quarta-feira, novembro 08, 2006

Lídia


Juliana Padilha
Lídia levantou-se como sempre fazia para ir à escola, colocou seu jeans, sua blusa branca, sua jaqueta. Não estava frio, mas naquele mes ventava muito. Logo viria a primavera e as feiçoes das pessoas na rua mudariam. Quando descia a escada de seu edificio, se deteve para olhar melhor os raios de sol, e uma certeza de que enfim o inverno se despedia tomou conta de seus pensamentos. Continuou a descer, agora com passos mais rápidos, olhando o relógio, contando os minutos. Se perdesse o onibus ganharia falta, pois o canalha do professor fazia a chamada no início da aula só para atormentar. Quase duas horas escutando aquele sujeito falar de sua vida ou repetir algo que já sabia era perder tempo demais. Mas como todos, Lídia passava pelas insanidades intelectuais das universidades publicas. Deixar de falar mal no bar, ah isto não. Bateu a cabeça no vidro e despertou do seu cochilo, ainda estava na grande avenida. Olhou para quem sentava ao seu lado, uma moça bem maquiada lia um balancete. Observou melhor o movimen to do onibus que cheio recolhia mais estudantes. Cabe mais um, alguem gritou, um bando se apertava na frente da porta traseira, os nervos se encrispavam. Lídia por sorte tinha conseguido um lugar. Começou a pensar na praia de Lagoinha, a água verdinha da praia deserta e mais limpa de Florianópolis invadindo o onibus, cobrindo todos aqueles rostos, e ela de pé, sentindo a agua gelar seu corpo, chegar até seu peito e ao seu redor desaparecer tudo. Estava só, no meio de aguas tranquilas, sob um ceu azul. Com licença? Alguem tocou no seu braço e o verde já era o cinza de um casaco de frio a meio palmo de seu rosto. O som do tráfego, o burburinho das vozes, a realidade rasgava a imaginação. Posso sentar? Insistiu. Ela buscou a mulher maquiada, mas esta já estava dando sinal para descer. Virou-se. Sim, claro. Ele sentou, acomodando no colo seus livros de Biologia. Então ela sofreu o abalo da sensação de que conhecia aquele rosto, mas de onde? Puxa, não pode ser, é o cara com quem sonhei esta noite, estávamos conversando num lugar esquisito, tinha bastante claridade no seu cabelo. Nossa, que coisa estranha, como posso sonhar com alguem real e que vem parar do meu lado. Lídia fazia força para lembrar-se do sonho, mas tudo que alcançava ver eram os cabelos louros banhados de sol e partes imprecisas daquele rosto. A curva feita em velocidade fez Lídia interromper sua luta com a memória e segurar firme no banco da frente, mesmo assim ela empurrou contra a janela seu estranho conhecido. Agora faltavam só alguns minutos para os dois se separarem, pois o campus era a próxima parada. Lídia estava aflita com aquela situação. Sonhar com quem você conhece é comum, com alguém que não se tem intimidade e que se encontra no dia seguinte é estranho, chama o pressentimento, mas encontrar o desconhecido do sonho na realidade é bastante raro e… um tanto misterioso. O onibus parou, Lídia ajeitou suas coisas, o rapaz já estava levantado. Começaram a andar pelo corredor, ele atrás dela, ela tentando meter seu corpo entre os outros da frente. Sentia vergonha do olhar que podia estarlhe perscrutando as formas. Olhou as horas no celular para distrair-se do medo que lhe oprimia. Desceu e enxeu os pulmoes de ar, tomou o caminho da faculdade, seguia na frente. Teve vontade de olhar para trás. Aguentou até não poder mais. Virou-se com força e chocou seu corpo contra o dele. Cara contra cara, que se afastaram rapidamente, mas que seguiram imóveis, atraídas por algum mistério que seus olhos guardavam da alma. Desculpa. Não, desculpa você. Contornada a situação, seguiram seus caminhos. Lídia esperou ainda um pouco, fez que arrumava suas coisas. Não deixou de segui-lo com os olhos, reparando na sua calça jeans desbotada, no seu casaco cinza, nos cabelos louros ondulados… No findar de seu suspiro, viu aquele corpo desaparecer que nem fumaça. Arregalou os olhos, não podia acreditar. O sonho voltou a ser sonhado.

(Este conto surgiu de uma brincadeira de criação de personagem. Numa tarde de sábado veio ao mundo Lídia, uma garota cega que descobre um olho no umbigo. O conto começava assim, então cada um foi aumentando um pouco. Para concluir, fizemos um vídeo com os depoimentos do grupo sobre a personalidade de Lídia, filmando as diferentes íris de cada olho. Depois em casa fiz este conto sobre outra Lídia. Talvez eu não tenha conseguido abrir muito meus olhos para aquela.)

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Em que pé estamos

Estamos com os dois pés enterrados num campo semeado de palavras. Teve gente que tirou seus pés para descansar, outros para desbravar novos campos... mas ainda estamos juntos, descobrindo nas palavras outros universos. Decidimos ficar mais próximos dos textos e menos da teoria, eles dão mais ânimo de escrita. Quando passar a nuvem preta que se instalou sobre minha cabeça, prometo que volto a falar de Gérard Genette e outros. Estamos todos os sábados no mesmo galpão, que aliás será em breve inaugurado como espaço cultural. Saudações meu querido amigo Andrey! Ali fazemos divertidas experiências de escrita, algumas surrealistas, outras inovadoras e repentinas, outras lúdicas e infantis, algumas criadas outras herdadas. Enfim, a paixão pela Literatura é a grande responsável por essas loucuras. Agora é com você! Escolha um de nossos contos e abra os olhos para a sua IMAGINAÇÃO.