(Foto Deise Lane/Viva Favela)
Tharcisio
São quase cinco horas da manhã e a claridade da luz do sol já adentra pelo barraco de madeira, o som de passos e conversas rompe o silencio da madrugada, a noite infelizmente chega ao fim, iniciando assim um novo e melancólico dia na favela Eldorado.
Apesar da diversidade de vidas e formas existentes nesse espaço, a cena que se inicia com o romper da aurora é quase sempre o mesmo em todos os barracos; a mãe adolescente, pouco instruída e miserável desperta, abandona sua alcova e dirige-se ao cômodo ao lado onde seu filho ainda dorme e sonha.
Sonha com uma vida melhor, sonha com o dia em que poderá dormir e não se preocupar com as goteiras do teto ou com a enchente do córrego; imagina como seria sua vida em uma casa de alvenaria, poderia ter um quarto apenas para ele, com uma estante repleta de brinquedos e enfeites, teria assim orgulho em convidar seus amigos a visitarem sua casa.
Em seu devaneio ele tem pais compressíveis que o apóia e incentiva, sua mãe uma fonte de carinho e bondade o ajuda nos deveres escolares e tem sempre uma palavra de incentivo e consolo; seu pai é o seu exemplo, homem trabalhador e honesto, sempre o leva para passear no zoológico e andar de bicicleta, o apresenta para seus amigos como sendo seu grande orgulho.
No sonho a criança é livre, ele diverte-se e delicia-se com a liberdade de entrar nas lojas do “shopping center” e levar seus brinquedos prediletos, no sonho ele entra na escola bonita e grande que existe ao lado da favela e brinca até cansar no parquinho ao lado do pátio, seus novos amigos lhe tratam com galhardia e sua professora é uma moça linda, de cabelos longos e olhos claros que fala vagarosamente e deixa transparecer sua doçura e benevolência.
Essa sua quimera é interrompida pela ação de uma mão pesada que o aperta e acorda, ao abrir os olhos percebe que na realidade sua casa é feita de retalhos de madeira, com telhado improvisado de folhas de bananeira e isopor, sua mãe diferentemente do que sonhava não o chama de amor, não o sorri e nem o incentiva, pelo contrário, ela o trata com raiva e amargura, suas palavras são sempre seguidas por insultos e menosprezo; ao seu lado não tem o pai, as únicas lembranças que tem deste são as palavras de ressentimento e raiva que sua mãe pronuncia ao se lembrar do homem que a abandonou grávida e “sumiu” no mundo.
Para sua alegria o dia manteve a visão da escola bonita e grande ao lado de sua casa, porém ao se aproximar do prédio percebe que as crianças já não o tratam com a generosidade anterior, os olhares que as crianças voltam para ele são de desconfiança e medo, observa que ao passar pela rua as mães dos alunos seguram firmemente a bolsa e fecham os vidros dos carros; o senhor idoso e alto a quem os outros chamam de porteiro não o deixar entrar para brincar no escorregador, senti a alegria contagiante das outras crianças, mas percebe que aquilo está muito longe de seu alcance.
Tomado pela angustia ele se lança a desbravar as longas e tumultuadas avenidas do centro da cidade, procura desenfreadamente por alguma coisa que possa dar sentido a sua vida, busca um amor, um trabalho, uma esperança, busca a si próprio.
Chega finalmente à esquina da São João com a Piratininga, onde se pinta e passa a distrair os motoristas, o sinal é seu local de trabalho e a alegria sua função; infeliz coincidência do destino, o menino triste e melancólico alegra as pessoas, pessoas que quase sempre o ignoram e são alheias ao seu sofrimento e a sua súplica por dinheiro e comida.
Os carros passam, as pessoas passam, a areia da ampulheta vai chegando ao fim e a criança sempre na mesma rua, com os mesmos truques e a mesma perspectiva. Para sua felicidade a névoa negra da noite já começa a tomar conta do céu, terminando assim com mais um mofino dia de trabalho. Ele recolhe então seus pertences, lava o rosto e caminha apressadamente para casa, sua pressa não é para rever sua mãe ou aproveitar as benesses de seu lar, sua pressa é para chegar logo em casa e deitar em sua cama, pois somente no sonho sua alma deixa de ser morta.
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