sexta-feira, novembro 17, 2006

A D Ã O : o dono da bola


Elionora

O trem que o levava de volta a casa parecia mais lento aquele dia. Quase uma hora e meia de viagem e a torcida para que não houvesse atraso no caminho. Cada parada era uma tortura.
Quando chegou em casa correndo, jogou-se no sofá da sala e ligou a TV, torcendo para que os dois times ainda não tivessem entrado em campo. Apreciava assistir ao jogo do começo.
Era um homem de seu tempo. Gostava de sua cidade, dos amigos que tinha, da vida de casado; embora às vezes a rotina fosse um pouco demais.

Sua mente começava a dar sinais de cansaço. Vez por outra se pegava gritando com a mulher, os filhos.

Foi seu melhor amigo quem lhe disse que ele precisava relaxar. Envolver-se o mínimo possível. Deixar a vida rolar. Voltar-se mais para a própria família, ler menos jornal, que só traz coisas negativas. Tirar umas férias enfim. Que seria bom para acalmar os nervos, que ultimamente andava à flor-da-pele.

Perguntou-lhe se conhecia Bora-Bora.
- É uma ilha na Ásia? Este nome não me é estranho...

O amigo tinha um folder no bolso da calça. Mostrou. Propaganda ilustrada com fotos coloridas de encher os olhos e tirar o fôlego. Constatou que Bora bora é uma ilha que faz parte da Polinésia Francesa. Um amontoado composto de várias ilhas no Pacífico, “literalmente longe de tudo e no meio do nada”. O folheto continha termos como: Paraíso na terra; Obra-prima da mãe natureza e Lugar dos deuses do Olimpo. Lugares-comuns que turbinavam o desejo e a imaginação de qualquer um.

Resolveu se informar sobre o preço da viagem para duas pessoas. Só para saber. Talvez fosse caro demais, porém, não custava sonhar. Um passeio desses na baixa temporada seria um jeito de escapar da rotina, do pagamento das contas e da arrumação da cozinha nos sábados --este era o seu dia de participar em “aspectos da valorização do ser feminino, e da harmonia do lar”.

O grande problema era a Copa do Mundo. Particularmente, ele preferia o futebol a qualquer viagem. Até nascera com nome de atleta e pinta de zagueiro... E seria difícil
convencer a mulher a fazer a segunda lua de mel em plena Copa, na Alemanha.

Bora-bora... produto de erupções vulcânicas que resultaram em ilhas montanhosas. Vegetação tropical, plantações de abacaxis e coco, praias de areia muito branca e um mar que apresenta uma infinidade de tons de azul, dependendo da profundidade da água e dos corais no fundo, dizia o folheto que mostrou à esposa. Ela adorou e começou a fazer planos. Queria mais detalhes do lugar para saber quantas horas de viagem seriam. Se viajariam via aérea ou de navio. Que tipo de roupa deveria levar.

Na tentativa de desencorajá-la ele falou do preço, que não parecia assim tão pequeno quando convertido em Real. Seu íntimo argumentava que o início da baixa temporada ia coincidir com Brasil X Croácia: o primeiro jogo do Brasil na Copa. Estava em grande desassossego. Pesquisa daqui, pesquisa dali... No fundo, queria era achar um jeito de fugir dessa oportunidade de conhecer o paraíso.
De tanto postergar, acabou conseguindo. O prazo se esgotou e ele deixou escapar a chance. A paixão pela bola dominava tudo o mais. Sua mulher, sentindo-se frustrada, desde a semana anterior vinha insistindo em que agora, ele fizesse uma visita à sogra a fim de ajudá-la ajustar as cortinas do quarto e mudar alguns móveis de lugar.
As necessidades da sogra eram legítimas, porém, o jogo Argentina e Alemanha era decisivo e podia mudar o futuro do Brasil. A esposa, impaciente e insensível, deu-lhe um ultimato direto, sem dribles ou firula: -O futebol ou eu.

No sábado em que jogariam Brasil X França, indiferente, ela proclamou:
- Eu e as crianças vamos ao cinema e depois vamos passar na casa da mamãe. Quando voltar, quero a louça lavada.
Ele concordou, claro. Afinal, trato é trato e segundo o combinado, este era o seu dia.

Quando passava diante da televisão, porém, ouviu uma voz jovem, de homem a lhe dizer:
- Esta é a sua grande chance. Ligue a TV e veja o jogo do Brasil.

Concordou sem esforço. Assistiu a entrada das equipes no gramado, a
confraternização entre elas, o cântico do hino nacional. Vendo os craques perfilados, sentiu que havia algo errado na equipe brasileira, porém, naquele momento, não sabia precisar o que era.

O desenrolar da partida trouxe-lhe aspectos dolorosos, como não via há muito tempo, nem mesmo no ‘Brasileirão’. Era Cafu perdendo uma corrida na lateral, era Kaká dando passes e mais passes errados no meio campo, era Ronaldo –o fenômeno- levando lençol de Zidane, era este mesmo Zidane jogando desmarcado. Um jogo de engasgar. De raiva. Onde a revanche? - uma palavra de origem francesa, afinal.

Quando a partida acabou, ele estava igual a tantos outros brasileiros: de boca aberta e ruga incrédula bailando na testa. Sem entender; querendo que alguém lhe explicasse. França um; Brasil zero. ZERO. Os cumprimentos e a troca de camisas entre os jogadores. Sua cabeça, vazia como ficaram as praças em BH, Curitiba e São Paulo assim que o jogo acabou. Estava prestes a sair, dar uma volta para ver o movimento e saber onde poderia ter tanto torcedor francês, já que ouvia fogos em profusão, como se alguém estivesse comemorando a desclassificação do Brasil, quando teve um estalo e, levando a mão à testa, lembrou-se da louça do almoço que o aguardava. Correndo à cozinha, viu um bilhete da esposa pendurado no cabo da panela de pressão. Em que momento ela teria estado na casa?

Ainda com a cabeça meio zonza e distante, leu: - Você venceu. Eu e as crianças estamos indo pra casa da mamãe.
(Neste conto foi proposto que fizéssemos um exercício de criação sobre um colega escolhido por sorteio. Felizmente tirei o Adão, que é super gente fina e não levou a mal as brincadeiras que tive de inventar....)

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Em que pé estamos

Estamos com os dois pés enterrados num campo semeado de palavras. Teve gente que tirou seus pés para descansar, outros para desbravar novos campos... mas ainda estamos juntos, descobrindo nas palavras outros universos. Decidimos ficar mais próximos dos textos e menos da teoria, eles dão mais ânimo de escrita. Quando passar a nuvem preta que se instalou sobre minha cabeça, prometo que volto a falar de Gérard Genette e outros. Estamos todos os sábados no mesmo galpão, que aliás será em breve inaugurado como espaço cultural. Saudações meu querido amigo Andrey! Ali fazemos divertidas experiências de escrita, algumas surrealistas, outras inovadoras e repentinas, outras lúdicas e infantis, algumas criadas outras herdadas. Enfim, a paixão pela Literatura é a grande responsável por essas loucuras. Agora é com você! Escolha um de nossos contos e abra os olhos para a sua IMAGINAÇÃO.