Frederico Helou Doca de Andrade
O Amarelo, cáqui e fedorento, embolorado à guisa de fermento, recebeu em sua palheta de cores os ilustrados convidados vivos e contrastantes: o Sr. Azul, parcimonioso, ladrilhado e laureado com cicatrizes doces, pertinentes a seu caráter; o coronel Verde, tão mal acostumado à sua verdura rota, contraposta à envergadura de vinte anos de adorno às mais refinadas salas de conchavos contra a subversão dos vermelhos, postava-se bem ao lado de sua apimentada e cáustica farpa, a Dona Vermelha, uma folgazã, velhaca e velhota, já acostumada a espinafradas daquele.
Pois bem. O anfitrião, tão irrequieto com a balbúrdia colorida, interrompeu, em tom solene e solar aquela querela, com a proposta do seguinte tom do encontro:
___ Meus frios convidados e cálida conviva, chameio-os aqui não para resolver qual de nós tem as melhores qualidades ou os que causam as melhorem sensações aos humanos, mas sim para arquitetarmos uma estratégia de inclusão de nossos renegados irmãos, o ilustríssimo Senhor Preto, pomposo, elegante, mas marginal à Delegação das Cores, e o alvacento, lívido e cândido Dr. Branco, sempre considerado a fusão da Irmandade Colorida, mas sem nomeação como um ser distinto, de “cor”.
Abriu-se, então, um sufrágio secreto em torno daquele pleito, mas não tão secreto assim, já que os três membros da delegação, mais o anfitrião, estavam dispostos um em frente ao outro, tendo que fazer uso da linguagem concretista, no mais puro cerne conotativo da palavra.
Houve uma troca fulminante de caracteres cravados entre a D. Vermelha e o Cel. Verde, tendo absorvido, este, o voto insuportável a favor somente da admissão do Senhor Preto:
___ D. Vermelha, como ousa subjugar-nos a tamanha mancha em nossas reputações? Com que olhos verão aqueles que se acharem em presença de cidadão tão nigérrimo?
___ Ha! Ha! Ha! Ha! Ha! – uma gargalhada sangrenta e desafiadora ecoou de um dos alto-relevos de Dona Vermelha. Com os mesmos olhos que viram toda essa sua verdura e aspereza impregnarem a coloração de um mundo antes harmonioso, não-separado por barras de cor, espremidas, anunciando mais um programa de TV censurado, vetado numa salada de amargura.
Indistintamente, o Sr. Azul, em um rompante marítimo, expressou-se em um tom de bestial e celeste rispidez:
___ Queiram os senhores ter brio nas degradantes gradações? Sabem qual é a minha opinião sobre essa obscura frescura? É a de que incluam ambos na Delegação. E direi porque: o Senhor Preto no dorso da mão de tinta do Palácio da Elegância e o Doutor Branco na palma pungente, em cargo de Ministério da Sapiência e Mudança.
O desfolhado Amarelo, diante de ativa resolução por parte do Sr. Azul, deu seu voto esmagador a favor dos candidatos contrastantes, excluindo, em um sibilante jato de fel, algo que o verdureiro Coronel Verde não suportou:
___ Pois está decidido, meus coloridos amigos. Daqui por diante, o Senhor Preto e o Doutor Branco serão nossos representantes na questão mais relevante já discutida em nossos encontros: a inserção de não-cores em um alto-falante que esguichará os caracteres jornalísticos para uma massa carente de imparcialidade, sempre marcada pela maquiagem multicolorida, revestindo seus rostos, tendo-lhes tornado um circo feirante em uma massa que sempre fermentou, mas calou-se, contida em um descanso forçado.
14 de Outubro de 2006
Um comentário:
Fred- suas palavras-provocação-espírito erudito- crítica-nó de garganta- imaginação- questionamento
Fred, só podia ser VOCÊ.
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