sábado, dezembro 02, 2006

Vitima da Solidao


Tharcisio
A rua Querubim tem uma rotina semelhante às demais ruas do centro da cidade, freqüentemente está congestionada pelo tráfego intenso de carros e pelas pessoas caminhando apressadamente de um lugar a outro, a única coisa que difere esse lugar dos outros da cidade é a linda melodia que se ouve diariamente a partir das 8:30 da manhã, é um som agudo que sai de um casarão velho e fétido, proveniente de um trombone afinado e, provavelmente de uma alma melancólica.. O som estarrece pela tristeza e amargura contida em suas notas, paralisando assim por minutos alguns pedestres e ambulantes, durante quase trinta minutos as pessoas deixam sua correria diária para deliciar-se com a música, ao final do ato, muitos tem os olhos lacrimejantes e a voz embargada pela emoção.
Quando as pessoas voltam a razão, muitas retornam à sua rotina diária, correm para o trabalho ou para a escola, porém todas levam consigo uma parcela da angustia e do sofrimento exposto na melodia. São muitos os interessados em descobrir quem é o autor dessa música e a razão de tanto sofrimento, porém ao contrário da maioria dos artistas, esta artista, escondida dentro do casarão, não aprecia o reconhecimento de seu público, pois por maior que sejam os aplausos ao final de sua exibição ela nunca sai até a varanda para ver seus fãs.
Algumas crianças, motivadas pela imaginação e ingenuidade próprias da idade dizem que a dona do casarão é uma velha bruxa que passa o dia aterrorizando as pessoas com suas feitiçarias e que a música é apenas mais um feitiço da velha, utilizado para evocar os espíritos e deixa-los pairando sobre a cidade. Os mais idosos, porém, dizem que a casa é habitada por uma senhora inofensiva e solitária que utiliza a música para lembrar-se da juventude e esquecer as mazelas de sua vida.
Na verdade, a autora da sinfonia e dona do casarão é Dona Elisabete; uma bondosa senhora que sentada em uma velha cadeira de balanço passa os dias observando o movimento incessante das ruas; gosta de observar o movimento das pessoas e principalmente as ações dos jovens, pois observa nestes além da pressa, particular a todos os habitantes de uma grande cidade, observa também a alegria e principalmente a esperança. Esperança que a tempos não carrega dentro de si, esperança que viu decepar - se com o passar dos anos; justo ela, que na infância sonhava em conquistar o mundo, em domar os interesses escusos das pessoas e viver em uma sociedade justa e digna.
Não se lembra que dia da semana é hoje, a tempos parou de contar os dias, sua idade transformou-se em uma incógnita para si mesma, acredita porém que esta quase chegando aos oitenta anos, sendo que quase quinze deste anos foram de solidão, desde que seu marido faleceu não tem mais companhia para suas refeições, suas conversas resumem-se a intermináveis monólogos, já não tem toalhas de mesa, restaram em sua cozinha penas dois pratos.
Tem na lembrança a imagem de seu filho, porém esta imagem já não se encontra tão lúcida, pois faz quase dois anos que não recebe a visita dele. O filho da Dona Elisabete é um famoso advogado da capital, tinha alcançado fortuna e prestigio com seu trabalho, isso enchia sua mãe de orgulho, pois foi graças ao seu esforço que o filho conseguiu estudar. Foram anos de trabalho intenso para isso, quantas noites não passou acordada em frente a maquina de costura terminado roupas para suas clientes, quantas vezes não deixou de sair, de se divertir e de até comer para conseguir guardar dinheiro para pagar a mensalidade da escola de seu filho.
Hoje em dia, as engrenagens de sua maquina estão enferrujadas, pois suas mãos e sua visão impedem –a de costurar, também não tem mais razão para trabalhar, pois seu filho já esta formado, a ultima peça a passar por aquela maquina foi uma linda blusa azul que costurou para dar de presente ao seu filho, porém a quase um ano este presente encontra-se embrulhado para ser entregue
Às vezes, quando esta deitada em sua cama entregue ao silêncio ensurdecedor da noite ela ouve a voz de seu filho chamando por ela, levanta-se então e caminha angustiantemente até o quarto, no caminho sente-se feliz com a hipótese de rever sua cria, em abraça-lo e beija-lo como fazia quando este era criança, porém quando abre a porta do quarto e vê a cama vazia, rodeada pelos brinquedos e pelos moveis inertes seu coração enche-se novamente de tristeza e decepção.
Para tentar se distrair ela volta a seu quarto e liga a televisão, ao assistir despreocupadamente uma propaganda de uma loja de roupas se dá conta que no próximo dia será dia das mães, seu coração enche-se novamente de esperança, pois certamente seu filho irá lembrar-se dela, haja vista, que ele tem apenas uma mãe e é claro que irá compartilhar esse dia com ela.
É tomada então por tamanha alegria que a faz arrumar toda sua casa, retira a espessa camada de pó que se encontra em cima de seus moveis, ao abrir sua dispensa e perceber que não tem nada a oferecer a sua futura visita, ela sai pela primeira vez na semana a rua e vai até o mercadinho da esquina comprar produtos para preparar o almoço de seu filho, lembra-se também em comprar pratos e talheres novos para a refeição.
No dia seguinte ela passou a manhã fazendo a refeição preferida de seu filho, apesar da idade e da memória ruim lembrava-se que ele adorava comer arroz carreteiro com carne de porco, ao final da manha sua mesa já estava posta e ela foi arrumar-se, colocou sua melhor roupa, passou perfume, retocou a maquiagem e ficou no aguardo do filho. O relógio da sala já passava do meio dia quando ouviu sua campainha tocar, por um instante sua vida voltou a encher-se de esperança e alegria, seu coração disparou, lembrou-se dos momentos felizes de antigamente quando toda a família se reunia em torno da mesa de jantar e conversava sobre o dia vivido.
Caminhou apreensivamente até a frente de sua casa e no intuito de abraçar logo seu filho abriu desesperadamente a porta e olhou a pessoa do lado de fora, por um instante sua alma saiu de seu corpo, um gelo horrível tomou conta de si ao perceber que aquela pessoa não era seu adorado filho, não passava de um carteiro que a entregou um pequeno bilhete e voltou para a rua. Dona Elisabete percebeu que o remetente desta correspondência era seu filho, abriu rapidamente então o envelope e leu o pequeno recado.
- Querida mamãe, infelizmente não vou poder passar o dia das mães com você, pois conheci uma mulher maravilhosa a alguns dias e vou passar o dia com a mãe dela, porém mesmo a distancia gostaria de lhe desejar um “feliz” dia das mães.
Os vizinhos dizem que ouviram o som do trombone durante toda a noite de domingo, foram quase oito horas interruptas daquela melodia melancólica e solitária, porém a partir de segunda – feira não ouviram mais a música, os pedestres acostumados ao som continuavam indo a frente do casarão pela manhã, porém não tinham ao que assistir, todos acharam estranho esse silêncio que perdurou por toda a semana.
Devido a este silêncio e a falta de movimentação na casa os vizinhos chamaram a policia, ao entrar no casarão perceberam que a porta estava aberta e que a mesa estava posta, porém a comida já era atacada por mosquitos e ratos; ao entrar no quarto encontraram uma velha senhora deitada com alguns brinquedos em cima, ao se aproximarem sentiram um cheiro fortíssimo, proveniente certamente de um cadáver em decomposição.

Sociedade de Clones


Tharcisio
Passam das seis horas da manhã e os raios de sol já adentram pelo grande galpão de portas largas e teto de zinco, o cheiro do orvalho se dispersa com rapidez devido ao aquecimento das telhas e paredes, ouve-se vagamente ao fundo o cantarolar dos galos que despertam e assanham suas pares fêmeas.
Com a luz do dia é possível ver a imensidão daquele galpão, são quase quinhentos metros quadrados separados em pequenos retângulos com um cocho e uma fonte de água, lá dentro amontoam-se milhares e milhares de frangos, o calor é superado apenas com o auxilio de uma grande ventilador que circula ar fresco evitando que morram todos sufocados.
Lá dentro os frangos conversam sobre a noite passada e as expectativas para o novo dia que se inicia, todos se encontram sorridentes e felizes; a calmaria da manhã é quebrada pela chegada de mais um carregamento de frangos que chega do interior, aumentando ainda mais a lotação. Após a chegada os novos hospedes acomodam-se e saem das baias para se familiarizar com a nova casa, todos são bem recepcionados pelos hospedes antigos e passam a conversar.
- Nossa, mas que lugar lindo, tão limpo e organizado, eu nunca havia ficado num espaço assim! – disse um dos novos hospedes.
- Realmente, este lugar é maravilhoso – respondeu o sindico da baia 8 – Esta granja recebeu o prêmio de melhor granja do país, os frangos daqui são exportados para os Estados Unidos, Europa e até pra China.
- Quer dizer que vou ser comido por um inglês ou chinês? Que orgulho, nunca pensei que eu, um frango nascido no interior, de família pobre e órfão de pai teria uma honra dessa.
O dia seguiu-se com os veteranos apresentando a granja aos novos e explicando todo o seu funcionamento, desde a chegava do frango até a entrega das peças embaladas ao cliente, passando pelas acomodações e a forma de abate.
- Vejam, - disse o sindico – este espaço é para aqueles frangos que chegam abaixo do peso, eles ficam aqui por um tempo, recebendo uma ração balanceada para ganharem corpo e ficarem iguais aos demais da granja, pois aqui precisamos ter todos as mesmas características; do outro lado encontram-se uma outra sala onde são colocados os frangos que estão acima do peso, ali eles recebem uma ração “light”, para que perdão peso e ganhem músculos.
Os novos hospedes ficavam impressionados com a organização do espaço e com o cuidado com que são tratados, ao caminharem observavam cartazes colados na parede com retratos de frangos fortes, brancos e sorridentes dizendo: “Agora você é um dos nossos! Temos orgulho em tê-lo na família FRANGOSUL”.
À noite foram todos levados a uma grande sala escura, onde passava um filme sobre a história da empresa, o filme apresentava os frangos como importantes e responsáveis pelo sucesso da empresa, mostravam famílias alegres ao redor da mesa saboreando os produtos da empresa, crianças dizendo que aquele frango era o mais gostoso do país, ao final do filme muitos dos frangos tinham os olhos lacrimejados pela emoção.
Apenas um frango, de nome Galináceo Silva Pinto não demonstrava a alegria particular a todos, devido a sua cara emburrada e olhar melancólico o sindico chegou até ele e quis saber o porque daquela angústia.
- O que aconteceu? Não gostou da granja? – perguntou o sindico.
- Não, não é isso! È o melhor lugar que já fiquei na minha vida, porém queria estar fora daqui, queria correr livre pelo campo e procurar comida sozinho, me sinto como se estivesse em uma gaiola, uma gaiola de ouro, mas ainda assim uma gaiola.
- Mas o que é isso – retrucou o sindico – Quer retroceder, nossos antepassados lutaram muito para que um dia tivéssemos um lugar assim, e você quer jogar “tudo para cima”.
Olhando pela janela do cocho Galináceo observou que havia um frango pulando livre no quintal da granja, esta cena despertou sua curiosidade.
- Quem é aquele frango que esta correndo livre pelo campo? Ele é da granja?
- Não, ele não é um dos nossos, aquele é um frango caipira, ele vive por aí, andando de um lado para o outro, comendo minhocas e outros insetos fétidos que encontra pelo caminho, perceba como ele é, tem penas vermelhas e pernas finas, não pagariam um tostão por sua carne, pois tem um sabor forte e horrível bem diferente de nós, frangos de raça superior, todos brancos, fortes e saborosos.
- Eu quero ser igual ele – disse Galináceo.
- Esta louco? Indagou o sindico – São todos vagabundos, andam por ai sem razão, sem porque, vivem uma vida sem objetivos e segurança; existe até uma lei na câmara das aves que se for aprovada proibirá estes seres de caminharem livres pelas ruas, pois são um perigo à nossa sociedade e um exemplo negativo para os nossos filhos.
A discussão seguiu-se por quase duas horas, outros frangos que passavam pelo local pararam para ouvir e muitos tomaram partido, alguns defendendo o síndico outros a favor de Galináceo, o debate não pode se estender por mais tempo porque o sino tocou e conforme a regra da granja, após o sino todos tinham que se retirarem para suas baias e dormirem.
No outro dia, logo pela manha, muitos frangos procuraram Galináceo em sua baia para ouvirem mais sobre suas posições e idéias, porém no lugar onde o mesmo dormia encontraram apenas algumas penas quebradas e um cheiro insuportável de iodo.

Alma Morta


(Foto Deise Lane/Viva Favela)
Tharcisio
São quase cinco horas da manhã e a claridade da luz do sol já adentra pelo barraco de madeira, o som de passos e conversas rompe o silencio da madrugada, a noite infelizmente chega ao fim, iniciando assim um novo e melancólico dia na favela Eldorado.
Apesar da diversidade de vidas e formas existentes nesse espaço, a cena que se inicia com o romper da aurora é quase sempre o mesmo em todos os barracos; a mãe adolescente, pouco instruída e miserável desperta, abandona sua alcova e dirige-se ao cômodo ao lado onde seu filho ainda dorme e sonha.
Sonha com uma vida melhor, sonha com o dia em que poderá dormir e não se preocupar com as goteiras do teto ou com a enchente do córrego; imagina como seria sua vida em uma casa de alvenaria, poderia ter um quarto apenas para ele, com uma estante repleta de brinquedos e enfeites, teria assim orgulho em convidar seus amigos a visitarem sua casa.
Em seu devaneio ele tem pais compressíveis que o apóia e incentiva, sua mãe uma fonte de carinho e bondade o ajuda nos deveres escolares e tem sempre uma palavra de incentivo e consolo; seu pai é o seu exemplo, homem trabalhador e honesto, sempre o leva para passear no zoológico e andar de bicicleta, o apresenta para seus amigos como sendo seu grande orgulho.
No sonho a criança é livre, ele diverte-se e delicia-se com a liberdade de entrar nas lojas do “shopping center” e levar seus brinquedos prediletos, no sonho ele entra na escola bonita e grande que existe ao lado da favela e brinca até cansar no parquinho ao lado do pátio, seus novos amigos lhe tratam com galhardia e sua professora é uma moça linda, de cabelos longos e olhos claros que fala vagarosamente e deixa transparecer sua doçura e benevolência.
Essa sua quimera é interrompida pela ação de uma mão pesada que o aperta e acorda, ao abrir os olhos percebe que na realidade sua casa é feita de retalhos de madeira, com telhado improvisado de folhas de bananeira e isopor, sua mãe diferentemente do que sonhava não o chama de amor, não o sorri e nem o incentiva, pelo contrário, ela o trata com raiva e amargura, suas palavras são sempre seguidas por insultos e menosprezo; ao seu lado não tem o pai, as únicas lembranças que tem deste são as palavras de ressentimento e raiva que sua mãe pronuncia ao se lembrar do homem que a abandonou grávida e “sumiu” no mundo.
Para sua alegria o dia manteve a visão da escola bonita e grande ao lado de sua casa, porém ao se aproximar do prédio percebe que as crianças já não o tratam com a generosidade anterior, os olhares que as crianças voltam para ele são de desconfiança e medo, observa que ao passar pela rua as mães dos alunos seguram firmemente a bolsa e fecham os vidros dos carros; o senhor idoso e alto a quem os outros chamam de porteiro não o deixar entrar para brincar no escorregador, senti a alegria contagiante das outras crianças, mas percebe que aquilo está muito longe de seu alcance.
Tomado pela angustia ele se lança a desbravar as longas e tumultuadas avenidas do centro da cidade, procura desenfreadamente por alguma coisa que possa dar sentido a sua vida, busca um amor, um trabalho, uma esperança, busca a si próprio.
Chega finalmente à esquina da São João com a Piratininga, onde se pinta e passa a distrair os motoristas, o sinal é seu local de trabalho e a alegria sua função; infeliz coincidência do destino, o menino triste e melancólico alegra as pessoas, pessoas que quase sempre o ignoram e são alheias ao seu sofrimento e a sua súplica por dinheiro e comida.
Os carros passam, as pessoas passam, a areia da ampulheta vai chegando ao fim e a criança sempre na mesma rua, com os mesmos truques e a mesma perspectiva. Para sua felicidade a névoa negra da noite já começa a tomar conta do céu, terminando assim com mais um mofino dia de trabalho. Ele recolhe então seus pertences, lava o rosto e caminha apressadamente para casa, sua pressa não é para rever sua mãe ou aproveitar as benesses de seu lar, sua pressa é para chegar logo em casa e deitar em sua cama, pois somente no sonho sua alma deixa de ser morta.

Em que pé estamos

Estamos com os dois pés enterrados num campo semeado de palavras. Teve gente que tirou seus pés para descansar, outros para desbravar novos campos... mas ainda estamos juntos, descobrindo nas palavras outros universos. Decidimos ficar mais próximos dos textos e menos da teoria, eles dão mais ânimo de escrita. Quando passar a nuvem preta que se instalou sobre minha cabeça, prometo que volto a falar de Gérard Genette e outros. Estamos todos os sábados no mesmo galpão, que aliás será em breve inaugurado como espaço cultural. Saudações meu querido amigo Andrey! Ali fazemos divertidas experiências de escrita, algumas surrealistas, outras inovadoras e repentinas, outras lúdicas e infantis, algumas criadas outras herdadas. Enfim, a paixão pela Literatura é a grande responsável por essas loucuras. Agora é com você! Escolha um de nossos contos e abra os olhos para a sua IMAGINAÇÃO.