terça-feira, novembro 28, 2006

O CONTO FRUSTRADO

Adão

Pela quinta vez ele tenta escrever seu conto, e pela quinta vez arranca o papel da máquina.”Não consigo fazer nada durante o dia, com todo mundo em casa”.
E ele tem razão.Sua mulher de dez em dez minutos aparece com uma xícara de café.”Não que eu não goste de café, mas assim não dá”.
E novamente, coloca o papel na máquina e começa a escrever.
...Estou meio zonzo. O corpo não responde direito.Sinto como que envolto em uma neblina espessa.Minha cabeça dói.As minhas mãos estão cheias de vermes.Ai, que frio!Parece que mil olhos estão a me vigiar.Tenho que me esconder, mas não sei onde. E minha cabeça dói tanto.De repente aparece alguém que eu não conheço.De longe lembra uma mulher, mas com cabeça de macaco.E ela traz nas mãos alguma coisa, e quer me ferir.Grita coisas em uma língua que eu não entendo.Tenho medo.E gesticula e abre uma boca descomunal, falando e cuspindo.E minha cabeça dói.Ela chega mais perto para me bater. Eu me defendo com algo que peguei, com minhas mãos cheias de vermes.Acho que consegui, por que ela parou e se deitou no chão.Tento também me deitar, mas sinto que pregos furam minha carne e, então me sento.Meu estomago se incha e vomito um coelho.Fico olhando para o teto que está mole e os quadros escorrem pela parede.A mesa e as cadeiras fogem de mim.Sento-me num canto, escondido, onde estou seguro, vendo as cores se fundirem.Sentindo a minha cabeça doer e os vermes comerem a minha carne.
Depois de tanta insistência dos vizinhos, a polícia chega.Arromba a porta.Mas não se pode fazer mais nada.Em um canto da cozinha, sentado no chão, completamente nu e coberto de sangue, um rapaz com um olhar estático, mirava o teto.No chão, ao seu lado uma mulher morta, com varias perfurações pelo corpo.”Ele matou a própria mãe!”Ouviu-se no meio da multidão que se formou...Toc, toc, toc.O que você quer, mulher? Vim trazer um cafezinho.Os nós dos seus dedos não doem, de tanto bater na porta?Não!
Então, irritado com a resposta e com o texto ruim, ele se levanta e sai.Sua mulher não entende, quando ele volta com um balde e sabão.
-O quê você vai fazer com isso?
-Vou lavar o carro.

Este conto conta a estória de um escritor que não conseguia mais ecrever. Espero que gostem. (Adão)

sábado, novembro 18, 2006

Tarde de atrasos


Juliana e Elionora


Neste sábado todos se desencontraram. Nosso encontro de cine e literatura fica para o sábado que vem. Boa semana a todos os oficineiros!

A-COR-DEMO-S


Frederico Helou Doca de Andrade

O Amarelo, cáqui e fedorento, embolorado à guisa de fermento, recebeu em sua palheta de cores os ilustrados convidados vivos e contrastantes: o Sr. Azul, parcimonioso, ladrilhado e laureado com cicatrizes doces, pertinentes a seu caráter; o coronel Verde, tão mal acostumado à sua verdura rota, contraposta à envergadura de vinte anos de adorno às mais refinadas salas de conchavos contra a subversão dos vermelhos, postava-se bem ao lado de sua apimentada e cáustica farpa, a Dona Vermelha, uma folgazã, velhaca e velhota, já acostumada a espinafradas daquele.
Pois bem. O anfitrião, tão irrequieto com a balbúrdia colorida, interrompeu, em tom solene e solar aquela querela, com a proposta do seguinte tom do encontro:
___ Meus frios convidados e cálida conviva, chameio-os aqui não para resolver qual de nós tem as melhores qualidades ou os que causam as melhorem sensações aos humanos, mas sim para arquitetarmos uma estratégia de inclusão de nossos renegados irmãos, o ilustríssimo Senhor Preto, pomposo, elegante, mas marginal à Delegação das Cores, e o alvacento, lívido e cândido Dr. Branco, sempre considerado a fusão da Irmandade Colorida, mas sem nomeação como um ser distinto, de “cor”.
Abriu-se, então, um sufrágio secreto em torno daquele pleito, mas não tão secreto assim, já que os três membros da delegação, mais o anfitrião, estavam dispostos um em frente ao outro, tendo que fazer uso da linguagem concretista, no mais puro cerne conotativo da palavra.
Houve uma troca fulminante de caracteres cravados entre a D. Vermelha e o Cel. Verde, tendo absorvido, este, o voto insuportável a favor somente da admissão do Senhor Preto:
___ D. Vermelha, como ousa subjugar-nos a tamanha mancha em nossas reputações? Com que olhos verão aqueles que se acharem em presença de cidadão tão nigérrimo?
___ Ha! Ha! Ha! Ha! Ha! – uma gargalhada sangrenta e desafiadora ecoou de um dos alto-relevos de Dona Vermelha. Com os mesmos olhos que viram toda essa sua verdura e aspereza impregnarem a coloração de um mundo antes harmonioso, não-separado por barras de cor, espremidas, anunciando mais um programa de TV censurado, vetado numa salada de amargura.
Indistintamente, o Sr. Azul, em um rompante marítimo, expressou-se em um tom de bestial e celeste rispidez:
___ Queiram os senhores ter brio nas degradantes gradações? Sabem qual é a minha opinião sobre essa obscura frescura? É a de que incluam ambos na Delegação. E direi porque: o Senhor Preto no dorso da mão de tinta do Palácio da Elegância e o Doutor Branco na palma pungente, em cargo de Ministério da Sapiência e Mudança.
O desfolhado Amarelo, diante de ativa resolução por parte do Sr. Azul, deu seu voto esmagador a favor dos candidatos contrastantes, excluindo, em um sibilante jato de fel, algo que o verdureiro Coronel Verde não suportou:
___ Pois está decidido, meus coloridos amigos. Daqui por diante, o Senhor Preto e o Doutor Branco serão nossos representantes na questão mais relevante já discutida em nossos encontros: a inserção de não-cores em um alto-falante que esguichará os caracteres jornalísticos para uma massa carente de imparcialidade, sempre marcada pela maquiagem multicolorida, revestindo seus rostos, tendo-lhes tornado um circo feirante em uma massa que sempre fermentou, mas calou-se, contida em um descanso forçado.

14 de Outubro de 2006

sexta-feira, novembro 17, 2006

A D Ã O : o dono da bola


Elionora

O trem que o levava de volta a casa parecia mais lento aquele dia. Quase uma hora e meia de viagem e a torcida para que não houvesse atraso no caminho. Cada parada era uma tortura.
Quando chegou em casa correndo, jogou-se no sofá da sala e ligou a TV, torcendo para que os dois times ainda não tivessem entrado em campo. Apreciava assistir ao jogo do começo.
Era um homem de seu tempo. Gostava de sua cidade, dos amigos que tinha, da vida de casado; embora às vezes a rotina fosse um pouco demais.

Sua mente começava a dar sinais de cansaço. Vez por outra se pegava gritando com a mulher, os filhos.

Foi seu melhor amigo quem lhe disse que ele precisava relaxar. Envolver-se o mínimo possível. Deixar a vida rolar. Voltar-se mais para a própria família, ler menos jornal, que só traz coisas negativas. Tirar umas férias enfim. Que seria bom para acalmar os nervos, que ultimamente andava à flor-da-pele.

Perguntou-lhe se conhecia Bora-Bora.
- É uma ilha na Ásia? Este nome não me é estranho...

O amigo tinha um folder no bolso da calça. Mostrou. Propaganda ilustrada com fotos coloridas de encher os olhos e tirar o fôlego. Constatou que Bora bora é uma ilha que faz parte da Polinésia Francesa. Um amontoado composto de várias ilhas no Pacífico, “literalmente longe de tudo e no meio do nada”. O folheto continha termos como: Paraíso na terra; Obra-prima da mãe natureza e Lugar dos deuses do Olimpo. Lugares-comuns que turbinavam o desejo e a imaginação de qualquer um.

Resolveu se informar sobre o preço da viagem para duas pessoas. Só para saber. Talvez fosse caro demais, porém, não custava sonhar. Um passeio desses na baixa temporada seria um jeito de escapar da rotina, do pagamento das contas e da arrumação da cozinha nos sábados --este era o seu dia de participar em “aspectos da valorização do ser feminino, e da harmonia do lar”.

O grande problema era a Copa do Mundo. Particularmente, ele preferia o futebol a qualquer viagem. Até nascera com nome de atleta e pinta de zagueiro... E seria difícil
convencer a mulher a fazer a segunda lua de mel em plena Copa, na Alemanha.

Bora-bora... produto de erupções vulcânicas que resultaram em ilhas montanhosas. Vegetação tropical, plantações de abacaxis e coco, praias de areia muito branca e um mar que apresenta uma infinidade de tons de azul, dependendo da profundidade da água e dos corais no fundo, dizia o folheto que mostrou à esposa. Ela adorou e começou a fazer planos. Queria mais detalhes do lugar para saber quantas horas de viagem seriam. Se viajariam via aérea ou de navio. Que tipo de roupa deveria levar.

Na tentativa de desencorajá-la ele falou do preço, que não parecia assim tão pequeno quando convertido em Real. Seu íntimo argumentava que o início da baixa temporada ia coincidir com Brasil X Croácia: o primeiro jogo do Brasil na Copa. Estava em grande desassossego. Pesquisa daqui, pesquisa dali... No fundo, queria era achar um jeito de fugir dessa oportunidade de conhecer o paraíso.
De tanto postergar, acabou conseguindo. O prazo se esgotou e ele deixou escapar a chance. A paixão pela bola dominava tudo o mais. Sua mulher, sentindo-se frustrada, desde a semana anterior vinha insistindo em que agora, ele fizesse uma visita à sogra a fim de ajudá-la ajustar as cortinas do quarto e mudar alguns móveis de lugar.
As necessidades da sogra eram legítimas, porém, o jogo Argentina e Alemanha era decisivo e podia mudar o futuro do Brasil. A esposa, impaciente e insensível, deu-lhe um ultimato direto, sem dribles ou firula: -O futebol ou eu.

No sábado em que jogariam Brasil X França, indiferente, ela proclamou:
- Eu e as crianças vamos ao cinema e depois vamos passar na casa da mamãe. Quando voltar, quero a louça lavada.
Ele concordou, claro. Afinal, trato é trato e segundo o combinado, este era o seu dia.

Quando passava diante da televisão, porém, ouviu uma voz jovem, de homem a lhe dizer:
- Esta é a sua grande chance. Ligue a TV e veja o jogo do Brasil.

Concordou sem esforço. Assistiu a entrada das equipes no gramado, a
confraternização entre elas, o cântico do hino nacional. Vendo os craques perfilados, sentiu que havia algo errado na equipe brasileira, porém, naquele momento, não sabia precisar o que era.

O desenrolar da partida trouxe-lhe aspectos dolorosos, como não via há muito tempo, nem mesmo no ‘Brasileirão’. Era Cafu perdendo uma corrida na lateral, era Kaká dando passes e mais passes errados no meio campo, era Ronaldo –o fenômeno- levando lençol de Zidane, era este mesmo Zidane jogando desmarcado. Um jogo de engasgar. De raiva. Onde a revanche? - uma palavra de origem francesa, afinal.

Quando a partida acabou, ele estava igual a tantos outros brasileiros: de boca aberta e ruga incrédula bailando na testa. Sem entender; querendo que alguém lhe explicasse. França um; Brasil zero. ZERO. Os cumprimentos e a troca de camisas entre os jogadores. Sua cabeça, vazia como ficaram as praças em BH, Curitiba e São Paulo assim que o jogo acabou. Estava prestes a sair, dar uma volta para ver o movimento e saber onde poderia ter tanto torcedor francês, já que ouvia fogos em profusão, como se alguém estivesse comemorando a desclassificação do Brasil, quando teve um estalo e, levando a mão à testa, lembrou-se da louça do almoço que o aguardava. Correndo à cozinha, viu um bilhete da esposa pendurado no cabo da panela de pressão. Em que momento ela teria estado na casa?

Ainda com a cabeça meio zonza e distante, leu: - Você venceu. Eu e as crianças estamos indo pra casa da mamãe.
(Neste conto foi proposto que fizéssemos um exercício de criação sobre um colega escolhido por sorteio. Felizmente tirei o Adão, que é super gente fina e não levou a mal as brincadeiras que tive de inventar....)

Lótus: flor perfeita do oriente


Elionora

Bem podia ser uma história de amor. Talvez fosse apenas mais uma, dessas com nomes femininos que se encontram às dúzias em banca de jornal (Juliana, Sabrina, Camile). Enredo fácil, expectativa na dose certa, final presumível.

Ela se chamava Maria Lúcia e conhecia AC. da fila do bandejão que havia no prédio onde ambos trabalhavam. Ele era auxiliar administrativo Jr. enquanto que ela também era ajudante, só que na cozinha. Não se podia dizer que fossem amigos. Eram conhecidos apenas. Colegas. Uma distância de nove andares e diversas improbabilidades separavam o casal.

Em princípio, simples coleguismo. – Olá, tudo bem?

- Tudo, e você?

_ O que vai querer hoje? Ela oferecia a salada tropical ou o macarrão ao sugo, junto com um sorriso. Ele se sentava na sua mesa preferida, num canto da sala de onde era possível observar todo o movimento. Sempre fora atencioso com ela, que o servia.

Entre dezenas de funcionários que freqüentavam o restaurante do shopping, ela se sentiu atraída logo de cara pelo moço alto, gestos comedidos, cabelo liso com uma breve mecha branca que teimava em cair-lhe sobre os longos cílios de pecado. Não que AC . fosse alguém que inspirasse desejos proibidos. Ao contrário, o que a atraía nele era justamente o sorriso tímido, o ar de correta mansidão que dele emanava. Ao menos para ela. Entre as inúmeras saladas, o nhoque original, as sobremesas super light, ela não controlava o próprio pensamento que corria solto, subindo os andares que os separavam.
Ansiar e sonhar, tecer novos planos para sentir-se viva, era sua especialidade.

Por intermédio de uma amiga que freqüentava o mesmo consultório dentário que ele, descobrira que AC. era solteiro, morava com a mãe, apreciava boa música brasileira e tinha gosto pessoal simples, mas refinado. Sem qualquer surpresa que fizesse estremecer o seu coração com vãs expectativas, ela suspirava ao constatar que pelo menos ele não era casado e suas idades combinavam.

De vez em quando, nos poucos minutos de folga quando parava para almoçar, ela se sentava na beira do lago artificial do shopping, olhando fascinada os raios de sol a dançar em mil fragmentos difusos. Na água límpida, a flor-de-lótus boiava inocente e branca sobre a superfície em movimento. A luz clara se derramando cúmplice dos peixes. Dourados, gordos, enormes, deslizando em suavidade infinita: o peixe, a água, a paz.
Nestes instantes sua mente corria livre e, sem sentir, ela se via presa em doces pensamentos. Aquilo que fora em princípio admiração, transformara-se em atenção, carinho, mais que carinho. Foi junto ao imenso tanque cheio de vida, que, de repente, Lúcia se descobrira apaixonada por AC. Grande parte do dia não fazia outra coisa senão pensar em sua doce presença, nas linhas de seu rosto, no tom da sua voz. Lembrou-se de ter lido uma vez que, para alguns povos do oriente, o lótus simboliza perfeição e o mais puro amor.
Sentada na beira do lago, enquanto traçava a sobremesa, viajava com os peixes, alcançando mares sem nuvens. Em perfeita calmaria.



Naquela tarde, ela se atrasou um pouco ao deixar o trabalho. Quando conseguiu se livrar da limpeza das panelas e do salão, lembrou-se do cartaz que anunciava um espetáculo de circo, mágica e outras atrações aquela noite, no mesmo prédio em que trabalhava. Só era preciso subir uma rampa logo acima do quinto andar para ver o show. Maria Lúcia sempre amara apresentações de circo, e resolveu ficar até um pouco mais tarde a fim de assistir. Além disso, tinha esperança de que AC. também fosse ao show, então ela poderia vê-lo. Talvez pudessem se falar, se conhecer melhor.

Quando chegou o auditório já estava lotado. Estava tão cansada que desabou, sentando no primeiro lugar vazio que encontrou. Por ter se atrasado demais, ela apenas conseguiu ver parte de um show de magia não muito original. Da cartola mágica, saltavam lebres, pombos e fitas coloridas. Depois o mágico fez um número acrobático com bolinhas brancas que dançavam no ar e era tão chato, mas tanto, que sua mente vagou para bem longe dali, enquanto ela se via presa nos braços fortes de AC.

Sentada na semi escuridão, ela notava as pálpebras pesadas e a cabeça doía-lhe um pouco –estaria ficando resfriada? De vez em quando seu pescoço pendia torto. Por mais que se esforçasse, não conseguia manter os olhos abertos. Dormiu, e sonhando viu o mágico Hermann tirar carpas vermelhas de sob um meio gasto pano preto. Dóceis e alegres animais. No sonho, os peixes tinham os mesmos olhos amendoados de seu amado. Então o mágico fazia AC. se transformar numa lebre enorme, com um rabo fino como de um camundongo balançando no ar. A lebre nadava agilmente na superfície do lago bem cuidado e, de repente, dando um salto de tango, engolia a flor-de-lótus.

Acordou com um sobressalto e um barulho ensurdecedor ribombando em sua cabeça.

Eram os aplausos finais da platéia que, de pé, já começava a ir embora. Ela aplaudiu também, embora se desse conta de que havia perdido todo o final da apresentação, além de ter tido um péssimo sonho.

Agora, com a luzes acesas, seus olhos ansiosos buscavam vislumbrar a figura do amado entre a platéia que saía. Junto à pequena multidão que caminhava, ela seguia adiante, porém, de vez em quando olhava para trás. De repente tropeçou em alguém que ia logo à sua frente. O belo jovem murmurou um rápido pedido de desculpas. Ela também, fascinada. Ele estava acompanhado por alguém que abraçou e parecia nem tê-la reconhecido. Então Maria Lúcia sentiu um baque profundo no estômago, que se contraiu pesado. Era ele. O seu Antonio Carlos querido.


Obs: Gosto particularmente deste conto porque ele é simples, direto, sem frescura. Acho também que me identifico bastante com as personagens.
Neste exercício de criação, algumas palavras como: subir/ ver/ coração e flor-de-lotus, teriam que aparecer necessariamente. (Elionora)

sábado, novembro 11, 2006

O menino e o velho (outra versao) para o conto de Lygia Fagundes Telles


"Tão horrível, aquele menininho, lembra?"
Há tempos aquele senhor não retorna ao restaurante, dizem que sua clausula iniciou-se após a morte daquele menino, menino forte e saudavel, mas que não resistiu aos riscos da rua; foi encontrado morto ao pé de uma marquize numa noite gelada e crua.
Em seu velório não havia café, nem biscoitos, flores apenas às do caixão, as únicas pessoas presentes eram os fúncionarios da morte e um velho de cabelos brancos e bigodes ralos pela espuma. O silêncio triste da noite foi quebrado pelo despertar do relògio, que anunciou a hora do enterro, hora em que dois homens levantaram o caixão e levaram-no ao mais belo tumúlo do cemitério, tornou-se ali o último lar daquele menino, lar sempre vistoso e florido, organizado e limpo pelo emprenho de um bondoso senhor de barbas brancas; a lápide de letras grandes e douradas tinha gravado os nomes de Caio Antônio Prado e "Indigente" Antônio Prado.

(Este exercício foi realizado hoje, 11-11-06. Fizemos uma votação para escolher o melhor final para o conto de Lygia. "Candidato eleito": Tharcisio.)

quarta-feira, novembro 08, 2006

Lídia


Juliana Padilha
Lídia levantou-se como sempre fazia para ir à escola, colocou seu jeans, sua blusa branca, sua jaqueta. Não estava frio, mas naquele mes ventava muito. Logo viria a primavera e as feiçoes das pessoas na rua mudariam. Quando descia a escada de seu edificio, se deteve para olhar melhor os raios de sol, e uma certeza de que enfim o inverno se despedia tomou conta de seus pensamentos. Continuou a descer, agora com passos mais rápidos, olhando o relógio, contando os minutos. Se perdesse o onibus ganharia falta, pois o canalha do professor fazia a chamada no início da aula só para atormentar. Quase duas horas escutando aquele sujeito falar de sua vida ou repetir algo que já sabia era perder tempo demais. Mas como todos, Lídia passava pelas insanidades intelectuais das universidades publicas. Deixar de falar mal no bar, ah isto não. Bateu a cabeça no vidro e despertou do seu cochilo, ainda estava na grande avenida. Olhou para quem sentava ao seu lado, uma moça bem maquiada lia um balancete. Observou melhor o movimen to do onibus que cheio recolhia mais estudantes. Cabe mais um, alguem gritou, um bando se apertava na frente da porta traseira, os nervos se encrispavam. Lídia por sorte tinha conseguido um lugar. Começou a pensar na praia de Lagoinha, a água verdinha da praia deserta e mais limpa de Florianópolis invadindo o onibus, cobrindo todos aqueles rostos, e ela de pé, sentindo a agua gelar seu corpo, chegar até seu peito e ao seu redor desaparecer tudo. Estava só, no meio de aguas tranquilas, sob um ceu azul. Com licença? Alguem tocou no seu braço e o verde já era o cinza de um casaco de frio a meio palmo de seu rosto. O som do tráfego, o burburinho das vozes, a realidade rasgava a imaginação. Posso sentar? Insistiu. Ela buscou a mulher maquiada, mas esta já estava dando sinal para descer. Virou-se. Sim, claro. Ele sentou, acomodando no colo seus livros de Biologia. Então ela sofreu o abalo da sensação de que conhecia aquele rosto, mas de onde? Puxa, não pode ser, é o cara com quem sonhei esta noite, estávamos conversando num lugar esquisito, tinha bastante claridade no seu cabelo. Nossa, que coisa estranha, como posso sonhar com alguem real e que vem parar do meu lado. Lídia fazia força para lembrar-se do sonho, mas tudo que alcançava ver eram os cabelos louros banhados de sol e partes imprecisas daquele rosto. A curva feita em velocidade fez Lídia interromper sua luta com a memória e segurar firme no banco da frente, mesmo assim ela empurrou contra a janela seu estranho conhecido. Agora faltavam só alguns minutos para os dois se separarem, pois o campus era a próxima parada. Lídia estava aflita com aquela situação. Sonhar com quem você conhece é comum, com alguém que não se tem intimidade e que se encontra no dia seguinte é estranho, chama o pressentimento, mas encontrar o desconhecido do sonho na realidade é bastante raro e… um tanto misterioso. O onibus parou, Lídia ajeitou suas coisas, o rapaz já estava levantado. Começaram a andar pelo corredor, ele atrás dela, ela tentando meter seu corpo entre os outros da frente. Sentia vergonha do olhar que podia estarlhe perscrutando as formas. Olhou as horas no celular para distrair-se do medo que lhe oprimia. Desceu e enxeu os pulmoes de ar, tomou o caminho da faculdade, seguia na frente. Teve vontade de olhar para trás. Aguentou até não poder mais. Virou-se com força e chocou seu corpo contra o dele. Cara contra cara, que se afastaram rapidamente, mas que seguiram imóveis, atraídas por algum mistério que seus olhos guardavam da alma. Desculpa. Não, desculpa você. Contornada a situação, seguiram seus caminhos. Lídia esperou ainda um pouco, fez que arrumava suas coisas. Não deixou de segui-lo com os olhos, reparando na sua calça jeans desbotada, no seu casaco cinza, nos cabelos louros ondulados… No findar de seu suspiro, viu aquele corpo desaparecer que nem fumaça. Arregalou os olhos, não podia acreditar. O sonho voltou a ser sonhado.

(Este conto surgiu de uma brincadeira de criação de personagem. Numa tarde de sábado veio ao mundo Lídia, uma garota cega que descobre um olho no umbigo. O conto começava assim, então cada um foi aumentando um pouco. Para concluir, fizemos um vídeo com os depoimentos do grupo sobre a personalidade de Lídia, filmando as diferentes íris de cada olho. Depois em casa fiz este conto sobre outra Lídia. Talvez eu não tenha conseguido abrir muito meus olhos para aquela.)

Entre los muertos


Juliana dos Santos Padilha

Pedro tenía manos fuertes, clavaba la pala en el pozo y sacaba la tierra en un movimiento casi involuntario. No pensaba en nada mientras trabajaba y lo mismo pasaba con el resto de su vida. Quizás fuera por eso que su mujer lo había abandonado. No tenía hijos, contaba con la compañía de sus amigos y de una chica de un prostíbulo cerca de su casa. En las noches en que realmente veía la oscuridad y el vacío de su pequeña casa en una villa, se asustaba y corría a buscar el calor de la muchacha. Pedro vivía solo en Buenos Aires, sus padres y un hermano se habían quedado en el campo.
En este día, el sol dejó un rastro anaranjado en el cielo después de haberse borrado. El verano empezaba en la ciudad porteña, hacía mucho calor y Pedro sudaba. Su cuerpo ya demostraba señales de cansancio, pero hoy tenía que trabajar una hora más. Él y sus compañeros habían sido solicitados para una tarea de carácter urgente: exhumar mitad de los pozos del ala de los NN en el cementerio de Chacarita. Luego de saberlo no reclamó, ni caviló sobre los motivos de tal necesidad repentina de espacio. Tampoco pensó que iba a ganar una extra. Parecía haberse olvidado de su existencia en algún rincón de su pasado.
Desde sus veintitrés años convivía con el dolor ajeno. En el inicio le fue difícil, sentía náusea cuando recorría las galerías ante el furtivo olor ácido de la muerte o cuando tenía que exhumar desde simples pozos hasta lujosas bóvedas- ver y juntar las pequeñas partes que quedan después de todo lo que fuimos. Pero el tiempo vuelve incluso la dificultad una costumbre y así los inhumadores como Pedro van logrando la indiferencia en sus actividades.
Pedro trabajaba y no se dio cuenta cuando la noche se tragó los últimos rayos de claridad, sino sólo cuando las luces se encendieron. En este momento él trataba de sacar los huesos de un pozo al lado de un majestuoso roble. Se había agachado para juntar la calavera, cuando sintió un liviano golpe en sus espaldas. Volvió su cuerpo hacia atrás y vio una niña hermosa con un vestido blanco. Pedro le preguntó, revelando una mueca de sorpresa:
–¿Qué quieres mi amor?
La niña, que aparentaba tener unos seis años de edad, le contestó primero con una sonrisa, en seguida se puso seria y callada. Pedro, sin entender la situación que se le planteaba, le rehizo la pregunta en el mismo tono. La niña volvió a sonreír y le dijo:
–Hoy murió mi mamá, ellos acaban de enterrarla. La metieron en un hueco como ese, pero del otro lado. Ella nunca me habló de mi papá, no sé quien es. –La pequeña se calló y empezó a mirarlo con extrañeza. Entonces, le preguntó: –¿Usted está vivo?
Pedro dijo que sí, y pensaba en lo que le iba a preguntar cuando comenzó a caer un chaparrón. La niña salió corriendo y le dijo adiós ya en la mitad del camino. Pedro con los ojos encharcados aún logró distinguir su figura blanca alejarse por el camino de baldosas.
Desde ese día, algo afectó profundamente a Pedro. Estaba constantemente intranquilo y no podía dejar de pensar en las palabras de la chica. ¿Sería verdad su historia?; ¿Y por qué dudó si estaba vivo? ¿Está tan viejo y acabado para parecerse a un cadáver? No quiso hablar con nadie sobre el ocurrido y en los días siguientes evitó salir de su casa después del trabajo. Los compañeros del bar lo extrañaron en el juego de barajas y la chica del prostíbulo no pudo desahogar su desdicha de aquellas noches. Pedro estaba siempre solo con sus pensamientos. Decía para sí mismo que no había visto un fantasma, que la niña era real, aunque había mantenido un diálogo muy corto con ella.
Pedro fue de a poco recuperando su consciencia: pensar en ese hecho le hizo empezar a reflexionar sobre otros, más antiguos y dolorosos. Hasta que una noche lloró al recordar el día en que llegó a su casa y la encontró vacía: la mujer que lo había cuidado por veinticinco años y era tan tranquila lo había abandonado. No le dejó siquiera una palabra y él no derramó una lágrima. Siguió su vida, pero sin su corazón. Ahora volvía a cuidarse, a observar sus sentimientos y la vida a su alrededor.
Pasó un mes y Pedro decidió olvidar a la niña del cementerio. Con un sentimiento de renovación, seguía con el trabajo, con su vida. En este día llovía mucho y casi no se podía trabajar en la tierra. Pedro prendió un cigarrillo y decidió caminar a tientas. Ya se aproximaba el final del día y dentro de poco tiempo estaría libre. Se le ocurría que podría ir al cine, hoy los precios eran promocionales. Se entretenía con sus pensamientos cuando una lápida atrapó su mirada: allí estaba grabado el nombre de su mujer y a su lado el de una niña.
Al final de una semana de búsquedas, se enteró de que su mujer estaba embarazada cuando lo había abandonado y que había registrado a la hija sólo con su apellido de soltera. Desde entonces Pedro supo que la niña de blanco de aquella tarde era la eternidad de su duda.

Enfim, aqui estamos!


A nossa oficicina literária começou em 18 de março de 2006. Somos um grupo que se reúne todos os sábados para estudar e escrever contos. Parece chato, mas não é. A gente se diverte bastante, conta piadas, fala de política, da vida, uns dos outros. Mas o melhor de tudo isto são as leituras... Começamos lendo Carlos Drummond de Andrade e já passamos por Lygia Fagundes Telles, Caio Fernando Abreu, Dalton Trevisan, Mário de Andrade... e pelos clássicos, Clarice Lispector, Machado de Assis, Guy de Maupassant, Tchekhov, ... Eles nos ensinaram muito sobre o gênero conto, e o melhor foi perceber isso escrevendo. Sempre fundamentamos nossas análises de contos com teoria literária, recorremos a Massaud Moisés, Beth Brait, Nádia Gotlib, aos mestres Júlio Cortázar, Edgar Allan Poe, Machado de Assis, entre outros.
Tentarei descrever aqui um pouco de nossos encontros, de nossas últimas experiências de escrita que unem a palavra ao cinema e à fotografia. Algumas dinâmicas de escrita literária foram inspiradas em contos lidos e analisados, outras nasceram da impressão de filmes e fotografias, outras de experiências minhas em uma oficina literária de La Plata (Argentina) e outras nasceram da imaginação + acaso + conhecimento de mundo + amizade + "momentos de loucura" desta que escreve, do seu amigo e poeta Frederico Helou Doca e do grupo. Espero que nossos amigos e visitantes sem compromisso curtam estas linhas e... nossos contos. Um grande abraço a todos!

Em que pé estamos

Estamos com os dois pés enterrados num campo semeado de palavras. Teve gente que tirou seus pés para descansar, outros para desbravar novos campos... mas ainda estamos juntos, descobrindo nas palavras outros universos. Decidimos ficar mais próximos dos textos e menos da teoria, eles dão mais ânimo de escrita. Quando passar a nuvem preta que se instalou sobre minha cabeça, prometo que volto a falar de Gérard Genette e outros. Estamos todos os sábados no mesmo galpão, que aliás será em breve inaugurado como espaço cultural. Saudações meu querido amigo Andrey! Ali fazemos divertidas experiências de escrita, algumas surrealistas, outras inovadoras e repentinas, outras lúdicas e infantis, algumas criadas outras herdadas. Enfim, a paixão pela Literatura é a grande responsável por essas loucuras. Agora é com você! Escolha um de nossos contos e abra os olhos para a sua IMAGINAÇÃO.