sábado, dezembro 02, 2006

Sociedade de Clones


Tharcisio
Passam das seis horas da manhã e os raios de sol já adentram pelo grande galpão de portas largas e teto de zinco, o cheiro do orvalho se dispersa com rapidez devido ao aquecimento das telhas e paredes, ouve-se vagamente ao fundo o cantarolar dos galos que despertam e assanham suas pares fêmeas.
Com a luz do dia é possível ver a imensidão daquele galpão, são quase quinhentos metros quadrados separados em pequenos retângulos com um cocho e uma fonte de água, lá dentro amontoam-se milhares e milhares de frangos, o calor é superado apenas com o auxilio de uma grande ventilador que circula ar fresco evitando que morram todos sufocados.
Lá dentro os frangos conversam sobre a noite passada e as expectativas para o novo dia que se inicia, todos se encontram sorridentes e felizes; a calmaria da manhã é quebrada pela chegada de mais um carregamento de frangos que chega do interior, aumentando ainda mais a lotação. Após a chegada os novos hospedes acomodam-se e saem das baias para se familiarizar com a nova casa, todos são bem recepcionados pelos hospedes antigos e passam a conversar.
- Nossa, mas que lugar lindo, tão limpo e organizado, eu nunca havia ficado num espaço assim! – disse um dos novos hospedes.
- Realmente, este lugar é maravilhoso – respondeu o sindico da baia 8 – Esta granja recebeu o prêmio de melhor granja do país, os frangos daqui são exportados para os Estados Unidos, Europa e até pra China.
- Quer dizer que vou ser comido por um inglês ou chinês? Que orgulho, nunca pensei que eu, um frango nascido no interior, de família pobre e órfão de pai teria uma honra dessa.
O dia seguiu-se com os veteranos apresentando a granja aos novos e explicando todo o seu funcionamento, desde a chegava do frango até a entrega das peças embaladas ao cliente, passando pelas acomodações e a forma de abate.
- Vejam, - disse o sindico – este espaço é para aqueles frangos que chegam abaixo do peso, eles ficam aqui por um tempo, recebendo uma ração balanceada para ganharem corpo e ficarem iguais aos demais da granja, pois aqui precisamos ter todos as mesmas características; do outro lado encontram-se uma outra sala onde são colocados os frangos que estão acima do peso, ali eles recebem uma ração “light”, para que perdão peso e ganhem músculos.
Os novos hospedes ficavam impressionados com a organização do espaço e com o cuidado com que são tratados, ao caminharem observavam cartazes colados na parede com retratos de frangos fortes, brancos e sorridentes dizendo: “Agora você é um dos nossos! Temos orgulho em tê-lo na família FRANGOSUL”.
À noite foram todos levados a uma grande sala escura, onde passava um filme sobre a história da empresa, o filme apresentava os frangos como importantes e responsáveis pelo sucesso da empresa, mostravam famílias alegres ao redor da mesa saboreando os produtos da empresa, crianças dizendo que aquele frango era o mais gostoso do país, ao final do filme muitos dos frangos tinham os olhos lacrimejados pela emoção.
Apenas um frango, de nome Galináceo Silva Pinto não demonstrava a alegria particular a todos, devido a sua cara emburrada e olhar melancólico o sindico chegou até ele e quis saber o porque daquela angústia.
- O que aconteceu? Não gostou da granja? – perguntou o sindico.
- Não, não é isso! È o melhor lugar que já fiquei na minha vida, porém queria estar fora daqui, queria correr livre pelo campo e procurar comida sozinho, me sinto como se estivesse em uma gaiola, uma gaiola de ouro, mas ainda assim uma gaiola.
- Mas o que é isso – retrucou o sindico – Quer retroceder, nossos antepassados lutaram muito para que um dia tivéssemos um lugar assim, e você quer jogar “tudo para cima”.
Olhando pela janela do cocho Galináceo observou que havia um frango pulando livre no quintal da granja, esta cena despertou sua curiosidade.
- Quem é aquele frango que esta correndo livre pelo campo? Ele é da granja?
- Não, ele não é um dos nossos, aquele é um frango caipira, ele vive por aí, andando de um lado para o outro, comendo minhocas e outros insetos fétidos que encontra pelo caminho, perceba como ele é, tem penas vermelhas e pernas finas, não pagariam um tostão por sua carne, pois tem um sabor forte e horrível bem diferente de nós, frangos de raça superior, todos brancos, fortes e saborosos.
- Eu quero ser igual ele – disse Galináceo.
- Esta louco? Indagou o sindico – São todos vagabundos, andam por ai sem razão, sem porque, vivem uma vida sem objetivos e segurança; existe até uma lei na câmara das aves que se for aprovada proibirá estes seres de caminharem livres pelas ruas, pois são um perigo à nossa sociedade e um exemplo negativo para os nossos filhos.
A discussão seguiu-se por quase duas horas, outros frangos que passavam pelo local pararam para ouvir e muitos tomaram partido, alguns defendendo o síndico outros a favor de Galináceo, o debate não pode se estender por mais tempo porque o sino tocou e conforme a regra da granja, após o sino todos tinham que se retirarem para suas baias e dormirem.
No outro dia, logo pela manha, muitos frangos procuraram Galináceo em sua baia para ouvirem mais sobre suas posições e idéias, porém no lugar onde o mesmo dormia encontraram apenas algumas penas quebradas e um cheiro insuportável de iodo.

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Em que pé estamos

Estamos com os dois pés enterrados num campo semeado de palavras. Teve gente que tirou seus pés para descansar, outros para desbravar novos campos... mas ainda estamos juntos, descobrindo nas palavras outros universos. Decidimos ficar mais próximos dos textos e menos da teoria, eles dão mais ânimo de escrita. Quando passar a nuvem preta que se instalou sobre minha cabeça, prometo que volto a falar de Gérard Genette e outros. Estamos todos os sábados no mesmo galpão, que aliás será em breve inaugurado como espaço cultural. Saudações meu querido amigo Andrey! Ali fazemos divertidas experiências de escrita, algumas surrealistas, outras inovadoras e repentinas, outras lúdicas e infantis, algumas criadas outras herdadas. Enfim, a paixão pela Literatura é a grande responsável por essas loucuras. Agora é com você! Escolha um de nossos contos e abra os olhos para a sua IMAGINAÇÃO.