sábado, dezembro 02, 2006

Vitima da Solidao


Tharcisio
A rua Querubim tem uma rotina semelhante às demais ruas do centro da cidade, freqüentemente está congestionada pelo tráfego intenso de carros e pelas pessoas caminhando apressadamente de um lugar a outro, a única coisa que difere esse lugar dos outros da cidade é a linda melodia que se ouve diariamente a partir das 8:30 da manhã, é um som agudo que sai de um casarão velho e fétido, proveniente de um trombone afinado e, provavelmente de uma alma melancólica.. O som estarrece pela tristeza e amargura contida em suas notas, paralisando assim por minutos alguns pedestres e ambulantes, durante quase trinta minutos as pessoas deixam sua correria diária para deliciar-se com a música, ao final do ato, muitos tem os olhos lacrimejantes e a voz embargada pela emoção.
Quando as pessoas voltam a razão, muitas retornam à sua rotina diária, correm para o trabalho ou para a escola, porém todas levam consigo uma parcela da angustia e do sofrimento exposto na melodia. São muitos os interessados em descobrir quem é o autor dessa música e a razão de tanto sofrimento, porém ao contrário da maioria dos artistas, esta artista, escondida dentro do casarão, não aprecia o reconhecimento de seu público, pois por maior que sejam os aplausos ao final de sua exibição ela nunca sai até a varanda para ver seus fãs.
Algumas crianças, motivadas pela imaginação e ingenuidade próprias da idade dizem que a dona do casarão é uma velha bruxa que passa o dia aterrorizando as pessoas com suas feitiçarias e que a música é apenas mais um feitiço da velha, utilizado para evocar os espíritos e deixa-los pairando sobre a cidade. Os mais idosos, porém, dizem que a casa é habitada por uma senhora inofensiva e solitária que utiliza a música para lembrar-se da juventude e esquecer as mazelas de sua vida.
Na verdade, a autora da sinfonia e dona do casarão é Dona Elisabete; uma bondosa senhora que sentada em uma velha cadeira de balanço passa os dias observando o movimento incessante das ruas; gosta de observar o movimento das pessoas e principalmente as ações dos jovens, pois observa nestes além da pressa, particular a todos os habitantes de uma grande cidade, observa também a alegria e principalmente a esperança. Esperança que a tempos não carrega dentro de si, esperança que viu decepar - se com o passar dos anos; justo ela, que na infância sonhava em conquistar o mundo, em domar os interesses escusos das pessoas e viver em uma sociedade justa e digna.
Não se lembra que dia da semana é hoje, a tempos parou de contar os dias, sua idade transformou-se em uma incógnita para si mesma, acredita porém que esta quase chegando aos oitenta anos, sendo que quase quinze deste anos foram de solidão, desde que seu marido faleceu não tem mais companhia para suas refeições, suas conversas resumem-se a intermináveis monólogos, já não tem toalhas de mesa, restaram em sua cozinha penas dois pratos.
Tem na lembrança a imagem de seu filho, porém esta imagem já não se encontra tão lúcida, pois faz quase dois anos que não recebe a visita dele. O filho da Dona Elisabete é um famoso advogado da capital, tinha alcançado fortuna e prestigio com seu trabalho, isso enchia sua mãe de orgulho, pois foi graças ao seu esforço que o filho conseguiu estudar. Foram anos de trabalho intenso para isso, quantas noites não passou acordada em frente a maquina de costura terminado roupas para suas clientes, quantas vezes não deixou de sair, de se divertir e de até comer para conseguir guardar dinheiro para pagar a mensalidade da escola de seu filho.
Hoje em dia, as engrenagens de sua maquina estão enferrujadas, pois suas mãos e sua visão impedem –a de costurar, também não tem mais razão para trabalhar, pois seu filho já esta formado, a ultima peça a passar por aquela maquina foi uma linda blusa azul que costurou para dar de presente ao seu filho, porém a quase um ano este presente encontra-se embrulhado para ser entregue
Às vezes, quando esta deitada em sua cama entregue ao silêncio ensurdecedor da noite ela ouve a voz de seu filho chamando por ela, levanta-se então e caminha angustiantemente até o quarto, no caminho sente-se feliz com a hipótese de rever sua cria, em abraça-lo e beija-lo como fazia quando este era criança, porém quando abre a porta do quarto e vê a cama vazia, rodeada pelos brinquedos e pelos moveis inertes seu coração enche-se novamente de tristeza e decepção.
Para tentar se distrair ela volta a seu quarto e liga a televisão, ao assistir despreocupadamente uma propaganda de uma loja de roupas se dá conta que no próximo dia será dia das mães, seu coração enche-se novamente de esperança, pois certamente seu filho irá lembrar-se dela, haja vista, que ele tem apenas uma mãe e é claro que irá compartilhar esse dia com ela.
É tomada então por tamanha alegria que a faz arrumar toda sua casa, retira a espessa camada de pó que se encontra em cima de seus moveis, ao abrir sua dispensa e perceber que não tem nada a oferecer a sua futura visita, ela sai pela primeira vez na semana a rua e vai até o mercadinho da esquina comprar produtos para preparar o almoço de seu filho, lembra-se também em comprar pratos e talheres novos para a refeição.
No dia seguinte ela passou a manhã fazendo a refeição preferida de seu filho, apesar da idade e da memória ruim lembrava-se que ele adorava comer arroz carreteiro com carne de porco, ao final da manha sua mesa já estava posta e ela foi arrumar-se, colocou sua melhor roupa, passou perfume, retocou a maquiagem e ficou no aguardo do filho. O relógio da sala já passava do meio dia quando ouviu sua campainha tocar, por um instante sua vida voltou a encher-se de esperança e alegria, seu coração disparou, lembrou-se dos momentos felizes de antigamente quando toda a família se reunia em torno da mesa de jantar e conversava sobre o dia vivido.
Caminhou apreensivamente até a frente de sua casa e no intuito de abraçar logo seu filho abriu desesperadamente a porta e olhou a pessoa do lado de fora, por um instante sua alma saiu de seu corpo, um gelo horrível tomou conta de si ao perceber que aquela pessoa não era seu adorado filho, não passava de um carteiro que a entregou um pequeno bilhete e voltou para a rua. Dona Elisabete percebeu que o remetente desta correspondência era seu filho, abriu rapidamente então o envelope e leu o pequeno recado.
- Querida mamãe, infelizmente não vou poder passar o dia das mães com você, pois conheci uma mulher maravilhosa a alguns dias e vou passar o dia com a mãe dela, porém mesmo a distancia gostaria de lhe desejar um “feliz” dia das mães.
Os vizinhos dizem que ouviram o som do trombone durante toda a noite de domingo, foram quase oito horas interruptas daquela melodia melancólica e solitária, porém a partir de segunda – feira não ouviram mais a música, os pedestres acostumados ao som continuavam indo a frente do casarão pela manhã, porém não tinham ao que assistir, todos acharam estranho esse silêncio que perdurou por toda a semana.
Devido a este silêncio e a falta de movimentação na casa os vizinhos chamaram a policia, ao entrar no casarão perceberam que a porta estava aberta e que a mesa estava posta, porém a comida já era atacada por mosquitos e ratos; ao entrar no quarto encontraram uma velha senhora deitada com alguns brinquedos em cima, ao se aproximarem sentiram um cheiro fortíssimo, proveniente certamente de um cadáver em decomposição.

Sociedade de Clones


Tharcisio
Passam das seis horas da manhã e os raios de sol já adentram pelo grande galpão de portas largas e teto de zinco, o cheiro do orvalho se dispersa com rapidez devido ao aquecimento das telhas e paredes, ouve-se vagamente ao fundo o cantarolar dos galos que despertam e assanham suas pares fêmeas.
Com a luz do dia é possível ver a imensidão daquele galpão, são quase quinhentos metros quadrados separados em pequenos retângulos com um cocho e uma fonte de água, lá dentro amontoam-se milhares e milhares de frangos, o calor é superado apenas com o auxilio de uma grande ventilador que circula ar fresco evitando que morram todos sufocados.
Lá dentro os frangos conversam sobre a noite passada e as expectativas para o novo dia que se inicia, todos se encontram sorridentes e felizes; a calmaria da manhã é quebrada pela chegada de mais um carregamento de frangos que chega do interior, aumentando ainda mais a lotação. Após a chegada os novos hospedes acomodam-se e saem das baias para se familiarizar com a nova casa, todos são bem recepcionados pelos hospedes antigos e passam a conversar.
- Nossa, mas que lugar lindo, tão limpo e organizado, eu nunca havia ficado num espaço assim! – disse um dos novos hospedes.
- Realmente, este lugar é maravilhoso – respondeu o sindico da baia 8 – Esta granja recebeu o prêmio de melhor granja do país, os frangos daqui são exportados para os Estados Unidos, Europa e até pra China.
- Quer dizer que vou ser comido por um inglês ou chinês? Que orgulho, nunca pensei que eu, um frango nascido no interior, de família pobre e órfão de pai teria uma honra dessa.
O dia seguiu-se com os veteranos apresentando a granja aos novos e explicando todo o seu funcionamento, desde a chegava do frango até a entrega das peças embaladas ao cliente, passando pelas acomodações e a forma de abate.
- Vejam, - disse o sindico – este espaço é para aqueles frangos que chegam abaixo do peso, eles ficam aqui por um tempo, recebendo uma ração balanceada para ganharem corpo e ficarem iguais aos demais da granja, pois aqui precisamos ter todos as mesmas características; do outro lado encontram-se uma outra sala onde são colocados os frangos que estão acima do peso, ali eles recebem uma ração “light”, para que perdão peso e ganhem músculos.
Os novos hospedes ficavam impressionados com a organização do espaço e com o cuidado com que são tratados, ao caminharem observavam cartazes colados na parede com retratos de frangos fortes, brancos e sorridentes dizendo: “Agora você é um dos nossos! Temos orgulho em tê-lo na família FRANGOSUL”.
À noite foram todos levados a uma grande sala escura, onde passava um filme sobre a história da empresa, o filme apresentava os frangos como importantes e responsáveis pelo sucesso da empresa, mostravam famílias alegres ao redor da mesa saboreando os produtos da empresa, crianças dizendo que aquele frango era o mais gostoso do país, ao final do filme muitos dos frangos tinham os olhos lacrimejados pela emoção.
Apenas um frango, de nome Galináceo Silva Pinto não demonstrava a alegria particular a todos, devido a sua cara emburrada e olhar melancólico o sindico chegou até ele e quis saber o porque daquela angústia.
- O que aconteceu? Não gostou da granja? – perguntou o sindico.
- Não, não é isso! È o melhor lugar que já fiquei na minha vida, porém queria estar fora daqui, queria correr livre pelo campo e procurar comida sozinho, me sinto como se estivesse em uma gaiola, uma gaiola de ouro, mas ainda assim uma gaiola.
- Mas o que é isso – retrucou o sindico – Quer retroceder, nossos antepassados lutaram muito para que um dia tivéssemos um lugar assim, e você quer jogar “tudo para cima”.
Olhando pela janela do cocho Galináceo observou que havia um frango pulando livre no quintal da granja, esta cena despertou sua curiosidade.
- Quem é aquele frango que esta correndo livre pelo campo? Ele é da granja?
- Não, ele não é um dos nossos, aquele é um frango caipira, ele vive por aí, andando de um lado para o outro, comendo minhocas e outros insetos fétidos que encontra pelo caminho, perceba como ele é, tem penas vermelhas e pernas finas, não pagariam um tostão por sua carne, pois tem um sabor forte e horrível bem diferente de nós, frangos de raça superior, todos brancos, fortes e saborosos.
- Eu quero ser igual ele – disse Galináceo.
- Esta louco? Indagou o sindico – São todos vagabundos, andam por ai sem razão, sem porque, vivem uma vida sem objetivos e segurança; existe até uma lei na câmara das aves que se for aprovada proibirá estes seres de caminharem livres pelas ruas, pois são um perigo à nossa sociedade e um exemplo negativo para os nossos filhos.
A discussão seguiu-se por quase duas horas, outros frangos que passavam pelo local pararam para ouvir e muitos tomaram partido, alguns defendendo o síndico outros a favor de Galináceo, o debate não pode se estender por mais tempo porque o sino tocou e conforme a regra da granja, após o sino todos tinham que se retirarem para suas baias e dormirem.
No outro dia, logo pela manha, muitos frangos procuraram Galináceo em sua baia para ouvirem mais sobre suas posições e idéias, porém no lugar onde o mesmo dormia encontraram apenas algumas penas quebradas e um cheiro insuportável de iodo.

Alma Morta


(Foto Deise Lane/Viva Favela)
Tharcisio
São quase cinco horas da manhã e a claridade da luz do sol já adentra pelo barraco de madeira, o som de passos e conversas rompe o silencio da madrugada, a noite infelizmente chega ao fim, iniciando assim um novo e melancólico dia na favela Eldorado.
Apesar da diversidade de vidas e formas existentes nesse espaço, a cena que se inicia com o romper da aurora é quase sempre o mesmo em todos os barracos; a mãe adolescente, pouco instruída e miserável desperta, abandona sua alcova e dirige-se ao cômodo ao lado onde seu filho ainda dorme e sonha.
Sonha com uma vida melhor, sonha com o dia em que poderá dormir e não se preocupar com as goteiras do teto ou com a enchente do córrego; imagina como seria sua vida em uma casa de alvenaria, poderia ter um quarto apenas para ele, com uma estante repleta de brinquedos e enfeites, teria assim orgulho em convidar seus amigos a visitarem sua casa.
Em seu devaneio ele tem pais compressíveis que o apóia e incentiva, sua mãe uma fonte de carinho e bondade o ajuda nos deveres escolares e tem sempre uma palavra de incentivo e consolo; seu pai é o seu exemplo, homem trabalhador e honesto, sempre o leva para passear no zoológico e andar de bicicleta, o apresenta para seus amigos como sendo seu grande orgulho.
No sonho a criança é livre, ele diverte-se e delicia-se com a liberdade de entrar nas lojas do “shopping center” e levar seus brinquedos prediletos, no sonho ele entra na escola bonita e grande que existe ao lado da favela e brinca até cansar no parquinho ao lado do pátio, seus novos amigos lhe tratam com galhardia e sua professora é uma moça linda, de cabelos longos e olhos claros que fala vagarosamente e deixa transparecer sua doçura e benevolência.
Essa sua quimera é interrompida pela ação de uma mão pesada que o aperta e acorda, ao abrir os olhos percebe que na realidade sua casa é feita de retalhos de madeira, com telhado improvisado de folhas de bananeira e isopor, sua mãe diferentemente do que sonhava não o chama de amor, não o sorri e nem o incentiva, pelo contrário, ela o trata com raiva e amargura, suas palavras são sempre seguidas por insultos e menosprezo; ao seu lado não tem o pai, as únicas lembranças que tem deste são as palavras de ressentimento e raiva que sua mãe pronuncia ao se lembrar do homem que a abandonou grávida e “sumiu” no mundo.
Para sua alegria o dia manteve a visão da escola bonita e grande ao lado de sua casa, porém ao se aproximar do prédio percebe que as crianças já não o tratam com a generosidade anterior, os olhares que as crianças voltam para ele são de desconfiança e medo, observa que ao passar pela rua as mães dos alunos seguram firmemente a bolsa e fecham os vidros dos carros; o senhor idoso e alto a quem os outros chamam de porteiro não o deixar entrar para brincar no escorregador, senti a alegria contagiante das outras crianças, mas percebe que aquilo está muito longe de seu alcance.
Tomado pela angustia ele se lança a desbravar as longas e tumultuadas avenidas do centro da cidade, procura desenfreadamente por alguma coisa que possa dar sentido a sua vida, busca um amor, um trabalho, uma esperança, busca a si próprio.
Chega finalmente à esquina da São João com a Piratininga, onde se pinta e passa a distrair os motoristas, o sinal é seu local de trabalho e a alegria sua função; infeliz coincidência do destino, o menino triste e melancólico alegra as pessoas, pessoas que quase sempre o ignoram e são alheias ao seu sofrimento e a sua súplica por dinheiro e comida.
Os carros passam, as pessoas passam, a areia da ampulheta vai chegando ao fim e a criança sempre na mesma rua, com os mesmos truques e a mesma perspectiva. Para sua felicidade a névoa negra da noite já começa a tomar conta do céu, terminando assim com mais um mofino dia de trabalho. Ele recolhe então seus pertences, lava o rosto e caminha apressadamente para casa, sua pressa não é para rever sua mãe ou aproveitar as benesses de seu lar, sua pressa é para chegar logo em casa e deitar em sua cama, pois somente no sonho sua alma deixa de ser morta.

terça-feira, novembro 28, 2006

O CONTO FRUSTRADO

Adão

Pela quinta vez ele tenta escrever seu conto, e pela quinta vez arranca o papel da máquina.”Não consigo fazer nada durante o dia, com todo mundo em casa”.
E ele tem razão.Sua mulher de dez em dez minutos aparece com uma xícara de café.”Não que eu não goste de café, mas assim não dá”.
E novamente, coloca o papel na máquina e começa a escrever.
...Estou meio zonzo. O corpo não responde direito.Sinto como que envolto em uma neblina espessa.Minha cabeça dói.As minhas mãos estão cheias de vermes.Ai, que frio!Parece que mil olhos estão a me vigiar.Tenho que me esconder, mas não sei onde. E minha cabeça dói tanto.De repente aparece alguém que eu não conheço.De longe lembra uma mulher, mas com cabeça de macaco.E ela traz nas mãos alguma coisa, e quer me ferir.Grita coisas em uma língua que eu não entendo.Tenho medo.E gesticula e abre uma boca descomunal, falando e cuspindo.E minha cabeça dói.Ela chega mais perto para me bater. Eu me defendo com algo que peguei, com minhas mãos cheias de vermes.Acho que consegui, por que ela parou e se deitou no chão.Tento também me deitar, mas sinto que pregos furam minha carne e, então me sento.Meu estomago se incha e vomito um coelho.Fico olhando para o teto que está mole e os quadros escorrem pela parede.A mesa e as cadeiras fogem de mim.Sento-me num canto, escondido, onde estou seguro, vendo as cores se fundirem.Sentindo a minha cabeça doer e os vermes comerem a minha carne.
Depois de tanta insistência dos vizinhos, a polícia chega.Arromba a porta.Mas não se pode fazer mais nada.Em um canto da cozinha, sentado no chão, completamente nu e coberto de sangue, um rapaz com um olhar estático, mirava o teto.No chão, ao seu lado uma mulher morta, com varias perfurações pelo corpo.”Ele matou a própria mãe!”Ouviu-se no meio da multidão que se formou...Toc, toc, toc.O que você quer, mulher? Vim trazer um cafezinho.Os nós dos seus dedos não doem, de tanto bater na porta?Não!
Então, irritado com a resposta e com o texto ruim, ele se levanta e sai.Sua mulher não entende, quando ele volta com um balde e sabão.
-O quê você vai fazer com isso?
-Vou lavar o carro.

Este conto conta a estória de um escritor que não conseguia mais ecrever. Espero que gostem. (Adão)

sábado, novembro 18, 2006

Tarde de atrasos


Juliana e Elionora


Neste sábado todos se desencontraram. Nosso encontro de cine e literatura fica para o sábado que vem. Boa semana a todos os oficineiros!

A-COR-DEMO-S


Frederico Helou Doca de Andrade

O Amarelo, cáqui e fedorento, embolorado à guisa de fermento, recebeu em sua palheta de cores os ilustrados convidados vivos e contrastantes: o Sr. Azul, parcimonioso, ladrilhado e laureado com cicatrizes doces, pertinentes a seu caráter; o coronel Verde, tão mal acostumado à sua verdura rota, contraposta à envergadura de vinte anos de adorno às mais refinadas salas de conchavos contra a subversão dos vermelhos, postava-se bem ao lado de sua apimentada e cáustica farpa, a Dona Vermelha, uma folgazã, velhaca e velhota, já acostumada a espinafradas daquele.
Pois bem. O anfitrião, tão irrequieto com a balbúrdia colorida, interrompeu, em tom solene e solar aquela querela, com a proposta do seguinte tom do encontro:
___ Meus frios convidados e cálida conviva, chameio-os aqui não para resolver qual de nós tem as melhores qualidades ou os que causam as melhorem sensações aos humanos, mas sim para arquitetarmos uma estratégia de inclusão de nossos renegados irmãos, o ilustríssimo Senhor Preto, pomposo, elegante, mas marginal à Delegação das Cores, e o alvacento, lívido e cândido Dr. Branco, sempre considerado a fusão da Irmandade Colorida, mas sem nomeação como um ser distinto, de “cor”.
Abriu-se, então, um sufrágio secreto em torno daquele pleito, mas não tão secreto assim, já que os três membros da delegação, mais o anfitrião, estavam dispostos um em frente ao outro, tendo que fazer uso da linguagem concretista, no mais puro cerne conotativo da palavra.
Houve uma troca fulminante de caracteres cravados entre a D. Vermelha e o Cel. Verde, tendo absorvido, este, o voto insuportável a favor somente da admissão do Senhor Preto:
___ D. Vermelha, como ousa subjugar-nos a tamanha mancha em nossas reputações? Com que olhos verão aqueles que se acharem em presença de cidadão tão nigérrimo?
___ Ha! Ha! Ha! Ha! Ha! – uma gargalhada sangrenta e desafiadora ecoou de um dos alto-relevos de Dona Vermelha. Com os mesmos olhos que viram toda essa sua verdura e aspereza impregnarem a coloração de um mundo antes harmonioso, não-separado por barras de cor, espremidas, anunciando mais um programa de TV censurado, vetado numa salada de amargura.
Indistintamente, o Sr. Azul, em um rompante marítimo, expressou-se em um tom de bestial e celeste rispidez:
___ Queiram os senhores ter brio nas degradantes gradações? Sabem qual é a minha opinião sobre essa obscura frescura? É a de que incluam ambos na Delegação. E direi porque: o Senhor Preto no dorso da mão de tinta do Palácio da Elegância e o Doutor Branco na palma pungente, em cargo de Ministério da Sapiência e Mudança.
O desfolhado Amarelo, diante de ativa resolução por parte do Sr. Azul, deu seu voto esmagador a favor dos candidatos contrastantes, excluindo, em um sibilante jato de fel, algo que o verdureiro Coronel Verde não suportou:
___ Pois está decidido, meus coloridos amigos. Daqui por diante, o Senhor Preto e o Doutor Branco serão nossos representantes na questão mais relevante já discutida em nossos encontros: a inserção de não-cores em um alto-falante que esguichará os caracteres jornalísticos para uma massa carente de imparcialidade, sempre marcada pela maquiagem multicolorida, revestindo seus rostos, tendo-lhes tornado um circo feirante em uma massa que sempre fermentou, mas calou-se, contida em um descanso forçado.

14 de Outubro de 2006

sexta-feira, novembro 17, 2006

A D Ã O : o dono da bola


Elionora

O trem que o levava de volta a casa parecia mais lento aquele dia. Quase uma hora e meia de viagem e a torcida para que não houvesse atraso no caminho. Cada parada era uma tortura.
Quando chegou em casa correndo, jogou-se no sofá da sala e ligou a TV, torcendo para que os dois times ainda não tivessem entrado em campo. Apreciava assistir ao jogo do começo.
Era um homem de seu tempo. Gostava de sua cidade, dos amigos que tinha, da vida de casado; embora às vezes a rotina fosse um pouco demais.

Sua mente começava a dar sinais de cansaço. Vez por outra se pegava gritando com a mulher, os filhos.

Foi seu melhor amigo quem lhe disse que ele precisava relaxar. Envolver-se o mínimo possível. Deixar a vida rolar. Voltar-se mais para a própria família, ler menos jornal, que só traz coisas negativas. Tirar umas férias enfim. Que seria bom para acalmar os nervos, que ultimamente andava à flor-da-pele.

Perguntou-lhe se conhecia Bora-Bora.
- É uma ilha na Ásia? Este nome não me é estranho...

O amigo tinha um folder no bolso da calça. Mostrou. Propaganda ilustrada com fotos coloridas de encher os olhos e tirar o fôlego. Constatou que Bora bora é uma ilha que faz parte da Polinésia Francesa. Um amontoado composto de várias ilhas no Pacífico, “literalmente longe de tudo e no meio do nada”. O folheto continha termos como: Paraíso na terra; Obra-prima da mãe natureza e Lugar dos deuses do Olimpo. Lugares-comuns que turbinavam o desejo e a imaginação de qualquer um.

Resolveu se informar sobre o preço da viagem para duas pessoas. Só para saber. Talvez fosse caro demais, porém, não custava sonhar. Um passeio desses na baixa temporada seria um jeito de escapar da rotina, do pagamento das contas e da arrumação da cozinha nos sábados --este era o seu dia de participar em “aspectos da valorização do ser feminino, e da harmonia do lar”.

O grande problema era a Copa do Mundo. Particularmente, ele preferia o futebol a qualquer viagem. Até nascera com nome de atleta e pinta de zagueiro... E seria difícil
convencer a mulher a fazer a segunda lua de mel em plena Copa, na Alemanha.

Bora-bora... produto de erupções vulcânicas que resultaram em ilhas montanhosas. Vegetação tropical, plantações de abacaxis e coco, praias de areia muito branca e um mar que apresenta uma infinidade de tons de azul, dependendo da profundidade da água e dos corais no fundo, dizia o folheto que mostrou à esposa. Ela adorou e começou a fazer planos. Queria mais detalhes do lugar para saber quantas horas de viagem seriam. Se viajariam via aérea ou de navio. Que tipo de roupa deveria levar.

Na tentativa de desencorajá-la ele falou do preço, que não parecia assim tão pequeno quando convertido em Real. Seu íntimo argumentava que o início da baixa temporada ia coincidir com Brasil X Croácia: o primeiro jogo do Brasil na Copa. Estava em grande desassossego. Pesquisa daqui, pesquisa dali... No fundo, queria era achar um jeito de fugir dessa oportunidade de conhecer o paraíso.
De tanto postergar, acabou conseguindo. O prazo se esgotou e ele deixou escapar a chance. A paixão pela bola dominava tudo o mais. Sua mulher, sentindo-se frustrada, desde a semana anterior vinha insistindo em que agora, ele fizesse uma visita à sogra a fim de ajudá-la ajustar as cortinas do quarto e mudar alguns móveis de lugar.
As necessidades da sogra eram legítimas, porém, o jogo Argentina e Alemanha era decisivo e podia mudar o futuro do Brasil. A esposa, impaciente e insensível, deu-lhe um ultimato direto, sem dribles ou firula: -O futebol ou eu.

No sábado em que jogariam Brasil X França, indiferente, ela proclamou:
- Eu e as crianças vamos ao cinema e depois vamos passar na casa da mamãe. Quando voltar, quero a louça lavada.
Ele concordou, claro. Afinal, trato é trato e segundo o combinado, este era o seu dia.

Quando passava diante da televisão, porém, ouviu uma voz jovem, de homem a lhe dizer:
- Esta é a sua grande chance. Ligue a TV e veja o jogo do Brasil.

Concordou sem esforço. Assistiu a entrada das equipes no gramado, a
confraternização entre elas, o cântico do hino nacional. Vendo os craques perfilados, sentiu que havia algo errado na equipe brasileira, porém, naquele momento, não sabia precisar o que era.

O desenrolar da partida trouxe-lhe aspectos dolorosos, como não via há muito tempo, nem mesmo no ‘Brasileirão’. Era Cafu perdendo uma corrida na lateral, era Kaká dando passes e mais passes errados no meio campo, era Ronaldo –o fenômeno- levando lençol de Zidane, era este mesmo Zidane jogando desmarcado. Um jogo de engasgar. De raiva. Onde a revanche? - uma palavra de origem francesa, afinal.

Quando a partida acabou, ele estava igual a tantos outros brasileiros: de boca aberta e ruga incrédula bailando na testa. Sem entender; querendo que alguém lhe explicasse. França um; Brasil zero. ZERO. Os cumprimentos e a troca de camisas entre os jogadores. Sua cabeça, vazia como ficaram as praças em BH, Curitiba e São Paulo assim que o jogo acabou. Estava prestes a sair, dar uma volta para ver o movimento e saber onde poderia ter tanto torcedor francês, já que ouvia fogos em profusão, como se alguém estivesse comemorando a desclassificação do Brasil, quando teve um estalo e, levando a mão à testa, lembrou-se da louça do almoço que o aguardava. Correndo à cozinha, viu um bilhete da esposa pendurado no cabo da panela de pressão. Em que momento ela teria estado na casa?

Ainda com a cabeça meio zonza e distante, leu: - Você venceu. Eu e as crianças estamos indo pra casa da mamãe.
(Neste conto foi proposto que fizéssemos um exercício de criação sobre um colega escolhido por sorteio. Felizmente tirei o Adão, que é super gente fina e não levou a mal as brincadeiras que tive de inventar....)

Lótus: flor perfeita do oriente


Elionora

Bem podia ser uma história de amor. Talvez fosse apenas mais uma, dessas com nomes femininos que se encontram às dúzias em banca de jornal (Juliana, Sabrina, Camile). Enredo fácil, expectativa na dose certa, final presumível.

Ela se chamava Maria Lúcia e conhecia AC. da fila do bandejão que havia no prédio onde ambos trabalhavam. Ele era auxiliar administrativo Jr. enquanto que ela também era ajudante, só que na cozinha. Não se podia dizer que fossem amigos. Eram conhecidos apenas. Colegas. Uma distância de nove andares e diversas improbabilidades separavam o casal.

Em princípio, simples coleguismo. – Olá, tudo bem?

- Tudo, e você?

_ O que vai querer hoje? Ela oferecia a salada tropical ou o macarrão ao sugo, junto com um sorriso. Ele se sentava na sua mesa preferida, num canto da sala de onde era possível observar todo o movimento. Sempre fora atencioso com ela, que o servia.

Entre dezenas de funcionários que freqüentavam o restaurante do shopping, ela se sentiu atraída logo de cara pelo moço alto, gestos comedidos, cabelo liso com uma breve mecha branca que teimava em cair-lhe sobre os longos cílios de pecado. Não que AC . fosse alguém que inspirasse desejos proibidos. Ao contrário, o que a atraía nele era justamente o sorriso tímido, o ar de correta mansidão que dele emanava. Ao menos para ela. Entre as inúmeras saladas, o nhoque original, as sobremesas super light, ela não controlava o próprio pensamento que corria solto, subindo os andares que os separavam.
Ansiar e sonhar, tecer novos planos para sentir-se viva, era sua especialidade.

Por intermédio de uma amiga que freqüentava o mesmo consultório dentário que ele, descobrira que AC. era solteiro, morava com a mãe, apreciava boa música brasileira e tinha gosto pessoal simples, mas refinado. Sem qualquer surpresa que fizesse estremecer o seu coração com vãs expectativas, ela suspirava ao constatar que pelo menos ele não era casado e suas idades combinavam.

De vez em quando, nos poucos minutos de folga quando parava para almoçar, ela se sentava na beira do lago artificial do shopping, olhando fascinada os raios de sol a dançar em mil fragmentos difusos. Na água límpida, a flor-de-lótus boiava inocente e branca sobre a superfície em movimento. A luz clara se derramando cúmplice dos peixes. Dourados, gordos, enormes, deslizando em suavidade infinita: o peixe, a água, a paz.
Nestes instantes sua mente corria livre e, sem sentir, ela se via presa em doces pensamentos. Aquilo que fora em princípio admiração, transformara-se em atenção, carinho, mais que carinho. Foi junto ao imenso tanque cheio de vida, que, de repente, Lúcia se descobrira apaixonada por AC. Grande parte do dia não fazia outra coisa senão pensar em sua doce presença, nas linhas de seu rosto, no tom da sua voz. Lembrou-se de ter lido uma vez que, para alguns povos do oriente, o lótus simboliza perfeição e o mais puro amor.
Sentada na beira do lago, enquanto traçava a sobremesa, viajava com os peixes, alcançando mares sem nuvens. Em perfeita calmaria.



Naquela tarde, ela se atrasou um pouco ao deixar o trabalho. Quando conseguiu se livrar da limpeza das panelas e do salão, lembrou-se do cartaz que anunciava um espetáculo de circo, mágica e outras atrações aquela noite, no mesmo prédio em que trabalhava. Só era preciso subir uma rampa logo acima do quinto andar para ver o show. Maria Lúcia sempre amara apresentações de circo, e resolveu ficar até um pouco mais tarde a fim de assistir. Além disso, tinha esperança de que AC. também fosse ao show, então ela poderia vê-lo. Talvez pudessem se falar, se conhecer melhor.

Quando chegou o auditório já estava lotado. Estava tão cansada que desabou, sentando no primeiro lugar vazio que encontrou. Por ter se atrasado demais, ela apenas conseguiu ver parte de um show de magia não muito original. Da cartola mágica, saltavam lebres, pombos e fitas coloridas. Depois o mágico fez um número acrobático com bolinhas brancas que dançavam no ar e era tão chato, mas tanto, que sua mente vagou para bem longe dali, enquanto ela se via presa nos braços fortes de AC.

Sentada na semi escuridão, ela notava as pálpebras pesadas e a cabeça doía-lhe um pouco –estaria ficando resfriada? De vez em quando seu pescoço pendia torto. Por mais que se esforçasse, não conseguia manter os olhos abertos. Dormiu, e sonhando viu o mágico Hermann tirar carpas vermelhas de sob um meio gasto pano preto. Dóceis e alegres animais. No sonho, os peixes tinham os mesmos olhos amendoados de seu amado. Então o mágico fazia AC. se transformar numa lebre enorme, com um rabo fino como de um camundongo balançando no ar. A lebre nadava agilmente na superfície do lago bem cuidado e, de repente, dando um salto de tango, engolia a flor-de-lótus.

Acordou com um sobressalto e um barulho ensurdecedor ribombando em sua cabeça.

Eram os aplausos finais da platéia que, de pé, já começava a ir embora. Ela aplaudiu também, embora se desse conta de que havia perdido todo o final da apresentação, além de ter tido um péssimo sonho.

Agora, com a luzes acesas, seus olhos ansiosos buscavam vislumbrar a figura do amado entre a platéia que saía. Junto à pequena multidão que caminhava, ela seguia adiante, porém, de vez em quando olhava para trás. De repente tropeçou em alguém que ia logo à sua frente. O belo jovem murmurou um rápido pedido de desculpas. Ela também, fascinada. Ele estava acompanhado por alguém que abraçou e parecia nem tê-la reconhecido. Então Maria Lúcia sentiu um baque profundo no estômago, que se contraiu pesado. Era ele. O seu Antonio Carlos querido.


Obs: Gosto particularmente deste conto porque ele é simples, direto, sem frescura. Acho também que me identifico bastante com as personagens.
Neste exercício de criação, algumas palavras como: subir/ ver/ coração e flor-de-lotus, teriam que aparecer necessariamente. (Elionora)

sábado, novembro 11, 2006

O menino e o velho (outra versao) para o conto de Lygia Fagundes Telles


"Tão horrível, aquele menininho, lembra?"
Há tempos aquele senhor não retorna ao restaurante, dizem que sua clausula iniciou-se após a morte daquele menino, menino forte e saudavel, mas que não resistiu aos riscos da rua; foi encontrado morto ao pé de uma marquize numa noite gelada e crua.
Em seu velório não havia café, nem biscoitos, flores apenas às do caixão, as únicas pessoas presentes eram os fúncionarios da morte e um velho de cabelos brancos e bigodes ralos pela espuma. O silêncio triste da noite foi quebrado pelo despertar do relògio, que anunciou a hora do enterro, hora em que dois homens levantaram o caixão e levaram-no ao mais belo tumúlo do cemitério, tornou-se ali o último lar daquele menino, lar sempre vistoso e florido, organizado e limpo pelo emprenho de um bondoso senhor de barbas brancas; a lápide de letras grandes e douradas tinha gravado os nomes de Caio Antônio Prado e "Indigente" Antônio Prado.

(Este exercício foi realizado hoje, 11-11-06. Fizemos uma votação para escolher o melhor final para o conto de Lygia. "Candidato eleito": Tharcisio.)

quarta-feira, novembro 08, 2006

Lídia


Juliana Padilha
Lídia levantou-se como sempre fazia para ir à escola, colocou seu jeans, sua blusa branca, sua jaqueta. Não estava frio, mas naquele mes ventava muito. Logo viria a primavera e as feiçoes das pessoas na rua mudariam. Quando descia a escada de seu edificio, se deteve para olhar melhor os raios de sol, e uma certeza de que enfim o inverno se despedia tomou conta de seus pensamentos. Continuou a descer, agora com passos mais rápidos, olhando o relógio, contando os minutos. Se perdesse o onibus ganharia falta, pois o canalha do professor fazia a chamada no início da aula só para atormentar. Quase duas horas escutando aquele sujeito falar de sua vida ou repetir algo que já sabia era perder tempo demais. Mas como todos, Lídia passava pelas insanidades intelectuais das universidades publicas. Deixar de falar mal no bar, ah isto não. Bateu a cabeça no vidro e despertou do seu cochilo, ainda estava na grande avenida. Olhou para quem sentava ao seu lado, uma moça bem maquiada lia um balancete. Observou melhor o movimen to do onibus que cheio recolhia mais estudantes. Cabe mais um, alguem gritou, um bando se apertava na frente da porta traseira, os nervos se encrispavam. Lídia por sorte tinha conseguido um lugar. Começou a pensar na praia de Lagoinha, a água verdinha da praia deserta e mais limpa de Florianópolis invadindo o onibus, cobrindo todos aqueles rostos, e ela de pé, sentindo a agua gelar seu corpo, chegar até seu peito e ao seu redor desaparecer tudo. Estava só, no meio de aguas tranquilas, sob um ceu azul. Com licença? Alguem tocou no seu braço e o verde já era o cinza de um casaco de frio a meio palmo de seu rosto. O som do tráfego, o burburinho das vozes, a realidade rasgava a imaginação. Posso sentar? Insistiu. Ela buscou a mulher maquiada, mas esta já estava dando sinal para descer. Virou-se. Sim, claro. Ele sentou, acomodando no colo seus livros de Biologia. Então ela sofreu o abalo da sensação de que conhecia aquele rosto, mas de onde? Puxa, não pode ser, é o cara com quem sonhei esta noite, estávamos conversando num lugar esquisito, tinha bastante claridade no seu cabelo. Nossa, que coisa estranha, como posso sonhar com alguem real e que vem parar do meu lado. Lídia fazia força para lembrar-se do sonho, mas tudo que alcançava ver eram os cabelos louros banhados de sol e partes imprecisas daquele rosto. A curva feita em velocidade fez Lídia interromper sua luta com a memória e segurar firme no banco da frente, mesmo assim ela empurrou contra a janela seu estranho conhecido. Agora faltavam só alguns minutos para os dois se separarem, pois o campus era a próxima parada. Lídia estava aflita com aquela situação. Sonhar com quem você conhece é comum, com alguém que não se tem intimidade e que se encontra no dia seguinte é estranho, chama o pressentimento, mas encontrar o desconhecido do sonho na realidade é bastante raro e… um tanto misterioso. O onibus parou, Lídia ajeitou suas coisas, o rapaz já estava levantado. Começaram a andar pelo corredor, ele atrás dela, ela tentando meter seu corpo entre os outros da frente. Sentia vergonha do olhar que podia estarlhe perscrutando as formas. Olhou as horas no celular para distrair-se do medo que lhe oprimia. Desceu e enxeu os pulmoes de ar, tomou o caminho da faculdade, seguia na frente. Teve vontade de olhar para trás. Aguentou até não poder mais. Virou-se com força e chocou seu corpo contra o dele. Cara contra cara, que se afastaram rapidamente, mas que seguiram imóveis, atraídas por algum mistério que seus olhos guardavam da alma. Desculpa. Não, desculpa você. Contornada a situação, seguiram seus caminhos. Lídia esperou ainda um pouco, fez que arrumava suas coisas. Não deixou de segui-lo com os olhos, reparando na sua calça jeans desbotada, no seu casaco cinza, nos cabelos louros ondulados… No findar de seu suspiro, viu aquele corpo desaparecer que nem fumaça. Arregalou os olhos, não podia acreditar. O sonho voltou a ser sonhado.

(Este conto surgiu de uma brincadeira de criação de personagem. Numa tarde de sábado veio ao mundo Lídia, uma garota cega que descobre um olho no umbigo. O conto começava assim, então cada um foi aumentando um pouco. Para concluir, fizemos um vídeo com os depoimentos do grupo sobre a personalidade de Lídia, filmando as diferentes íris de cada olho. Depois em casa fiz este conto sobre outra Lídia. Talvez eu não tenha conseguido abrir muito meus olhos para aquela.)

Entre los muertos


Juliana dos Santos Padilha

Pedro tenía manos fuertes, clavaba la pala en el pozo y sacaba la tierra en un movimiento casi involuntario. No pensaba en nada mientras trabajaba y lo mismo pasaba con el resto de su vida. Quizás fuera por eso que su mujer lo había abandonado. No tenía hijos, contaba con la compañía de sus amigos y de una chica de un prostíbulo cerca de su casa. En las noches en que realmente veía la oscuridad y el vacío de su pequeña casa en una villa, se asustaba y corría a buscar el calor de la muchacha. Pedro vivía solo en Buenos Aires, sus padres y un hermano se habían quedado en el campo.
En este día, el sol dejó un rastro anaranjado en el cielo después de haberse borrado. El verano empezaba en la ciudad porteña, hacía mucho calor y Pedro sudaba. Su cuerpo ya demostraba señales de cansancio, pero hoy tenía que trabajar una hora más. Él y sus compañeros habían sido solicitados para una tarea de carácter urgente: exhumar mitad de los pozos del ala de los NN en el cementerio de Chacarita. Luego de saberlo no reclamó, ni caviló sobre los motivos de tal necesidad repentina de espacio. Tampoco pensó que iba a ganar una extra. Parecía haberse olvidado de su existencia en algún rincón de su pasado.
Desde sus veintitrés años convivía con el dolor ajeno. En el inicio le fue difícil, sentía náusea cuando recorría las galerías ante el furtivo olor ácido de la muerte o cuando tenía que exhumar desde simples pozos hasta lujosas bóvedas- ver y juntar las pequeñas partes que quedan después de todo lo que fuimos. Pero el tiempo vuelve incluso la dificultad una costumbre y así los inhumadores como Pedro van logrando la indiferencia en sus actividades.
Pedro trabajaba y no se dio cuenta cuando la noche se tragó los últimos rayos de claridad, sino sólo cuando las luces se encendieron. En este momento él trataba de sacar los huesos de un pozo al lado de un majestuoso roble. Se había agachado para juntar la calavera, cuando sintió un liviano golpe en sus espaldas. Volvió su cuerpo hacia atrás y vio una niña hermosa con un vestido blanco. Pedro le preguntó, revelando una mueca de sorpresa:
–¿Qué quieres mi amor?
La niña, que aparentaba tener unos seis años de edad, le contestó primero con una sonrisa, en seguida se puso seria y callada. Pedro, sin entender la situación que se le planteaba, le rehizo la pregunta en el mismo tono. La niña volvió a sonreír y le dijo:
–Hoy murió mi mamá, ellos acaban de enterrarla. La metieron en un hueco como ese, pero del otro lado. Ella nunca me habló de mi papá, no sé quien es. –La pequeña se calló y empezó a mirarlo con extrañeza. Entonces, le preguntó: –¿Usted está vivo?
Pedro dijo que sí, y pensaba en lo que le iba a preguntar cuando comenzó a caer un chaparrón. La niña salió corriendo y le dijo adiós ya en la mitad del camino. Pedro con los ojos encharcados aún logró distinguir su figura blanca alejarse por el camino de baldosas.
Desde ese día, algo afectó profundamente a Pedro. Estaba constantemente intranquilo y no podía dejar de pensar en las palabras de la chica. ¿Sería verdad su historia?; ¿Y por qué dudó si estaba vivo? ¿Está tan viejo y acabado para parecerse a un cadáver? No quiso hablar con nadie sobre el ocurrido y en los días siguientes evitó salir de su casa después del trabajo. Los compañeros del bar lo extrañaron en el juego de barajas y la chica del prostíbulo no pudo desahogar su desdicha de aquellas noches. Pedro estaba siempre solo con sus pensamientos. Decía para sí mismo que no había visto un fantasma, que la niña era real, aunque había mantenido un diálogo muy corto con ella.
Pedro fue de a poco recuperando su consciencia: pensar en ese hecho le hizo empezar a reflexionar sobre otros, más antiguos y dolorosos. Hasta que una noche lloró al recordar el día en que llegó a su casa y la encontró vacía: la mujer que lo había cuidado por veinticinco años y era tan tranquila lo había abandonado. No le dejó siquiera una palabra y él no derramó una lágrima. Siguió su vida, pero sin su corazón. Ahora volvía a cuidarse, a observar sus sentimientos y la vida a su alrededor.
Pasó un mes y Pedro decidió olvidar a la niña del cementerio. Con un sentimiento de renovación, seguía con el trabajo, con su vida. En este día llovía mucho y casi no se podía trabajar en la tierra. Pedro prendió un cigarrillo y decidió caminar a tientas. Ya se aproximaba el final del día y dentro de poco tiempo estaría libre. Se le ocurría que podría ir al cine, hoy los precios eran promocionales. Se entretenía con sus pensamientos cuando una lápida atrapó su mirada: allí estaba grabado el nombre de su mujer y a su lado el de una niña.
Al final de una semana de búsquedas, se enteró de que su mujer estaba embarazada cuando lo había abandonado y que había registrado a la hija sólo con su apellido de soltera. Desde entonces Pedro supo que la niña de blanco de aquella tarde era la eternidad de su duda.

Enfim, aqui estamos!


A nossa oficicina literária começou em 18 de março de 2006. Somos um grupo que se reúne todos os sábados para estudar e escrever contos. Parece chato, mas não é. A gente se diverte bastante, conta piadas, fala de política, da vida, uns dos outros. Mas o melhor de tudo isto são as leituras... Começamos lendo Carlos Drummond de Andrade e já passamos por Lygia Fagundes Telles, Caio Fernando Abreu, Dalton Trevisan, Mário de Andrade... e pelos clássicos, Clarice Lispector, Machado de Assis, Guy de Maupassant, Tchekhov, ... Eles nos ensinaram muito sobre o gênero conto, e o melhor foi perceber isso escrevendo. Sempre fundamentamos nossas análises de contos com teoria literária, recorremos a Massaud Moisés, Beth Brait, Nádia Gotlib, aos mestres Júlio Cortázar, Edgar Allan Poe, Machado de Assis, entre outros.
Tentarei descrever aqui um pouco de nossos encontros, de nossas últimas experiências de escrita que unem a palavra ao cinema e à fotografia. Algumas dinâmicas de escrita literária foram inspiradas em contos lidos e analisados, outras nasceram da impressão de filmes e fotografias, outras de experiências minhas em uma oficina literária de La Plata (Argentina) e outras nasceram da imaginação + acaso + conhecimento de mundo + amizade + "momentos de loucura" desta que escreve, do seu amigo e poeta Frederico Helou Doca e do grupo. Espero que nossos amigos e visitantes sem compromisso curtam estas linhas e... nossos contos. Um grande abraço a todos!

Em que pé estamos

Estamos com os dois pés enterrados num campo semeado de palavras. Teve gente que tirou seus pés para descansar, outros para desbravar novos campos... mas ainda estamos juntos, descobrindo nas palavras outros universos. Decidimos ficar mais próximos dos textos e menos da teoria, eles dão mais ânimo de escrita. Quando passar a nuvem preta que se instalou sobre minha cabeça, prometo que volto a falar de Gérard Genette e outros. Estamos todos os sábados no mesmo galpão, que aliás será em breve inaugurado como espaço cultural. Saudações meu querido amigo Andrey! Ali fazemos divertidas experiências de escrita, algumas surrealistas, outras inovadoras e repentinas, outras lúdicas e infantis, algumas criadas outras herdadas. Enfim, a paixão pela Literatura é a grande responsável por essas loucuras. Agora é com você! Escolha um de nossos contos e abra os olhos para a sua IMAGINAÇÃO.