sábado, dezembro 02, 2006

Alma Morta


(Foto Deise Lane/Viva Favela)
Tharcisio
São quase cinco horas da manhã e a claridade da luz do sol já adentra pelo barraco de madeira, o som de passos e conversas rompe o silencio da madrugada, a noite infelizmente chega ao fim, iniciando assim um novo e melancólico dia na favela Eldorado.
Apesar da diversidade de vidas e formas existentes nesse espaço, a cena que se inicia com o romper da aurora é quase sempre o mesmo em todos os barracos; a mãe adolescente, pouco instruída e miserável desperta, abandona sua alcova e dirige-se ao cômodo ao lado onde seu filho ainda dorme e sonha.
Sonha com uma vida melhor, sonha com o dia em que poderá dormir e não se preocupar com as goteiras do teto ou com a enchente do córrego; imagina como seria sua vida em uma casa de alvenaria, poderia ter um quarto apenas para ele, com uma estante repleta de brinquedos e enfeites, teria assim orgulho em convidar seus amigos a visitarem sua casa.
Em seu devaneio ele tem pais compressíveis que o apóia e incentiva, sua mãe uma fonte de carinho e bondade o ajuda nos deveres escolares e tem sempre uma palavra de incentivo e consolo; seu pai é o seu exemplo, homem trabalhador e honesto, sempre o leva para passear no zoológico e andar de bicicleta, o apresenta para seus amigos como sendo seu grande orgulho.
No sonho a criança é livre, ele diverte-se e delicia-se com a liberdade de entrar nas lojas do “shopping center” e levar seus brinquedos prediletos, no sonho ele entra na escola bonita e grande que existe ao lado da favela e brinca até cansar no parquinho ao lado do pátio, seus novos amigos lhe tratam com galhardia e sua professora é uma moça linda, de cabelos longos e olhos claros que fala vagarosamente e deixa transparecer sua doçura e benevolência.
Essa sua quimera é interrompida pela ação de uma mão pesada que o aperta e acorda, ao abrir os olhos percebe que na realidade sua casa é feita de retalhos de madeira, com telhado improvisado de folhas de bananeira e isopor, sua mãe diferentemente do que sonhava não o chama de amor, não o sorri e nem o incentiva, pelo contrário, ela o trata com raiva e amargura, suas palavras são sempre seguidas por insultos e menosprezo; ao seu lado não tem o pai, as únicas lembranças que tem deste são as palavras de ressentimento e raiva que sua mãe pronuncia ao se lembrar do homem que a abandonou grávida e “sumiu” no mundo.
Para sua alegria o dia manteve a visão da escola bonita e grande ao lado de sua casa, porém ao se aproximar do prédio percebe que as crianças já não o tratam com a generosidade anterior, os olhares que as crianças voltam para ele são de desconfiança e medo, observa que ao passar pela rua as mães dos alunos seguram firmemente a bolsa e fecham os vidros dos carros; o senhor idoso e alto a quem os outros chamam de porteiro não o deixar entrar para brincar no escorregador, senti a alegria contagiante das outras crianças, mas percebe que aquilo está muito longe de seu alcance.
Tomado pela angustia ele se lança a desbravar as longas e tumultuadas avenidas do centro da cidade, procura desenfreadamente por alguma coisa que possa dar sentido a sua vida, busca um amor, um trabalho, uma esperança, busca a si próprio.
Chega finalmente à esquina da São João com a Piratininga, onde se pinta e passa a distrair os motoristas, o sinal é seu local de trabalho e a alegria sua função; infeliz coincidência do destino, o menino triste e melancólico alegra as pessoas, pessoas que quase sempre o ignoram e são alheias ao seu sofrimento e a sua súplica por dinheiro e comida.
Os carros passam, as pessoas passam, a areia da ampulheta vai chegando ao fim e a criança sempre na mesma rua, com os mesmos truques e a mesma perspectiva. Para sua felicidade a névoa negra da noite já começa a tomar conta do céu, terminando assim com mais um mofino dia de trabalho. Ele recolhe então seus pertences, lava o rosto e caminha apressadamente para casa, sua pressa não é para rever sua mãe ou aproveitar as benesses de seu lar, sua pressa é para chegar logo em casa e deitar em sua cama, pois somente no sonho sua alma deixa de ser morta.

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Em que pé estamos

Estamos com os dois pés enterrados num campo semeado de palavras. Teve gente que tirou seus pés para descansar, outros para desbravar novos campos... mas ainda estamos juntos, descobrindo nas palavras outros universos. Decidimos ficar mais próximos dos textos e menos da teoria, eles dão mais ânimo de escrita. Quando passar a nuvem preta que se instalou sobre minha cabeça, prometo que volto a falar de Gérard Genette e outros. Estamos todos os sábados no mesmo galpão, que aliás será em breve inaugurado como espaço cultural. Saudações meu querido amigo Andrey! Ali fazemos divertidas experiências de escrita, algumas surrealistas, outras inovadoras e repentinas, outras lúdicas e infantis, algumas criadas outras herdadas. Enfim, a paixão pela Literatura é a grande responsável por essas loucuras. Agora é com você! Escolha um de nossos contos e abra os olhos para a sua IMAGINAÇÃO.