sábado, junho 16, 2007

Gravidade

Fredrico Helou Doca de Andrade
A barriga pesava – era uma forma tão saliente, que inclinava-se aos passantes da rua Filho, encarando-os com sua feição gorda e de lábios sempre fechados, assoviando a quem quer que fosse: “o que é que tá pegando, hein, minha filha? faz nove meses que eu tô tentando emagrecer”. A população ficava escandalizada com o jeito infantil daquela gravidade toda – suspensa por milagre. Nem Newton poderia acreditar que uma coisa tão rotunda daquelas pudesse fazer com que sua maçã caísse por terra.
“Isto” tinha nome. Isto não no sentido demonstrativo, mas no sentido indicativo de algo medonhamente criado: Dona Peso. Morava no apartamento 6 na mesma rua em que todos os dias era afrontada. Nenhum filho para consolá-la, já que os dois que parira haviam seguido o rumo contrário do caminho das cegonhas: foram ganhar os céus como comissários de bordo; gêmeos idênticos, profissões idênticas, mas um desprezo idêntico pela mãe, que julgavam, por ter uma aparência tão asquerosa, tão grávida de preconceitos alheios.
Sua única amiga era Docinho, uma moça de 23 anos, esguia, mãe solteira e com 10 brigadeiros de vantagem em relação às outras moças do bairro que organizavam festas infantis. Tinha uma mão cheia e ligeira para enrolar fregueses e cajuzinhos ao mesmo tempo. Eram inseparáveis. D. Peso vivia tricotando, na varanda geminada à da companheira, zombarias em resposta aos olhos impregnados de um sorrisinho de escárnio e ironia. Quem visse as duas daquele jeito, com certeza falaria que era uma versão feminina de O Gordo e o Magro.
Era dia de festa nos arredores da rua Filho. A filha da lavadeira encomendara uma festa farta a Docinho. Esta, à amiga, D. Peso, pedira que se vestisse de palhaça, pois levara um bolo do animador de festinhas infantis, que ligara avisando ter tido uma disenteria em decorrência de um glacê estragado.
___ Ah, Barriguinha. Minha barriguinha saradinha. Vamos! Não custa nada, vai. É só você colocar os suspensórios, o narizinho de morango e animar a molecada. Já pensou depois no cachê da lavadeira, hein? Vai dar pra você comprar um monte de sonhos na padaria.
Depois da insistência que tivera que empurrar goela abaixo na amiga (pois era mais estudada e tinha um poder persuasivo), a festa se iniciou com os tradicionais comes e bebes, que eram de dar água nos olhos, de tão lindos e multicoloridos que eram.
Lá pelas tantas, com todos já fartos de guloseimas e as manguinhas das camisas de tecidos xadrez manchadas de jogo da velha de bolinhas de chocolate e xis de creme, veio o número de D. Peso. Ficou de frente para a platéia, toda maquiada: era uma pintura triste e enfadonha, cujas tintas escorriam e pingavam no chão decorado de papel crepom. Calara-se diante de todos para depois anunciar o que acabara de saber: “os gêmeos, minha gente! os gêmeos! acabou o sonho!”.

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Em que pé estamos

Estamos com os dois pés enterrados num campo semeado de palavras. Teve gente que tirou seus pés para descansar, outros para desbravar novos campos... mas ainda estamos juntos, descobrindo nas palavras outros universos. Decidimos ficar mais próximos dos textos e menos da teoria, eles dão mais ânimo de escrita. Quando passar a nuvem preta que se instalou sobre minha cabeça, prometo que volto a falar de Gérard Genette e outros. Estamos todos os sábados no mesmo galpão, que aliás será em breve inaugurado como espaço cultural. Saudações meu querido amigo Andrey! Ali fazemos divertidas experiências de escrita, algumas surrealistas, outras inovadoras e repentinas, outras lúdicas e infantis, algumas criadas outras herdadas. Enfim, a paixão pela Literatura é a grande responsável por essas loucuras. Agora é com você! Escolha um de nossos contos e abra os olhos para a sua IMAGINAÇÃO.