Tharcisio
Passam das seis horas da manhã e os raios de sol já adentram pelo grande galpão de portas largas e teto de zinco, o cheiro do orvalho se dispersa com rapidez devido ao aquecimento das telhas e paredes, ouve-se vagamente ao fundo o cantarolar dos galos que despertam e assanham suas pares fêmeas.
Com a luz do dia é possível ver a imensidão daquele galpão, são quase quinhentos metros quadrados separados em pequenos retângulos com um cocho e uma fonte de água, lá dentro amontoam-se milhares e milhares de frangos, o calor é superado apenas com o auxilio de uma grande ventilador que circula ar fresco evitando que morram todos sufocados.
Lá dentro os frangos conversam sobre a noite passada e as expectativas para o novo dia que se inicia, todos se encontram sorridentes e felizes; a calmaria da manhã é quebrada pela chegada de mais um carregamento de frangos que chega do interior, aumentando ainda mais a lotação. Após a chegada os novos hospedes acomodam-se e saem das baias para se familiarizar com a nova casa, todos são bem recepcionados pelos hospedes antigos e passam a conversar.
- Nossa, mas que lugar lindo, tão limpo e organizado, eu nunca havia ficado num espaço assim! – disse um dos novos hospedes.
- Realmente, este lugar é maravilhoso – respondeu o sindico da baia 8 – Esta granja recebeu o prêmio de melhor granja do país, os frangos daqui são exportados para os Estados Unidos, Europa e até pra China.
- Quer dizer que vou ser comido por um inglês ou chinês? Que orgulho, nunca pensei que eu, um frango nascido no interior, de família pobre e órfão de pai teria uma honra dessa.
O dia seguiu-se com os veteranos apresentando a granja aos novos e explicando todo o seu funcionamento, desde a chegava do frango até a entrega das peças embaladas ao cliente, passando pelas acomodações e a forma de abate.
- Vejam, - disse o sindico – este espaço é para aqueles frangos que chegam abaixo do peso, eles ficam aqui por um tempo, recebendo uma ração balanceada para ganharem corpo e ficarem iguais aos demais da granja, pois aqui precisamos ter todos as mesmas características; do outro lado encontram-se uma outra sala onde são colocados os frangos que estão acima do peso, ali eles recebem uma ração “light”, para que perdão peso e ganhem músculos.
Os novos hospedes ficavam impressionados com a organização do espaço e com o cuidado com que são tratados, ao caminharem observavam cartazes colados na parede com retratos de frangos fortes, brancos e sorridentes dizendo: “Agora você é um dos nossos! Temos orgulho em tê-lo na família FRANGOSUL”.
À noite foram todos levados a uma grande sala escura, onde passava um filme sobre a história da empresa, o filme apresentava os frangos como importantes e responsáveis pelo sucesso da empresa, mostravam famílias alegres ao redor da mesa saboreando os produtos da empresa, crianças dizendo que aquele frango era o mais gostoso do país, ao final do filme muitos dos frangos tinham os olhos lacrimejados pela emoção.
Apenas um frango, de nome Galináceo Silva Pinto não demonstrava a alegria particular a todos, devido a sua cara emburrada e olhar melancólico o sindico chegou até ele e quis saber o porque daquela angústia.
- O que aconteceu? Não gostou da granja? – perguntou o sindico.
- Não, não é isso! È o melhor lugar que já fiquei na minha vida, porém queria estar fora daqui, queria correr livre pelo campo e procurar comida sozinho, me sinto como se estivesse em uma gaiola, uma gaiola de ouro, mas ainda assim uma gaiola.
- Mas o que é isso – retrucou o sindico – Quer retroceder, nossos antepassados lutaram muito para que um dia tivéssemos um lugar assim, e você quer jogar “tudo para cima”.
Olhando pela janela do cocho Galináceo observou que havia um frango pulando livre no quintal da granja, esta cena despertou sua curiosidade.
- Quem é aquele frango que esta correndo livre pelo campo? Ele é da granja?
- Não, ele não é um dos nossos, aquele é um frango caipira, ele vive por aí, andando de um lado para o outro, comendo minhocas e outros insetos fétidos que encontra pelo caminho, perceba como ele é, tem penas vermelhas e pernas finas, não pagariam um tostão por sua carne, pois tem um sabor forte e horrível bem diferente de nós, frangos de raça superior, todos brancos, fortes e saborosos.
- Eu quero ser igual ele – disse Galináceo.
- Esta louco? Indagou o sindico – São todos vagabundos, andam por ai sem razão, sem porque, vivem uma vida sem objetivos e segurança; existe até uma lei na câmara das aves que se for aprovada proibirá estes seres de caminharem livres pelas ruas, pois são um perigo à nossa sociedade e um exemplo negativo para os nossos filhos.
A discussão seguiu-se por quase duas horas, outros frangos que passavam pelo local pararam para ouvir e muitos tomaram partido, alguns defendendo o síndico outros a favor de Galináceo, o debate não pode se estender por mais tempo porque o sino tocou e conforme a regra da granja, após o sino todos tinham que se retirarem para suas baias e dormirem.
No outro dia, logo pela manha, muitos frangos procuraram Galináceo em sua baia para ouvirem mais sobre suas posições e idéias, porém no lugar onde o mesmo dormia encontraram apenas algumas penas quebradas e um cheiro insuportável de iodo.
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