada de sua casa, lá dentro três míseros cubículos formam seu lar, na sala uma estante velha e torta serve de suporte às suas recordações, uma máscara de carnaval, duas garrafas de aguardente e três preservativos masculinos; no quarto a cama é desarrumada e fétida, o cheiro nauseante expelido pelo abrir da janela invade a rua.
O lar não lhe traz sossego, e a cama não lhe traz sono, a consciência pesa sobre sua mente, os pensamentos se confundem ao cansaço, e o corpo finalmente se entrega ao descanso. De repente uma grande escuridão se abre sobre ela.
- Onde estou? Por que não vejo nada à minha frente? – Socorro! – Ah, para que me desesperar, o que temo? O medo é cúmplice dos desejos, se não desejo nada por que temer?
Anita caminha despreocupadamente pela escuridão, nos olhos os sinais da fascinação; - Sim, existe beleza no vazio, a ausência muitas vezes é mais salutar que os desejos. De repente, ela percebe que é observada de longe, o brilho de dois olhos vermelhos demonstram que não está sozinha; ela caminha em direção à luz e vê um ser alto de capa preta, rosto de morte e olhar de desilusão.
- Por que me olhas com tanto receio? – pergunta o homem.
- Quem é você? Fala comigo como se me conhecesse.
- Sim, eu conheço, somos íntimos, por muito tempo clamaste pela minha presença. Lembras das noites em tua casa, das quedas nas sarjetas entregue à dor e à humilhação onde chamavas por mim? Sou a Morte.
- Que bom, há tempo te esperava, nos últimos meses passei a clamar-te, não agüentava mais minha sina, os dias eram cada vez mais compridos, a angustia me acompanhava, fiz dos meus sonhos o refugio do pesadelo da minha vida.
- Garota arrogante! Por que ages desta forma? Tu deverias ter medo de mim, teu corpo deveria estar trêmulo, teu rosto pálido como uma vela de sete dias; ao invés disso me tratas com intimidade, não tens medo de perder tua vida?
- Não posso perder algo que nunca tive, eu nunca vivi, apenas sobrevivi nesse mundo sórdido e miserável, eu sempre . ..
(ainda ouvindo o lamurio de Anita, a Morte afasta-se e sai caminhando vagarosamente para frente).
- Onde vai? – grita Anita. Não vai levar-me com você?
- Não, nenhum sofrimento pode ser maior para ti do que continuares com vida.
Neste instante Anita desperta abruptamente e levanta-se da cama, no espelho observa seus olhos fundos de morte e o rosto pálido como uma vela de sete dias.
sexta-feira, março 23, 2007
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Em que pé estamos
Estamos com os dois pés enterrados num campo semeado de palavras. Teve gente que tirou seus pés para descansar, outros para desbravar novos campos... mas ainda estamos juntos, descobrindo nas palavras outros universos. Decidimos ficar mais próximos dos textos e menos da teoria, eles dão mais ânimo de escrita. Quando passar a nuvem preta que se instalou sobre minha cabeça, prometo que volto a falar de Gérard Genette e outros.
Estamos todos os sábados no mesmo galpão, que aliás será em breve inaugurado como espaço cultural. Saudações meu querido amigo Andrey! Ali fazemos divertidas experiências de escrita, algumas surrealistas, outras inovadoras e repentinas, outras lúdicas e infantis, algumas criadas outras herdadas. Enfim, a paixão pela Literatura é a grande responsável por essas loucuras. Agora é com você! Escolha um de nossos contos e abra os olhos para a sua IMAGINAÇÃO.
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