sexta-feira, novembro 17, 2006

Lótus: flor perfeita do oriente


Elionora

Bem podia ser uma história de amor. Talvez fosse apenas mais uma, dessas com nomes femininos que se encontram às dúzias em banca de jornal (Juliana, Sabrina, Camile). Enredo fácil, expectativa na dose certa, final presumível.

Ela se chamava Maria Lúcia e conhecia AC. da fila do bandejão que havia no prédio onde ambos trabalhavam. Ele era auxiliar administrativo Jr. enquanto que ela também era ajudante, só que na cozinha. Não se podia dizer que fossem amigos. Eram conhecidos apenas. Colegas. Uma distância de nove andares e diversas improbabilidades separavam o casal.

Em princípio, simples coleguismo. – Olá, tudo bem?

- Tudo, e você?

_ O que vai querer hoje? Ela oferecia a salada tropical ou o macarrão ao sugo, junto com um sorriso. Ele se sentava na sua mesa preferida, num canto da sala de onde era possível observar todo o movimento. Sempre fora atencioso com ela, que o servia.

Entre dezenas de funcionários que freqüentavam o restaurante do shopping, ela se sentiu atraída logo de cara pelo moço alto, gestos comedidos, cabelo liso com uma breve mecha branca que teimava em cair-lhe sobre os longos cílios de pecado. Não que AC . fosse alguém que inspirasse desejos proibidos. Ao contrário, o que a atraía nele era justamente o sorriso tímido, o ar de correta mansidão que dele emanava. Ao menos para ela. Entre as inúmeras saladas, o nhoque original, as sobremesas super light, ela não controlava o próprio pensamento que corria solto, subindo os andares que os separavam.
Ansiar e sonhar, tecer novos planos para sentir-se viva, era sua especialidade.

Por intermédio de uma amiga que freqüentava o mesmo consultório dentário que ele, descobrira que AC. era solteiro, morava com a mãe, apreciava boa música brasileira e tinha gosto pessoal simples, mas refinado. Sem qualquer surpresa que fizesse estremecer o seu coração com vãs expectativas, ela suspirava ao constatar que pelo menos ele não era casado e suas idades combinavam.

De vez em quando, nos poucos minutos de folga quando parava para almoçar, ela se sentava na beira do lago artificial do shopping, olhando fascinada os raios de sol a dançar em mil fragmentos difusos. Na água límpida, a flor-de-lótus boiava inocente e branca sobre a superfície em movimento. A luz clara se derramando cúmplice dos peixes. Dourados, gordos, enormes, deslizando em suavidade infinita: o peixe, a água, a paz.
Nestes instantes sua mente corria livre e, sem sentir, ela se via presa em doces pensamentos. Aquilo que fora em princípio admiração, transformara-se em atenção, carinho, mais que carinho. Foi junto ao imenso tanque cheio de vida, que, de repente, Lúcia se descobrira apaixonada por AC. Grande parte do dia não fazia outra coisa senão pensar em sua doce presença, nas linhas de seu rosto, no tom da sua voz. Lembrou-se de ter lido uma vez que, para alguns povos do oriente, o lótus simboliza perfeição e o mais puro amor.
Sentada na beira do lago, enquanto traçava a sobremesa, viajava com os peixes, alcançando mares sem nuvens. Em perfeita calmaria.



Naquela tarde, ela se atrasou um pouco ao deixar o trabalho. Quando conseguiu se livrar da limpeza das panelas e do salão, lembrou-se do cartaz que anunciava um espetáculo de circo, mágica e outras atrações aquela noite, no mesmo prédio em que trabalhava. Só era preciso subir uma rampa logo acima do quinto andar para ver o show. Maria Lúcia sempre amara apresentações de circo, e resolveu ficar até um pouco mais tarde a fim de assistir. Além disso, tinha esperança de que AC. também fosse ao show, então ela poderia vê-lo. Talvez pudessem se falar, se conhecer melhor.

Quando chegou o auditório já estava lotado. Estava tão cansada que desabou, sentando no primeiro lugar vazio que encontrou. Por ter se atrasado demais, ela apenas conseguiu ver parte de um show de magia não muito original. Da cartola mágica, saltavam lebres, pombos e fitas coloridas. Depois o mágico fez um número acrobático com bolinhas brancas que dançavam no ar e era tão chato, mas tanto, que sua mente vagou para bem longe dali, enquanto ela se via presa nos braços fortes de AC.

Sentada na semi escuridão, ela notava as pálpebras pesadas e a cabeça doía-lhe um pouco –estaria ficando resfriada? De vez em quando seu pescoço pendia torto. Por mais que se esforçasse, não conseguia manter os olhos abertos. Dormiu, e sonhando viu o mágico Hermann tirar carpas vermelhas de sob um meio gasto pano preto. Dóceis e alegres animais. No sonho, os peixes tinham os mesmos olhos amendoados de seu amado. Então o mágico fazia AC. se transformar numa lebre enorme, com um rabo fino como de um camundongo balançando no ar. A lebre nadava agilmente na superfície do lago bem cuidado e, de repente, dando um salto de tango, engolia a flor-de-lótus.

Acordou com um sobressalto e um barulho ensurdecedor ribombando em sua cabeça.

Eram os aplausos finais da platéia que, de pé, já começava a ir embora. Ela aplaudiu também, embora se desse conta de que havia perdido todo o final da apresentação, além de ter tido um péssimo sonho.

Agora, com a luzes acesas, seus olhos ansiosos buscavam vislumbrar a figura do amado entre a platéia que saía. Junto à pequena multidão que caminhava, ela seguia adiante, porém, de vez em quando olhava para trás. De repente tropeçou em alguém que ia logo à sua frente. O belo jovem murmurou um rápido pedido de desculpas. Ela também, fascinada. Ele estava acompanhado por alguém que abraçou e parecia nem tê-la reconhecido. Então Maria Lúcia sentiu um baque profundo no estômago, que se contraiu pesado. Era ele. O seu Antonio Carlos querido.


Obs: Gosto particularmente deste conto porque ele é simples, direto, sem frescura. Acho também que me identifico bastante com as personagens.
Neste exercício de criação, algumas palavras como: subir/ ver/ coração e flor-de-lotus, teriam que aparecer necessariamente. (Elionora)

2 comentários:

Juliana Padilha disse...
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Anônimo disse...

É muito lindo!!! Adorei o modo como as paisagens são descritas...Eu consigo imaginar tão perfeitamente...os raios de sol...amei...um amigo me chamava de flor do oriente e hoje eu fui pesquisar e encontrei esse lindo conto!

Em que pé estamos

Estamos com os dois pés enterrados num campo semeado de palavras. Teve gente que tirou seus pés para descansar, outros para desbravar novos campos... mas ainda estamos juntos, descobrindo nas palavras outros universos. Decidimos ficar mais próximos dos textos e menos da teoria, eles dão mais ânimo de escrita. Quando passar a nuvem preta que se instalou sobre minha cabeça, prometo que volto a falar de Gérard Genette e outros. Estamos todos os sábados no mesmo galpão, que aliás será em breve inaugurado como espaço cultural. Saudações meu querido amigo Andrey! Ali fazemos divertidas experiências de escrita, algumas surrealistas, outras inovadoras e repentinas, outras lúdicas e infantis, algumas criadas outras herdadas. Enfim, a paixão pela Literatura é a grande responsável por essas loucuras. Agora é com você! Escolha um de nossos contos e abra os olhos para a sua IMAGINAÇÃO.