segunda-feira, março 26, 2007

Vi

Juliana Padilha
Então vi sua luz e sabia que era ele, como quando era criança e achava que via seu rosto atrás de minhas lágrimas ofuscadas pela luz do criado-mudo. Lembrei-me do seu rosto desenhado num quadro no corredor da escola. Em fila, seguindo os meus colegas em passos lentos, encontrava seus olhos, parecia também me seguir, mais do que eu a ele, que dava meus primeiros passos também até sua casa, aprendia sobre sua vida, a agradecer-lhe o que tinha e não tinha. Meu pai obrigava-nos a fazer-lhe reverência , ele deveria ser tudo. Então, uma vez que estava triste, porque minha mãe havia saído para trabalhar quando todos dormiam, temi pela sua vida. Um choro convulsivo começou a sair de dentro de mim como água represada, quase afogada num sentimento de orfandade, sosseguei quando vi a luz tocar seu rosto, que me observava do alto da parede. Ele estava ali e por um inominável mistério chegava até mim, até a coberta que me tapava no frio de julho, até meu peito branco soluçante, até o coração que batia quente de sangue, até o que estava além dos glóbulos vermelhos e hemácias, que tudo sente e permanece no infinito universo. Juntei minhas mãozinhas e senti sua PAZ. Desde de então, tentei seguir seus passos, às vezes tropeçando, errando o caminho, seguindo a passos lentos.
Dizem que quando chega o momento, toda nossa vida vem à mente para selar o ritual de despedida. Lembro apenas de ter visto meus olhos fecharem-se nos olhos de minha mãe, depois tudo ficou mais branco e leve, a dor não podia vir comigo, ficou sem ser percebida. Fui andando na sua direção, uma suave brisa fazia alvas nuvens de fumaça dançarem, a luz ficava mais forte, tudo no mais completo silêncio, até minha voz interior. Olhei para sua face, sempre distante, a luz é que se fazia mais intensa. Que bom que estou com você. Todos estão com você. Onde? Dentro e fora de você. Pensei em minha mãe, a vi saindo do hospital sozinha, entrar no carro de meu tio e não dizer uma palavra até sua casa. Queria tocar, abraçar, e quando estendi meu braço, estava de novo no caminho da luz, apontando para ele, com redemoinhos de vento sobre minhas pupilas. Não… gritei, então vi seu rosto, que quase tocou o meu e ficou pertinho… desenhado por diferentes tons de luz, maior, flutuante no ar que eu julgava ainda consumir. Por que tudo tem que acabar, é um infinito sofrimento este… Escutei o eco de minha voz três vezes, e foi com sua voz que ele o interrompeu. Somos um só, mesmo com tantas diferenças. O universo está num cadenciado e ininterrupto movimento, somos o Tempo dividido, sonhado, vivido. Desde a Idade da Pedra somos um só corpo e seus infinitos desdobramentos. E Deus? Pensei. Ele é você, eu e os outros… seja bem-vindo ao Mistério da Vida. Tentei falar, mas já não escutava minha voz, agora eu era todo uma nuvem negra de chuva, vento e raios, que passava pelos céus de diferentes tempos. Vi o homem acender sua primeira chama de fogo e levantar seus rostos ao céu, vi os homens levantarem pirâmides e baixarem seus olhos a faraós, vi homens encontrando o céu antes de encontrarem feras maiores que eles, reis matarem crianças em nome um Deus que não estava no céu, um soldado francês dominar vastos territórios e sentir o céu cobrir-lhe de poder e riquezas, vi o olhar doce dos índios para a cruz de ira que descia dos céus, rasgando a carne e fé, vi a correria dos homens e a fumaça das chaminés misturar-se com as nuvens de tempestade, vi o homem ficar cego com tanta tecnologia, não olhar para o verde das árvores e o azul do céu, vi uma explosão provocar um abismo de mortes e encher o ar de partículas, vi o olhar de fome de uma criança deixar mais cinza o céu da grande cidade, vi a mim, recém-nascido e velho, ao semelhante com várias caras e uma igualdade de sentimentos, vi……………….DEUS!

sexta-feira, março 23, 2007

APENAS UM MENINO

Elionora Silvéria
Amém, amém. Todos os demais alunos pareciam dizer amém a tudo que o professor dizia. Que o vice-diretor mandava. Um bando de idiotas com sangue de barata. Com tais pensamentos ia revoltado, seguindo ladeira abaixo, chutando o que lhe surgia pela frente: uma tampinha de garrafa, um galho, um saco plástico, uma pedra. Ele não agüentava mais aquela escola nojenta. As rodinhas fechadas, os risos disfarçados que, tinha certeza, se referiam a ele. No mínimo as meninas ficavam gozando do seu sotaque, sua fala diferente da do resto das pessoas. Ele não tinha culpa de ser novo, ter vindo de outra cidade.
Realmente estava muito puto. Aquela tinha sido a gota d’água. Ser chamado à Diretoria por causa de bomba. De bombas! Quase todo dia alguém soltava uma bomba no banheiro da escola provocando o maior alarido. Grande confusão. As meninas gritando assustadas no pátio do recreio, tampando os ouvidos na sala de aula. Os moleques rindo superiores.
Mas esta última vez fizeram ‘no capricho’. Tanto, que ela conseguiu até deslocar um dos vasos sanitários no banheiro dos meninos. Foi o maior estrondo, e algum safado tinha dedurado o menino, acusando de tê-lo visto colocar o rojão e depois sair correndo. Por este motivo ele fora chamado às favas.
A sala do diretor: bonita, imponente, com pesadas cortinas azuis, tapete, móveis de cor combinando e um computador de última geração. Havia fotografias da família sobre a mesa e chamou-lhe a atenção o crucifixo enorme, de madeira, pendurado na parede detrás da mesa. O diretor era um homem rigoroso, de pés enormes, amante da disciplina e tinha frios olhos azuis. O homem sentado e a cruz pendurada sobre a sua cabeça formavam um quadro original, parecia uma imagem ondulante, um conjunto que atraía a visão como ímã. “Nunca pensei que ele fosso católico. Achava que era judeu”.

O diretor, seu Álvaro Miranda, não quis conversa. Ele tinha a acusação, ele tinha testemunhas, ele deu o gancho: dois dias.
Saiu dali contrariado e doido para descobrir quem teria sido o ‘vacilão’. Acertariam contas depois.
“E agora?.... não posso chegar em casa em hora tão imprópria sem ter um bom motivo”.

Resolveu ficar zanzando em volta da Escola. Dar um tempo até soar o último sinal. Então voltaria com a cara mais lavada do mundo. Ia almoçar e faria a tarefa do dia como um excelente aluno faria. “Mamãe não pode saber”.

Correu tudo às mil maravilhas no primeiro dia. Mas, e no segundo?

A escola ficava não muito longe de sua casa. Era um prédio relativamente novo e, comparada com as demais escolas públicas, até que não era das piores. Pelo menos as paredes tinham sido pintadas recentemente de tom bege, e os tijolinhos junto ao portão de entrada eram particularmente simpáticos. Olhando de fora, ninguém diria o labirinto de grades, esquinas, cadeados e portões que havia, separando cada ala. Ultimamente, até as salas de aula ficavam trancadas com cadeado nos intervalos, mesmo durante o dia. Era um nojo a escola.
“Tenho que bolar um esquema pra mãe não desconfiar“...

Na manhã seguinte, levantou-se e saiu de casa na mesma hora de sempre. Pegou o ônibus escolar e foi motivo de gozação (lógico) - entre os colegas. Depois que todo mundo entrou na Escola, um peso enorme abateu-se sobre as suas costas. Sentou, levantou, andou em volta do colégio, zanzou por ali. Porém as horas demoravam demais a passar. Imerso em seus pensamentos foi indo e afastando-se do prédio.
Passou o campinho, dobrou duas esquinas, passou na porta de um bar que não conhecia.
Uns homens idosos jogavam conversa fora e sinuca. “Puxa, logo cedo esses caras jogando no bar?” Pensou aborrecido e cheio de calor. Deu a volta pela rua de cima, olhando as vitrines e coisas que nunca antes haviam chamado sua atenção. Parou quando ouviu alguém chamar:
- Óh garoto, vem aqui.

Alguém que não conhecia puxou conversa, e ele lembrou de repente dos conselhos de sua mãe: “...não falar com estranhos na rua”. O homem, pequeno e com uma enorme barriga redonda, usava relógio dourado, um terno claro e um prendedor de gravata combinando com o relógio de pulso. Talvez fosse de ouro.
Essa pessoa tinha uma pele diferente: fina, de cor avermelhada, suava muito e limpava a testa com um lenço branco dobrado ao meio. Parecia estrangeiro, tinha uma fala estranha e parecia estar meio perdido na cidade.
Sua maneira de andar lembrou-lhe o jeito de seu tio Dinho, que ele há muito não via. Depois de indicar ao sujeito o endereço que ele pedia, recebeu de presente um picolé e a promessa de que ganharia uns bombons especiais, se no dia seguinte acompanhasse o tal até sua casa para ver uns Dvds infantis.

Na manhã seguinte, dia de aula normal, o garoto, inventando uma desculpa qualquer, decidiu por sua própria conta tirar mais uma folga.

(Baseado num conto de João do Rio.)

Suspiro de Morte

Tharcisio Leone
O caminhar é lento, os becos escuros são o caminho, na noite silenciosa e vazia a lua é a única companhia, companheira e testemunha ela observa aquela linda mulher, de olhos claros, cabelos loiros e sorriso doce. Em sua identidade lê-se Izabel Mendes, mas o mundo a batizou de Anita, mesmo mundo cruel que lhe arrancou dos laços familiares e jogou-a nas ruas, sem casa, sem dinheiro e sem esperança.
Os primeiros raios do sol encontram-na em sua rua, abrindo a porta barulhenta e enferrujada de sua casa, lá dentro três míseros cubículos formam seu lar, na sala uma estante velha e torta serve de suporte às suas recordações, uma máscara de carnaval, duas garrafas de aguardente e três preservativos masculinos; no quarto a cama é desarrumada e fétida, o cheiro nauseante expelido pelo abrir da janela invade a rua.
O lar não lhe traz sossego, e a cama não lhe traz sono, a consciência pesa sobre sua mente, os pensamentos se confundem ao cansaço, e o corpo finalmente se entrega ao descanso. De repente uma grande escuridão se abre sobre ela.
- Onde estou? Por que não vejo nada à minha frente? – Socorro! – Ah, para que me desesperar, o que temo? O medo é cúmplice dos desejos, se não desejo nada por que temer?
Anita caminha despreocupadamente pela escuridão, nos olhos os sinais da fascinação; - Sim, existe beleza no vazio, a ausência muitas vezes é mais salutar que os desejos. De repente, ela percebe que é observada de longe, o brilho de dois olhos vermelhos demonstram que não está sozinha; ela caminha em direção à luz e vê um ser alto de capa preta, rosto de morte e olhar de desilusão.
- Por que me olhas com tanto receio? – pergunta o homem.
- Quem é você? Fala comigo como se me conhecesse.
- Sim, eu conheço, somos íntimos, por muito tempo clamaste pela minha presença. Lembras das noites em tua casa, das quedas nas sarjetas entregue à dor e à humilhação onde chamavas por mim? Sou a Morte.
- Que bom, há tempo te esperava, nos últimos meses passei a clamar-te, não agüentava mais minha sina, os dias eram cada vez mais compridos, a angustia me acompanhava, fiz dos meus sonhos o refugio do pesadelo da minha vida.
- Garota arrogante! Por que ages desta forma? Tu deverias ter medo de mim, teu corpo deveria estar trêmulo, teu rosto pálido como uma vela de sete dias; ao invés disso me tratas com intimidade, não tens medo de perder tua vida?
- Não posso perder algo que nunca tive, eu nunca vivi, apenas sobrevivi nesse mundo sórdido e miserável, eu sempre . ..
(ainda ouvindo o lamurio de Anita, a Morte afasta-se e sai caminhando vagarosamente para frente).
- Onde vai? – grita Anita. Não vai levar-me com você?
- Não, nenhum sofrimento pode ser maior para ti do que continuares com vida.
Neste instante Anita desperta abruptamente e levanta-se da cama, no espelho observa seus olhos fundos de morte e o rosto pálido como uma vela de sete dias.

Dia-a-dia

Juliana Padilha
Na frente da Tv viu o Jornal Nacional, a novela das oito e dormiu no sofá com o pescoço caído para trás. Na noite seguinte outro ciclo televisivo: jornal Nacional, novela das oito e A Diarista. Dormiu em cima da cadela, que ficou encolhida debaixo de seus pés. XXXXXXXXXXXXXX A televisão o despertou na madrugada, fora do ar com os fortes raios da tempestade. A casa alagou, foi dormir com a água beirando a cama. Outro dia, outra noite, plim-plim, a seguir mais um episódio da minisérie. “Boa noite” e viu quando a mulher desapareceu no corredor. Minisérie, comerciais, minisérie, comerciais, minisé… na praia, defronte para o mar, bebendo um cerveja, “estou na paraíso”, caiu do sofá com os vizinhos, “abaixa”, pa, pa, pa-pa-pa-pa-pa. Outra vez teve que ir para o quarto agachado, com a cadela a seguir-lhe o traseiro. Outro dia, o sol, o mesmo desce e sobe morro. Janta, Jornal Nacional, “Pai”………….., “pai”,…………….. “Que é?”………… “Nada, esquece”. Novela, calor, janelas abertas, só a TV fala. Não percam hoje, A Grande Família! Novela, comerciais, novela, comerciais. A discussão começou na casa ao lado, mulher e marido se acusam, os filhos choram. Um tiro e a tv tem seu volume baixado. Vão dormir com a sirene da policia chegando e a luz dos carros fazendo círculos no teto. “Bem-feito, assim não bate mais nela” e sua mulher apaga. Ele fica ainda com os olhos abertos, presos nas formas femininas do seu lado. A cutuca, de novo, mas só escuta sua respiração agitada pelo cigarro. Outro dia, chuva que cai, desce morro com a lama a chegar primeiro lá em baixo. Trabalha, come, trabalha. Com o pôr-do sol esquálido brinda a companhia de uma cerveja, no bar aqueles de sempre. Noite cai, se desequilibra, o amigo ajuda, sobem o morro trazendo a lama. A mulher abre a porta com o bebê no colo, vira a cara para o álcool, não para o beijo. Se tranca no quarto, o choro é silenciado pela TV. Jornal Nacional, casal perfeito, Willam Bonner e Fátima Bernardes, falam para Joãos que não escutam, no conforto de seus sofás, fecham os olhos para si mesmos. Novela, comerciais, nove…. ZAP! A tela escureceu, ele ficou atirado ali mesmo, ela deitou com os filhos. Outro dia, sábado de aleluia, crianças na praça, o sol iluminando os barracos de madeira, mal pintados, rebocados. Anas e Marias trabalham, lavam roupas, costuram, limpam agora, quem sabe, suas casas. Ela já vai longe, com os filhos agarrados na barra de sua saia. Na casa apenas a TV, majestosa.

Em que pé estamos

Estamos com os dois pés enterrados num campo semeado de palavras. Teve gente que tirou seus pés para descansar, outros para desbravar novos campos... mas ainda estamos juntos, descobrindo nas palavras outros universos. Decidimos ficar mais próximos dos textos e menos da teoria, eles dão mais ânimo de escrita. Quando passar a nuvem preta que se instalou sobre minha cabeça, prometo que volto a falar de Gérard Genette e outros. Estamos todos os sábados no mesmo galpão, que aliás será em breve inaugurado como espaço cultural. Saudações meu querido amigo Andrey! Ali fazemos divertidas experiências de escrita, algumas surrealistas, outras inovadoras e repentinas, outras lúdicas e infantis, algumas criadas outras herdadas. Enfim, a paixão pela Literatura é a grande responsável por essas loucuras. Agora é com você! Escolha um de nossos contos e abra os olhos para a sua IMAGINAÇÃO.