Elionora
Parada no ponto observando o tamanho da fila, de longe ela percebe que vai ter de esperar o próximo ônibus se quiser viajar sentada. Dispõe-se a enfrentar a longa espera. Seus pés já começam a reclamar _”que péssima idéia vir trabalhar de salto logo hoje”— e, de vez em quando, ela sente umas fisgadas na coluna. É o peso de mais uma semana de trabalho árduo.
Para distrair a atenção observa os ambulantes que sempre têm novidades, especialmente nessa época do ano. “ Natal é tempo de renovação das esperanças e do guarda-roupa também”. Camisetas brancas, de time de futebol, calças jeans, tênis, sapatos, óculos, todo tipo de bugigangas.
Que estarão fazendo os filhos, sozinhos em casa tão tarde? Dentro em breve será noite e ela não vê a hora de chegar em casa e poder abraçar os pirralhos. Dar a janta antes que eles caiam num sono pesado de chumbo para só acordar na manhã seguinte.
O ônibus chega afinal. Contrariando suas previsões, dessa vez ela vai ter que viajar de pé. Paciência. Importante nesse momento é poder chegar um pouco mais cedo em casa. Enquanto caminha lentamente seguindo a primeira fila, ergue os olhos cansados para o céu que a envolve na beleza dourada e esquecida do poente, como se fosse um presente feito só para ela. Manchas indecisas aparecem em tons cinza-azulados, enquanto as primeiras lâmpadas são acesas na cidade. Ela suspira profundamente. Sente-se recompensada por aquele momento de intimidade com o infinito. Enfim a lotação parte, deixando cada vez mais longe o som duma canção antiga. –“California Dreaming – quem será que canta mesmo?” Está tocando numa vitrine enfeitada de Natal e traz lembranças que ela preferia esquecer, recordações dum tempo feliz, porém muito antigo. Quando sonhos, desejos e a esperança corria solta em cada pequenino gesto. Em cada olhar. Os dedos fortes e quentes a aquecer-lhe as mãos no frêmito da despedida. Olhos tão próximos que ainda parecia sentir-lhe o hálito doce.
_ Quando você vem agora?
_ Eu te ligo amanhã de tarde.
O marido é o passado. Faz parte das lembranças entranhadas no recôndito de sua mocidade. Olhar perdido no horizonte, mão que segura firme na barra de ferro, ela faz força para não cair quando o motorista faz uma curva mais fechada. Tinham sido colegas; fora o primeiro namorado; primeiro homem; o grande amor de sua vida. Fora também o pais de seus dois moleques. Um sujeito fraco “que não segurou quando as dificuldades começaram a crescer enquanto a família também crescia”. Desempregado e vivendo de pequenos expedientes, fugiu assim que o menino mais novo nasceu.
Logo depois da farmácia vem a sua parada.
Os pés já não doem tanto, pois dum jeito ou de outro, devem ter descansado um pouco durante aquela última hora de viagem. Quando ela desce da condução, seu coração vem cheio de alegria renovada pelo amor da sua família. Sente-se recompensada quando, ao abrir o portão, ouve o rumor de pezinhos felizes que correm dum lado para o outro e uma voz que grita: _ Oba, a mamãe chegou!
sábado, junho 16, 2007
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Em que pé estamos
Estamos com os dois pés enterrados num campo semeado de palavras. Teve gente que tirou seus pés para descansar, outros para desbravar novos campos... mas ainda estamos juntos, descobrindo nas palavras outros universos. Decidimos ficar mais próximos dos textos e menos da teoria, eles dão mais ânimo de escrita. Quando passar a nuvem preta que se instalou sobre minha cabeça, prometo que volto a falar de Gérard Genette e outros.
Estamos todos os sábados no mesmo galpão, que aliás será em breve inaugurado como espaço cultural. Saudações meu querido amigo Andrey! Ali fazemos divertidas experiências de escrita, algumas surrealistas, outras inovadoras e repentinas, outras lúdicas e infantis, algumas criadas outras herdadas. Enfim, a paixão pela Literatura é a grande responsável por essas loucuras. Agora é com você! Escolha um de nossos contos e abra os olhos para a sua IMAGINAÇÃO.
Um comentário:
"Enquanto caminha lentamente seguindo a primeira fila, ergue os olhos cansados para o céu que a envolve na beleza dourada e esquecida do poente, como se fosse um presente feito só para ela. Manchas indecisas aparecem em tons cinza-azulados, enquanto as primeiras lâmpadas são acesas na cidade. Ela suspira profundamente. Sente-se recompensada por aquele momento de intimidade com o infinito"
Amei demais este trecho! :)
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