Tharcisio
A rua Querubim tem uma rotina semelhante às demais ruas do centro da cidade, freqüentemente está congestionada pelo tráfego intenso de carros e pelas pessoas caminhando apressadamente de um lugar a outro, a única coisa que difere esse lugar dos outros da cidade é a linda melodia que se ouve diariamente a partir das 8:30 da manhã, é um som agudo que sai de um casarão velho e fétido, proveniente de um trombone afinado e, provavelmente de uma alma melancólica.. O som estarrece pela tristeza e amargura contida em suas notas, paralisando assim por minutos alguns pedestres e ambulantes, durante quase trinta minutos as pessoas deixam sua correria diária para deliciar-se com a música, ao final do ato, muitos tem os olhos lacrimejantes e a voz embargada pela emoção.
Quando as pessoas voltam a razão, muitas retornam à sua rotina diária, correm para o trabalho ou para a escola, porém todas levam consigo uma parcela da angustia e do sofrimento exposto na melodia. São muitos os interessados em descobrir quem é o autor dessa música e a razão de tanto sofrimento, porém ao contrário da maioria dos artistas, esta artista, escondida dentro do casarão, não aprecia o reconhecimento de seu público, pois por maior que sejam os aplausos ao final de sua exibição ela nunca sai até a varanda para ver seus fãs.
Algumas crianças, motivadas pela imaginação e ingenuidade próprias da idade dizem que a dona do casarão é uma velha bruxa que passa o dia aterrorizando as pessoas com suas feitiçarias e que a música é apenas mais um feitiço da velha, utilizado para evocar os espíritos e deixa-los pairando sobre a cidade. Os mais idosos, porém, dizem que a casa é habitada por uma senhora inofensiva e solitária que utiliza a música para lembrar-se da juventude e esquecer as mazelas de sua vida.
Na verdade, a autora da sinfonia e dona do casarão é Dona Elisabete; uma bondosa senhora que sentada em uma velha cadeira de balanço passa os dias observando o movimento incessante das ruas; gosta de observar o movimento das pessoas e principalmente as ações dos jovens, pois observa nestes além da pressa, particular a todos os habitantes de uma grande cidade, observa também a alegria e principalmente a esperança. Esperança que a tempos não carrega dentro de si, esperança que viu decepar - se com o passar dos anos; justo ela, que na infância sonhava em conquistar o mundo, em domar os interesses escusos das pessoas e viver em uma sociedade justa e digna.
Não se lembra que dia da semana é hoje, a tempos parou de contar os dias, sua idade transformou-se em uma incógnita para si mesma, acredita porém que esta quase chegando aos oitenta anos, sendo que quase quinze deste anos foram de solidão, desde que seu marido faleceu não tem mais companhia para suas refeições, suas conversas resumem-se a intermináveis monólogos, já não tem toalhas de mesa, restaram em sua cozinha penas dois pratos.
Tem na lembrança a imagem de seu filho, porém esta imagem já não se encontra tão lúcida, pois faz quase dois anos que não recebe a visita dele. O filho da Dona Elisabete é um famoso advogado da capital, tinha alcançado fortuna e prestigio com seu trabalho, isso enchia sua mãe de orgulho, pois foi graças ao seu esforço que o filho conseguiu estudar. Foram anos de trabalho intenso para isso, quantas noites não passou acordada em frente a maquina de costura terminado roupas para suas clientes, quantas vezes não deixou de sair, de se divertir e de até comer para conseguir guardar dinheiro para pagar a mensalidade da escola de seu filho.
Hoje em dia, as engrenagens de sua maquina estão enferrujadas, pois suas mãos e sua visão impedem –a de costurar, também não tem mais razão para trabalhar, pois seu filho já esta formado, a ultima peça a passar por aquela maquina foi uma linda blusa azul que costurou para dar de presente ao seu filho, porém a quase um ano este presente encontra-se embrulhado para ser entregue
Às vezes, quando esta deitada em sua cama entregue ao silêncio ensurdecedor da noite ela ouve a voz de seu filho chamando por ela, levanta-se então e caminha angustiantemente até o quarto, no caminho sente-se feliz com a hipótese de rever sua cria, em abraça-lo e beija-lo como fazia quando este era criança, porém quando abre a porta do quarto e vê a cama vazia, rodeada pelos brinquedos e pelos moveis inertes seu coração enche-se novamente de tristeza e decepção.
Para tentar se distrair ela volta a seu quarto e liga a televisão, ao assistir despreocupadamente uma propaganda de uma loja de roupas se dá conta que no próximo dia será dia das mães, seu coração enche-se novamente de esperança, pois certamente seu filho irá lembrar-se dela, haja vista, que ele tem apenas uma mãe e é claro que irá compartilhar esse dia com ela.
É tomada então por tamanha alegria que a faz arrumar toda sua casa, retira a espessa camada de pó que se encontra em cima de seus moveis, ao abrir sua dispensa e perceber que não tem nada a oferecer a sua futura visita, ela sai pela primeira vez na semana a rua e vai até o mercadinho da esquina comprar produtos para preparar o almoço de seu filho, lembra-se também em comprar pratos e talheres novos para a refeição.
No dia seguinte ela passou a manhã fazendo a refeição preferida de seu filho, apesar da idade e da memória ruim lembrava-se que ele adorava comer arroz carreteiro com carne de porco, ao final da manha sua mesa já estava posta e ela foi arrumar-se, colocou sua melhor roupa, passou perfume, retocou a maquiagem e ficou no aguardo do filho. O relógio da sala já passava do meio dia quando ouviu sua campainha tocar, por um instante sua vida voltou a encher-se de esperança e alegria, seu coração disparou, lembrou-se dos momentos felizes de antigamente quando toda a família se reunia em torno da mesa de jantar e conversava sobre o dia vivido.
Caminhou apreensivamente até a frente de sua casa e no intuito de abraçar logo seu filho abriu desesperadamente a porta e olhou a pessoa do lado de fora, por um instante sua alma saiu de seu corpo, um gelo horrível tomou conta de si ao perceber que aquela pessoa não era seu adorado filho, não passava de um carteiro que a entregou um pequeno bilhete e voltou para a rua. Dona Elisabete percebeu que o remetente desta correspondência era seu filho, abriu rapidamente então o envelope e leu o pequeno recado.
- Querida mamãe, infelizmente não vou poder passar o dia das mães com você, pois conheci uma mulher maravilhosa a alguns dias e vou passar o dia com a mãe dela, porém mesmo a distancia gostaria de lhe desejar um “feliz” dia das mães.
Os vizinhos dizem que ouviram o som do trombone durante toda a noite de domingo, foram quase oito horas interruptas daquela melodia melancólica e solitária, porém a partir de segunda – feira não ouviram mais a música, os pedestres acostumados ao som continuavam indo a frente do casarão pela manhã, porém não tinham ao que assistir, todos acharam estranho esse silêncio que perdurou por toda a semana.
Devido a este silêncio e a falta de movimentação na casa os vizinhos chamaram a policia, ao entrar no casarão perceberam que a porta estava aberta e que a mesa estava posta, porém a comida já era atacada por mosquitos e ratos; ao entrar no quarto encontraram uma velha senhora deitada com alguns brinquedos em cima, ao se aproximarem sentiram um cheiro fortíssimo, proveniente certamente de um cadáver em decomposição.